terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ana G: título?

Janeiro

O ano de 2009 tinha estreado há 25 dias e já se revelava um sucesso de bilheteiras. Uma vida amorosa que tendia para o enfadonho, abria-se agora em variadas comédias românticas, tão pouco originais quanto deliciosas de viver nos seus clichés acolhedores. Com David e Manuel tinha os dias repletos de mensagens e convites espontâneos. “Vamos tomar café à beira-rio”, sugeria David, a poucos dias de embarcar para Londres no seu primeiro trabalho. Iria deixar Portugal, que lhe parecia tão rústico, tão sub-desenvolvido, em oposição à cultura anglo-saxónica. Eu achava-o parvo, arrogante até, mas tinha outros charmes e, apesar do discurso snob, nada patriótico, o seu espírito aventureiro era de invejar. Ia viajar pelo mundo fora e Lisboa seria nada mais do que um destino de férias. Quando me fartava das suas peneiras, o que mais tarde ou mais cedo acontecia, tinha Manuel. Tão ironicamente diferente do anterior, satisfeito com a sua pacata vida em Sintra e com o seu ritual casa-faculdade-amigos. Sempre com dinheiro no bolso vindo dos pais que lhe pagavam a gasolina e faziam o almoço no fim de semana. Era mais aproximado de mim, Manuel, embora de tal não me orgulhasse. Eu, encurralada no curso de Direito, ou assim o fazia parecer, em plena fase de exames, não sabendo se ia passar ou chumbar às cadeiras, delirava com as ofertas do novo ano, sem tempo para me preocupar com assuntos molestos como o estudo. A total falta de ambição deste segundo recurso amoroso era confortável para mim. Tinhamos um passado similar e o mesmo presente e, embora não desejasse para mim o que parecia ser o futuro dele, não pensava nisso, aproveitando antes a atracção da novidade.
Nesse vigésimo quinto dia do ano tinhamos agendado um jantar de família. Os avós maternos, únicos que viviam também em Lisboa, vieram e almoçámos todos cinco. A sala ampla, de janelas altas, deixava entrar o solarengo entardecer de Domingo e tudo naquele dia parecia amistoso e sereno. Rimos à mesa, havia conversas sobre conversas, e no fim da refeição dancei com a minha avó. Sem qualquer razão para tal, apenas porque nos apeteceu. Era assim, um dia feliz.
Lembro-me claramente do primeiro momento de quietude. Deu-se quando a minha avó revelou continuar, diremos assim, com problemas intestinais. Os medicamentos tinham feito efeito, mas ela continuava inchada, uma barriga enorme, estilo Natalício. Lembro-me de como lhe espetei um dedo no estômago saliente e ri imenso. Ela era, afinal de contas, a senhora Magreza. Sempre pronta a dizer-nos como andávamos a comer demais. E tinha agora uma cintura de fazer concorrência aos mais bojudos bebedores de cerveja. A minha avó riu comigo, enquanto a minha mãe lhe oscultava a barriga e trocava olhares franzidos com o meu pai. Essa cumplicidade deixou-me de imediato tensa. Como se dizia já, “quanto mais médicos, mais moléstia”. E dois então, não podia ser bom. “Mãe, vai ter que fazer analíses. É muito importante. Continua cheia de ar no estômago”, ouvi a minha mãe dizer, enquanto o meu pai aquiescia com a cara que eu já tinha vindo a reconhecer como a cara da desgraça. Senti de imediato a minha garganta secar e o peito encheu-se de uma sensação de cláusura numa espécie de claustrofobia interna. E foi aí que vi, pela primeira vez, um olhar na minha avó que só mais tarde viria a compreender totalmente. Havia medo nos seus olhos redondos, medo que nunca a vira dirigir a si mesma. Uma ansiedade triste mas calma, tão rara nela, uma mulher de personalidade exaltada e exuberante. Talvez por isso a tenha abraçado e enchido de beijos na despedida. Manifestações de afecto não são comuns em minha casa – não, não é tão frio quanto pode soar – somos muito unidos e, entre-dentes, lá vamos dizendo o quanto gostamos uns dos outros. Mas abraços e festas são como o serviço de prata, só se usa em ocasiões especiais.
Mal os meus avós sairam, chegou a altura das perguntas: porque tinham feito aquelas caras? A avó tinha alguma coisa grave? E, sem atalhos, responderam. Tinha cancro. Assim, a seco, fora lançado o diagnóstico. E embora dissessem “se Deus quiser não tem”, eram só palavras. Os olhos da minha mãe não davam espaço para ilusões - a minha avó tinha cancro.


Fevereiro

David partiu para a aventura, dias depois. Talvez tenha sido bom, porque ao menos a ele não associo todas as más memórias. Associo-o à saída na noite pré-natalícia, onde o conheci; associo-o às esplanadas de Belém onde se conversava sobre terras diferentes e lugares a visitar, e a ele associo aromas de cafeína e tabaco, em dias húmidos e frios. Ele nunca chegou a saber, não havia razão para tal. Na verdade, a maioria dos meus amigos não o soube até muito mais tarde. Eu tinha uma enorme confiança que tudo não passaria de um susto e, para não gerar um qualquer mau olhado, era preciso cuidar dela sem referir a doença. Nunca referir a doença.
As sessões de quimioterapia começaram e o cabelo foi desaparecendo. Continuava com a mesma expressão serena, contemplativa, mas principalmente triste. Tinha medo, pedia consolo com os olhos, mas sem teatros, sem gritos. Era realmente uma pessoa diferente naqueles dias e embora fosse mais fácil confortá-la assim, eu queria de volta a mulher das respostas sardónicas, humor cru e energia imparável. Eu queria-a de volta.
Sempre que a visitava ela estava sentada no mesmo cadeirão, muito agasalhada, com um lenço à volta da cabeça. Com o passar das visitas foi ficando mais fraca, mais rugas iam surgindo no canto dos seus olhos, mais estes iam fechando. Só o lenço e o cadeirão se mantinham assim... intactos, iguais.
No tempo que eu passava fora de casa e fora da sala onde ela permanecia no cadeirão, procurava distracções. A minha mãe sempre disse “és uma obcecada, sempre que gostas de alguma coisa tens que levar para o exagero”, e era exactamente isso que eu procurava naqueles dias. Procurava-o nos filmes, nas músicas, procurava-o em livros, em pessoas. Não em amigos nem família, nada que já fizesse parte. Tudo tinha de ser novo naqueles dias. E Manuel, na sua frescura, era ideal.
Um dia veio a minha casa, depois do jantar, e fomos passear pelos jardins renovados de Telheiras. Cheirava a chuva naquela noite, mas o céu exibia algumas estrelas e no silêncio invernoso criava-se uma atmosfera quente, contrária à real temperatura. Ele tinha a mania de dar as mãos, por isso, todo o caminho a ele fui atrelada e embora não tivesse gostado da ideia, a verdade é que aquele hábito criava uma sensação de segurança. Sentámo-nos nos bancos húmidos, em frente às lojas fechadas, e ele contou-me histórias. Eu ria, sem falsidade, transportada para a adolescência dele, o seu mundo de primeiras cervejas e corridas de mota. Fez-me um relato de todos os ossos que partiu, eu só tinha um para contrapôr com os dele (partira o pulso numa aula de Judo); falou-me dos dias que passara no Alentejo e tentou impressionar-me com o seu conhecimento de Portalegre, lugar onde eu vivera quase 10 anos.
Nessa noite, tornámo-nos amigos, mesmo que amigos fugazes, fomos realmente amigos por uma noite. E eu, sem o perceber ou planear, deixei-a estender-se. Fomos para o carro dele e entre namoricos quase inocentes ele mostrou-me músicas. Tínhamos um gosto parecido, o que na altura nos fazia sorrir ainda mais. Ele deu-me um dos seus CDs e prometeu-me outro, eu não fiquei à espera mas gostei dele o ter dito. “Podias ir ao meu jogo de futebol amanhã, conhecias os meus amigos. E depois jantávamos... Mais tarde que o costume mas podiamos jantar. Só que eu ia ter que passar por casa. Mas... Podias conhecer os meus pais. Quer dizer... Mas podias. Não havia problema, não é?”, dizia, sem interrupções minhas, entre olhares e pequenos sorrisos. “Amanhã vamos ao cinema como combinámos e depois vais ao jogo. Jantamos outro dia, em que não tenhas tanto para fazer. Não te preocupes, temos tempo para tudo”, respondera eu. Ele, se se desentusiasmara no início, voltara a ganhar ânimo com o fim. Mas mais valia ter continuado desentusiasmado. Promessas assim, ditas entre festas, em noites em carros, ficam ali, presas no momento. Na verdade, não teríamos tempo para nada. Eu nunca conheceria os amigos dele, nem a casa nem a família. Era mais ou menos como a promessa do segundo CD. Uma só diferença, ele cumprira a parte dele.
A verdade é que exceptuando noites como aquela, Manuel não tinha o poder de me cativar longamente, de me fazer esquecer. Nada havia que contagiasse a minha cabeça o suficiente para aquele peso desaparecer. E dava por mim a chorar, várias vezes ao dia, em silêncio e sempre escondida. Ninguém podia ver, não por mim, mas por ela. Ver-me chorar era o mesmo que dizer o nome da doença. Simplesmente não se diz, não se puxa o azar.
Numa das visitas ao cadeirão, a minha avó ofereceu-me uma distracção. “Promete-me que te portas bem. Tens que estudar. Tens que passar. Eu só fico descansada se souber que vais fazer isso”, dissera ela, agarrada às minhas mãos. Soara-me tanto a uma despedida que odiara cada palavra. E contudo estudei mais, concentrei-me mais, porque acontecesse o que acontecesse era necessário fazer o que ela pedia, quando ela o dizia com aqueles olhos de adeus. E quem sabe, talvez concretizando os desejos dela eu lhe desse mais ânimo, ou simplesmente, talvez eu merecesse mais tê-la.
Estudei, o que ainda podia estudar em cima da hora, e, não tendo tido grandes e brilhantes notas, passara a tudo. Dei-lhe a notícia. Não sei se acreditou realmente em mim, se achou que eram apenas palavras para atenuar as dores que entretanto aumentaram, mas a notícia era verdadeira e eu dera-a com ânimo, sorrindo na expectativa de ver as melhoras justamente merecidas após o meu esforço. Foi na semana seguinte, na quarta sessão de quimioterapia, que esta deixou de fazer efeito. Ela rapidamente piorou, até o cadeirão já não servir para toda a sua dor. Foi para o hospital, já sem sorriso, já negativista, já sem serenidade.
Nessa altura a minha mãe já se deitava tarde, já se fechava às escuras no escritório, já passava os dias com os olhos vermelhos. Havia mais beatas nos cinzeiros, mais caixas de Lorenin a esvaziar. Um silêncio abatera-se em minha casa e estar dentro dela era afundarmo-nos nele. Assim, quanto menos se falava, mais alto eu punha a minha música e, quanto mais tempo pudesse passar fora de casa, mais passaria. Mas, todos os fins de tarde, voltaria religiosamente para casa para fazer o caminho pelas estradas de Benfica até ao hospital.
Quando sentimos que estamos a perder alguém, a tentação é agarrá-los, como se não quiséssemos que fugissem. Eu olhava a minha avó, cada vez mais careca e magra, de olhos cerrados e boca aberta, enrugada e lacerada pelas horas sem sair da cama, e o meu primeiro instinto era ir ter com ela, apertar-lhe as mãos, os ombros, beijar-lhe a testa. Mas quanto mais o bicho crescia dentro dela, mais sensível ficava, e a sua pele tornou-se como que uma fina camada de pó sobre as feridas abertas. Ao minímo toque ela gemia, e o máximo que eu podia fazer era levemente passar o dedo pelas veias da mão dela, tentanto não chorar.
Um dia ela falou. Era raro fazê-lo sem ser para nos mandar embora, para dizer que não nos queria ver mais, para exclamar que não havia nada a fazer, ela ia morrer, ia morrer rápido. Mas naquele dia falou, chamou-me, e eu agarrei-lhe a mão como sempre fazia, e ela de olhos muito abertos choramingou: “Porquê, Ana? Porquê eu? Era porque não rezava o suficiente, porque não ia à Igreja? Porquê?”. Eu sai disparada para a casa de banho e a minha mãe substituiu-me no lugar na cama. Ela calou-se. Voltou a dormir. E eu deixava as lágrimas correr, contendo os sufocos desesperados com as minhas mãos molhadas, enquanto respondia o que lhe dissera baixinho já em fuga – “não sei”.
Enquanto a sua agressividade doente crescia connosco, crescia também a minha com todos os outros. Quando já todos os meus melhores amigos sabiam da notícia, cada um à sua maneira deu-me as apropriadas e educadas palavras de apoio. Apetecia-me bater em todos. Não estávamos perante um jantar social elitista em que deviam saber que após uma refeição os talheres se punham virados para as 4h20. Era a minha avó. Lembro-me especialmente da mensagem de uma amiga, que permanecerá incógnita, que mais se assemelhava com uma mensagem sobre uma qualquer festa a preparar. “Se precisares de ajuda conta comigo, liga a qualquer hora ;D”. Ainda recebeu um obrigada, meio amargurado, meio sincero. E ainda tive direito a uma resposta “de nada :D”. De que mundo vinha o raio da miúda? Das minhas duas melhores amigas – sim, eu tenho a mania dos escalões de amizade, anos com as mesmas pessoas e algumas decepções pelo meio tornaram-me assim - só podia falar com uma. Aquela com quem eu não podia falar passara pelo mesmo, anos antes. Mesma doença, mesmo membro familiar, mesmo historial. E nas suas palavras sinceras, havia ainda a revolta que há em mim hoje. Por isso era fria nos seus comentários, como se o atestado de morte tivesse já sido passado. E eu odiava-a por isso, mas também queria abraçá-la. De todos os olhos, desde os educados, aos desconfortáveis, aos generosos, os dela eram os únicos que refletiam a minha dor e reconheciam em mim uma história, uma perda. Enquanto a minha avó esteve doente só falámos uma vez sobre o assunto, mas guardo daí o olhar que me lançou na despedida. Aquele abraço de força que não chegou a ser dado, mas ficára suspenso entre nós enquanto nos afastávamos para escadas opostas da linha de metro.
Entretanto Manuel ligava mais do nunca e eu evitava as três primeiras tentativas, atendendo à quarta escondendo o enfado na voz. Fomos ao cinema, já perto de finais de Fevereiro, ver o Slum Dog Millionare. Lembro-me de ter adormecido e acordei com mensagens dele a avisar estar a caminho. Tomei um banho rápido e fui ter com ele ainda com o cabelo húmido, atado num rabo de cavalo desajeitado. Quando ele saiu do carro, senti imediatamente que uma distância se criara, não entre nós, mas entre mim e a minha ideia dele. Fomos ao Alvaláxia, um cinema que tem tanto de romântico quanto tem de pessoas. Ficámos sentados num dos lugares laterais, nas filas de cima, porque apesar de desértico, as filas centrais do fundo estão sempre ocupadas por trituradores de pipocas e os seus pesados casacos. Sei ter adorado o filme e recordo-me de dar leves cotoveladas a Manuel pela sua constante necessidade de comentar tudo, com um tom inadequadamente alto. Lembro-me também de como lhe foram precisos uns bons quarenta minutos de filme para perceber que a história do rapaz seria contada através das perguntas do programa, e de como soltei um suspiro um tanto ou quanto arrogante.
Ele ia-se aproximando durante o filme, tentando dar as mãos, encostando-se a mim, mas o meu único foco era a imagem no ecrã e, após as suas vãs tentativas de interagir cedeu aos meus desejos, quieto e calmo no seu lugar. Já a meio do filme soltei o cabelo e enchi o nosso pequeno recanto com uma dose forte de cheiro a champô. Manuel inspirou e sorriu satisfeito. Não sei porque me ficou essa memória, mas lembro-me de ter-me encostando a ele, deixando-o abraçar-me, enquanto viamos uma épica história de amor, que me inundava com a noção de que a pessoa ao meu lado não era o meu Jamal nem me ia salvar da minha realidade, não nos iamos beijar numa estação de comboios, não iamos acabar numa dança coreagrafada de felicidade.
No fim do filme ele convidou-me para jantar. Eu ia aceitar, mas da minha boca saiu uma desculpa inventada e após um beijo rápido começara já a recuar para a entrada de casa. Ele parou-me, pediu mais. O seu sorriso brincalhão não escondia a confusão nos olhos claros, e eu, num momento de nostalgia precoce, aproximei-me dele entrando no seu abraço e beijei-o a sério, grata por todos os nossos dias, por todos os escapes à realidade, por todas as tentativas vãs. Manuel sorriu, com os olhos claros postos em mim, perscrutando a minha cara, como se soubessemos já que aquela era a última vez que nos viamos.


Março

Ela morreu. Não fisicamente, para isso seriam ainda precisos dez dias. Morrera em nós a ideia fantasiosa de que a situação mudaria, de que a roda inverteria o percurso, de que a voltariamos a ver risonha ou mal encarada, com os seus rijos cabelos castanhos. Em telefonemas e conversas murmuradas já se falava da ida para Portalegre, da transferência para o hospital de lá, da morfina que seria necessária para que ela aguentasse a viagem. O adeus era já dito e eram já choradas as memórias, nas madrugadas mal dormidas em nossa casa. A minha mãe falava da infância, eu sonhava com a minha. Contava-me dos dias em que desabafara com a mãe, eu lembrava-me dos dias em que dançáramos no alpendre da casa no Alentejo, com as cigarras ininterruptas como melodia de fundo, nas noites mais estreladas que os meus olhos já viram. Lembrava-me da sua voz esganiçada quando se irritava comigo e os meus “maus hábitos”. De como fazia corridas e dizia que mesmo com 50 anos a mais, eu não a conseguia acompanhar. Lembro-me da maneira como se afeiçoava aos gatos vadios e como se decepcionara com a “Fofa” quando esta ficara “prenha de 5 gatos”. Ai como os gatos da vizinhança eram tarados e como a gata fora estúpida. Lembro-me de como chamava o meu avô em pânico e procurava as minhas bombas quando eu tinha ataques de asma. Lembro-me de se deitar ao meu lado na cama e dizer com a voz tremeliquenta “eu sinto o teu coraçãozinho bater... ai meu Deus, quando é que aquele morcão chega com os remédios”. Lembro-me de quando me mudei de Portalegre para Lisboa e vivi um ano com os meus avós. Enquanto o meu avô via o telejornal das oito, ela ficava à mesa a fazer-me companhia. Perguntava-me pela escola e criticava a minha timidez. Lembro-me da satisfação dela quando fui convidada para sair com a minha nova turma, de como me ajudou a escolher a roupa e me olhava na ombreira enquanto eu me arranjava. Lembro-me do seu medo terrível que eu, a tontinha de Portalegre, não antevesse os perigos da noite Lisboeta. Lembro-me de como não dormiu até eu voltar e viveu na pele o entusiasmo da minha noite bem passada. Eu lembrava-me de tudo naqueles dias como se não a tivesse mais. Mas, no meio de toda a saudade, a melhor hora do dia era ir ao hospital, vê-la, saber que ainda estava ali. Por enquanto eu podia olhá-la, podia ouvi-la respirar, tocar-lhe nas mãos suaves e sentir-lhe a pulsação. Aquelas mãos que toda a vida cheiraram a creme Dove, creme que roubei da sua casa e guardara comigo, transportando-o sempre, como se a transportasse a ela.
Mas o dia em que a veria pela última vez chegaria a 10 de Março. Quando me anunciaram a sua morte não chorei. Fiquei queda, muda, parada, mas sem lágrimas. No dia do velório vagueei pela casa onde antigamente vivera e preparei a minha melhor roupa. Sabia o valor que ela dava a essas coisas. Anos a viver entre aldeias e as suas rotinas sociais, tinham-lhe criado um desejo de certas futilidades para o seu Fim: queria ser enterrada ao lado dos pais, queria muita gente no seu funeral, queria uma família de fazer inveja. E por isso calcei as minhas botas pretas, vesti o meu melhor casaco, estiquei o cabelo e fui. Sempre em silêncio, corremos a estrada inclinada e ziguezagueante até à Igreja. Não ia chorar. Agora não era só uma falta de lágrimas, mas uma decisão. Já sabia como eram os Alvarronenses. Já os conhecia de outros enterros e não estava disposta a alimentá-los com as minhas lágrimas. Mas tudo o que bastou foi a fotografia da minha avó à porta da Igreja, ainda nova e saudável, ainda com o sorriso que eu há um mês não presenciava, e a traquinisse que ainda há mais não via. O meu pai pediu-me, quase autoritariamente, que não chorasse e eu concordava, dizia que não queria, mas não estava à espera da fotografia dela, não tinha pensado ter que vê-la assim. Passei quase todo o velório de óculos escuros, chorando ininterruptamente, uma quantidade de água que até a mim assustava, agarrada às mãos da minha mãe, apertando-as enquanto ela apertava de volta, numa troca de forças. À minha volta muitos choravam, muitos fixavam o caixão com expressões pesadas, e muitos murmuravam as suas doenças e infortúnios com o colega de cadeira. Naquele dia apaixonei-me por algumas pessoas. Nomeadamente Bernarda, que corava com as lágrimas, permanecendo assim de nariz e bochechas rosadas e marcas de água na pele. Ela, que toda a vida vira de avental sujo e botas de borracha, vozeirão forte e gargalhadas frequentes, encontrava-se ali, vulnerável, de mãos juntas, vestido preto e sapatos que lhe inchavam os pés, sem pronunciar palavra que não fosse a reza contínua que dedicava baixinho ao caixão. Ou mesmo Conceição, que só me lembrava de ter conhecido uma vez, na companhia da minha avó, mas da qual ouvira falar muitas outras. Ela que abraçara a minha mãe e depois a mim com doçura nos olhos e se postara numa cadeira, entre lágrimas e contemplações mudas. Mas também houve quem para sempre fosse odiar. “Marizé”, como lhe chamavam, aquela que em tempos se apresentara como amiga da minha avó, aquela cujo amor pelo dinheiro e reputação nunca escondia, aquela, anunciou ao meu avó, entre lágrimas que hoje duvido serem sinceras, que conhecia da doença há um ano. Uma médica, 12 meses antes, informara a minha avó que era urgente que ela fizesse analíses. A minha avó, assustada e fugidia, como sempre fora, desobedecera. Podia não perdoar a minha avó, por aquela espécie de suicídio, podia atacar Marizé pela sua falta de consciência, podia muita coisa. Mas a única memória que tinha era o medo não falado nos seus olhos naquele Domingo de Janeiro. Da maneira como se tornara afável e ordeira, de como os seus olhos contemplativos tinham sempre medo e, agora eu entendia, tinham culpa, remorso, tinham tudo, aquele par de olhos castanhos.
Depois do velório fui para casa. Passei o dia perto dos meus pais, nunca querendo estar sozinha, embora também não tivesse necessidade de falar. Ficávamos só ali, num silêncio confortável. O meu avô apareceu mais tarde. Nos últimos meses eu criara uma proximidade com ele, que embora existisse já antes, estivera adormecida e agora acordara reforçada. Eu queria abraçá-lo, mas ele nunca se deixava agarrar por muito tempo. Refugiava-se no que tinha para tratar, sempre de olhos vermelhos e lágrimas presas. Eu, que nunca o vira chorar, já não lhe conhecia outros olhos que não aqueles.
No dia seguinte, fomos ao funeral. Apareceu ainda mais gente. Ouvi os comentários feitos ao meu avó, lançando olhares para mim “está tão bonita a sua neta, tem ali uma grande mulher”. E o meu avô anuia orgulhoso mas afogado na depressão em que entrara dois meses antes. Eu, após vê-la desaparecer na terra, após os vários beijos e obrigadas, após o último olhar àquela cara que durante anos conhecera, afastei-me de todos e percorri a estrada vazia que levava da Igreja à nossa antiga casa – a do alpendre e das cigarras.
Fiquei a ver os prados e o seu telhado à distância, atrás de mim um amontoado de vultos e lenços molhados cada vez menos sonoros. O ar estava frio, pingava-me o nariz. Era cedo demais para conseguir ter ideias bonitas como as de que ela me estaria a olhar lá de cima, mas ainda assim olhei o céu e sorri. O funeral fora tudo o que ela queria e eu, apesar de tudo, estava feliz por isso. Então, com o ar alentejano nas narinas, e um frio agradável a secar-me as mãos, tirei a arredondada lata azul do bolso, passei as mãos pelo creme que ela tanto usara, e, com o cheiro dela contra as searas molhadas do prado, disse o meu adeus.
Se algum alívio me trouxe esse dia foi o fim do ritual dos hospitais, dos procedimentos. Mas desde aquele Março que perdi uma peça que era minha e agora funciono como uma máquina de escrever que perdeu letras. Continuo a ter uso, continuo a ter muito que teclar, mas já não posso recorrer à segurança daquelas letras que perdi. Vivo sem elas e basta olhar para ver que faltam.
Se esta história tem sentido? Não. Não tem sentido nem razão, tal como não os tiveram aqueles meses que entraram de rajada pelo meu ano. É triste, secalhar até melodramático, mas é assim que os vejo e só assim os consigo descrever. Se este relato tem um motivo? Sim. O motivo é ela.

Ana P: É preciso crescer? (bom título)

I – A tempestade
Bernardo era um rapazinho igual a tantos outros. Cabelo castanho, com caracóis indomáveis quando estava na altura de visitar Hilário, o barbeiro responsável pelos cortes de cabelo dos homens da família. Os olhos eram atentos, o ar de rufia.
Aos seis anos surgiu um problema na sua vida de pequenos sobressaltos. Começou a sentir-se o centro de uma tempestade: foi finalista no JI (Jardim de Infância) com a consequente despedida dos companheiros daquelas brincadeiras que poucos adultos costumam entender. O tempo fugia-lhes quando se transformavam em super-heróis que lutavam contra vilões, ou sempre que, na pele das tartarugas Ninja, desciam aos imaginados esgotos de Nova Iorque, escapando dos seus inimigos, principalmente do grande destruidor. Atiravam-se uns contra os outros, mas ninguém se magoava, facto que parecia impossível à D. Guilhermina, a funcionária com os cabelos em pé, sempre presente nestes momentos. Era pequenina e gorducha e os seus gritos de pânico, enquanto corria de uma ponta à outra do pátio a tentar salvá-los, quase que a transformavam num elemento do grupo:
– Ai, meninos, que se partem todos! Mas porque é que não vão jogar à bola?
Esse era outro dos modos de passar o tempo, chutando-o para bem longe, naqueles desafios de futebol com equipas indistintas. O que interessava era atirar à baliza e correr a festejar o feito. Fazia um brilharete com os toques que aprendera com o avô Martinho.
Também gostavam de fugir de outros no jogo da apanhada. Esse talvez fosse o preferido do Bernardo: acreditava que estava a fugir dos medos todos.

II – Sobressalto
Um dia, disseram-lhe que era preciso mudar de casa e o resto das férias passou-o a ver empacotar brinquedos e roupas.
A mãe comandava aquelas operações que lhe começaram a parecer mais violentas do que as lutas do Panda Kung Fu.
Separar-se das roupas que o apertavam até era bom, era sinal que estava a crescer, a entrar num mundo novo, de coisas importantes.
De repente, a voz da mãe fê-lo sentir algumas das desvantagens dessa nova condição:
– Bernardo, escolhe os jogos, os carros e os legos que já não queres e arruma-os neste caixote.
Esta realidade deixou-o com um pé atrás, pensou que estava a perder pedacinhos de si, pareceu-lhe uma ameaça que se tornou maior quando a mãe foi mais clara:
– Vais para o primeiro ano, não vais querer continuar a brincar com essas coisas de meninos do JI.
Mas, então, ele, o Bernardo, só porque ia para outra escola, tinha de deixar peças da sua vida?
– E, para além disso, há meninos que não têm quase nenhuns brinquedos. – continuava a mãe.
De repente, pareceu-lhe ter encontrado a solução:
– Mãe, quero desistir da escola!

III – À procura de uma solução
– Ó Bernardo, isso é impossível! Os meninos têm de estudar até ao décimo segundo ano!
O Bernardo sentiu que era preciso convencer a mãe do contrário. E tentou:
– E se eu não conseguir partir a carne sozinho? Não vou poder almoçar…
– Há pessoas para te ajudarem!
Percebeu tudo: não adiantava conversar mais. Estava num daqueles momentos em que o tamanho dos adultos parecia acrescentar-lhes uma força descomunal às palavras que diziam.
Foi para o seu quarto e deu largas a pensamentos pouco simpáticos. Esta tentativa da mãe levou-o a lembrar-se daqueles dias em que o queriam levar ao dentista ou ao otorrino, aqueles médicos de batas brancas e ar sério que faziam sempre alterações bruscas e por vezes dolorosas no seu corpo.
Voltou à sala com outra solução:
– E se eu me portar mal?
– E como é que te vais portar mal?
– Posso sentar-me na mesa, bater aos outros rapazes, puxar os cabelos às raparigas, dizer que não gosto da professora. Até posso ser expulso da escola!
– Se fizeres isso, estás a ser mau e mal-educado. Zangamo-nos contigo, vais deixar de fazer coisas de que gostas, como ir ao Parque, jogar PlayStation, ver televisão… e, para além disso, não aprendes a ler, a escrever…
– E se tu me ensinasses em casa? Não és professora?

IV – O fim das férias
No início de Setembro, a mãe levou o Bernardo e a Matilde ao Centro Comercial. No corredor do “material escolar”, as mochilas, os cadernos, canetas e lápis cheios dos heróis da actualidade deixaram-no a pensar que o mundo de brincadeiras continuava na escola.
Bernardo deixou que a mãe escolhesse uma mochila com o homem-aranha. Não ficou, no entanto, convencido. Pareceu-lhe que até os seus cúmplices o traíam, assim alinhados naquelas prateleiras.
Tudo aquilo lhe pareceu muito estranho. O que é que poderia fazer com um homem-aranha em formato de caixa, gordo de livros e cadernos, amarrado às suas costas e, depois, colocado numa cadeira? Era mais uma armadilha dos adultos, uma forma de o convencerem.
Pensou na sua família: o tio Arlindo era professor, a tia Belly também. A tia Ana passava os dias na escola e dizia que tinha uns alunos muito marotos. Às vezes até lhe contava histórias de meninos que não se portavam lá muito bem, que só diziam e faziam disparates. A mãe e o pai também eram professores. Mas o que é que se passava com esta sua família? O que seria o seu futuro, se nem com eles podia contar?

V – Sonho ou pesadelo?
À noite, sonhou. Era uma Tartaruga Ninja, preparava-se para um combate, o encontro decisivo com um adversário temível.
Levavam-no – uns seres nos quais reconheceu a mãe, a Matilde e até o pai – com olhos vendados, por um caminho cheio de vegetação e pedras. Não conseguiam guiá-lo convenientemente, por isso magoou-se no corpo e na alma: Já ninguém gostava dele? Tinham-se esquecido que era preciso protegê-lo?
Chorou, esperneou, mas com isso só conseguiu a impaciência dos outros: os gritos da mãe, a zanga do pai. Até a Matilde tinha esquecido os laços fraternos e, com ar desesperado, queixava-se:
– Tirem-me este puto daqui!
Então, ele, Bernardo/Tartaruga Ninja, sentiu-se um não-rapaz, sem couraças que o guardassem.
Viu a mãe, o pai e a Matilde ficarem cada vez mais minúsculos até que se esvaíram. Em vez deles, surgiram as caras da Barbie Rapunzel, com o seu telemóvel e o notebook, tudo cor-de-rosa. Que estranho! Não era o Ken que vinha com ela… Nem queria acreditar: o homem-aranha de novo. Estaria ele a namorar a princesa?
Mais uma relação sem futuro, como a dos pais do Afonso. Eles nem podiam falar dos mesmos assuntos… Não conheciam nada do mundo um do outro!
Com que paciência o homem-aranha ouviria os lamentos da Barbie, quando achasse os seus vestidos fora de moda ou os cabelos sem conserto possível? E se ele lhe lançasse uma daquelas teias que a deixassem sem vontade ou possibilidade de falar?
Bem, para piorar ainda mais a sua noite, surgiu das trevas o Venom, aquele super vilão muito magro, de língua comprida e fato preto.
No meio deste mundo de fuga à escola, Bernardo já não sentia o tempo. Dava por si a não conseguir fazer mais do que ver: não falava, não se mexia, todo o seu corpo se resumia aos olhos. E foi com eles que continuou a viver. Vindos de mais longe, com espadas, cadernos e livros na mão aproximavam-se uns uniformes que não o enganaram. Eram os ninjas. Iriam defendê-lo? Conseguiriam salvá-lo daquela família terrestre que só queria abandoná-lo naquele sítio a que chamavam escola?
Desejou muito que os poderes sobrenaturais daqueles guerreiros cujas habilidades eram reconhecidas por todos fossem suficientes para acabar com aquele pesadelo.
E se a professora e a sua família terrestre mais não fossem do que ninjas disfarçados? Eles tinham esse poder. Podiam estar só a experimentá-lo. A escola podia ser um obstáculo para ele, Bernardo super ninja, tentar ultrapassar, uma espécie de prova de fogo.

VI – O Dia
Aquele dia começou com um beijinho.
A mãe veio acordá-lo. Foi como se lhe mostrasse que continuava a ser a sua fortaleza, apesar das transfigurações nocturnas. E respirou de alívio.
Na véspera, tinham ouvido o discurso da ministra da educação. Ela tinha dito que estudar desenvolvia o cérebro, tornava-o mais forte e que nem era preciso fazê-lo em todas as vinte e quatro horas do dia:
– Estudar é o desporto do cérebro. – Estas palavras tiveram nele um efeito aliciante e ao mesmo tempo assustador. Se calhar, até ia ser divertido. E se fosse? Se ele estivesse enganado?
Mas o diabinho da sua consciência repetia outras palavras, aquelas que davam força aos seus pavores:
– É preciso cumprir as regras, estar na aula bem, comer coisas que fazem bem…
Aí estava de novo o poder do bem: “Porta-te bem!”, “Senta-te bem!”, “Lava bem as mãos!”, “Devemos praticar o bem!”. Até esta senhora aparecia a dar conselhos e repetia, com aquele sorriso, uma palavra que ele, por vezes, tinha vontade de apagar de todas as listas de palavras.
– Levanta-te, Bernardo, escolhe a roupa que queres levar e vem tomar o pequeno-almoço.
– Quero ir de azul e vermelho! – Ao dizê-lo pensou que seria simpático vestir as cores do homem-aranha, já que o levava estampado naquela mochila. E assim sempre seriam dois a tentar ser heróis.
Até tinha fome, talvez por não ter dormido muito descansado com a companhia de todos aqueles seres que tinham resolvido agitar ainda mais a sua já perturbada existência.
Lavou os dentes e pegou em tudo o que havia para levar.
Saíram os três de casa, com receios diversos: Bernardo não queria fraquejar à frente daquelas mulheres da sua vida, mas o certo é que desejou com todas as suas forças que os seus familiares Ninjas ganhassem corpo e viessem resgatá-lo. A Matilde imaginava como haveria de se desembaraçar daquele irmão-apêndice que seria bem capaz de se lhe colar, tivesse ela vontade ou não.
A mãe, como quase todas as mães, estava ansiosa, também porque, embora nunca tivesse confessado, tinha querido resistir à escola, num tempo que fora o seu. Talvez estivessem perante um daqueles casos em que os pais transmitem aos filhos o que querem, como olhos azuis, e o que não querem, como os medos e o mau feitio. Ela compreendia muito bem aquela resistência, sentia-a como se fosse sua, mas levava muito a sério o seu papel de mãe e não queria entre eles nenhum grau de cumplicidade quanto àquele assunto.
Aproximavam-se do portão e Bernardo sentiu-se como que arrastado por aqueles seres multicoloridos com mochilas às costas e mães por perto.
Os beijinhos e as recomendações multiplicaram-se e, aos poucos, cada um ficou no seu mundo. As mães e alguns pais atravessaram os portões, que se fecharam. Mais uma vez se sentiu abandonado, como no seu sonho.
As professoras, à porta de casa sala, iam chamando rapazes e raparigas. Pareceu-lhe que se tinham esquecido dele, até que se encontrou no seu nome completo.
Bernardo Miguel de Sousa Fonseca conheceu, enfim, a sua professora. Chamava-se Amália, tinha um daqueles penteados em que o cabelo parece estar amarrado contra a sua vontade, usava uma bata branca e, ao chamá-lo, mesmo com todos aqueles outros nomes colados ao seu, achou-a parecida com a avó Beatriz.
– Podem sentar-se onde quiserem.
Bernardo ficou sem saber como seguir esta orientação da professora. O que esperavam dele?
Diogo, o seu amigo de muitas brincadeiras, quis sentar-se ao pé dele e resolveu-lhe este problema.
Ouviram a professora dizer que iam descobrir novos mundos, aprender tudo o que conseguissem e que era preciso cumprir regras.
Sentiram-se importantes, quando lhes foi dito que já conseguiam estar ali sentados até ao intervalo, porque não eram mais meninos do Jardim Infantil, estavam no início do primeiro ciclo.
A professora pediu-lhes que desenhassem e, mais uma vez, deixou-os seguirem as suas vontades.
Bernardo desenhou o seu herói preferido e pô-lo como lhe tinha aparecido no seu sonho, a namorar uma princesa. Quis que a professora percebesse quem era cada um deles, por isso esforçou-se.
E os maus pensamentos foram desaparecendo, enquanto ouvia a voz da professora e tentava fazer um homem-aranha digno desse nome:
– Meninos, é preciso fazer silêncio. Não conversem com os vossos parceiros, deixem isso para o Intervalo.
Olhou à sua volta e viu que aquela sala era parecida com as que via nos filmes e nos desenhos animados: mesas e cadeiras para dois, paredes preparadas para receberem desenhos e outros trabalhos, armários, uma secretária para a professora e um quadro verde, grande, onde lhe apeteceu colocar o que já sabia: o seu nome e alguns números. A professora ia andando por ali, fazia perguntas sobre os desenhos e as ilustrações, parecia interessada. Bernardo achou-lhe graça.
Ouviu-se uma campainha:
– Meninos, peguem nos vossos lanches e vão lá para fora. É o intervalo. Quando ouvirem outro toque, devem voltar aqui.
Saíram em fila indiana, uma estratégia inventada pelos adultos para arrumarem a agitação das crianças.
Lá fora, esperavam-nos algumas mães mais ansiosas e Bernardo desejou com muita força que não encontrasse a sua. Fechou os olhos, porque se lembrou do truque: “Se fecharmos os olhos, as pessoas que não queremos que nos vejam deixam de existir.”
Mas não foi preciso recorrer à magia, a mãe era sensata e acreditou nele.
Correu, brincou à apanhada, ouviu os gritos da D. Guilhermina nos seus receios de que se partissem, quase se ia esquecendo do lanche e, quando o toque da campainha surgiu, de novo, regressou àquela sala que não o prendia para além da sua vontade. De repente, sentiu vontade de contar à mãe que, afinal, estava a gostar daquele primeiro dia na escola. E ficou mais crescido.

Vanessa P: Escórias de ambição (raio de título)

Escórias de Ambição


I

Os passos tornavam-se pesados como chumbo à medida que se deslocava por entre ruas e ruelas, dobrando esquinas, cruzando avenidas. Era inacreditavelmente absurdo que não houvesse um único táxi disponível numa cidade que se caracterizava por um aglomerado tão significativo de turistas. O sol apertava cada vez mais, evocando em William as condições do clima ameno que deixara para trás.
Ao deter-se para recuperar o fôlego, constatou que os ponteiros do seu relógio de bolso se preparavam para incidir sob as 14 horas do dia. Havia exactamente três quartos de hora que deambulava por entre multidões avessas à sua desorientação, a qual progressivamente acabaria por desencadear cogitações derrotistas.
Caminhando irrevogavelmente abstraído do que ocorria em seu redor, tudo o que via à sua frente resumia-se a uma esborratada mancha amarelada, assemelhando-se a uma digna obra de arte que um pintor acaba de elaborar e ninguém percebe porquê. As pessoas não eram pessoas, os prédios não eram prédios, o dia já não era dia.
Gotas de suor escorriam-lhe pelas faces, os músculos fraquejavam, dilacerando as últimas réstias de força. O corpo inteiro exasperava por um pouco de repouso. A garganta estava seca, não bebera nada desde que saíra do aeroporto. No entanto, a ânsia de encontrar o hotel revelou-se superior à sede que o martirizava. Por outro lado, parar e procurar a garrafa de água que se achava perdida dentro da mochila, algures entre roupas, comida e instrumentos de trabalho, implicava perder simultaneamente mais tempo.
William Thompson completara recentemente 32 anos de idade, e aproveitando então a deixa, consciencializou-se que chegara o momento ideal para dar uma reviravolta na sua vida. Formado em Arqueologia com nota máxima, leccionava numa prestigiada universidade inglesa, e embora o seu cargo invejável, eram circunstâncias por si só não lhe satisfaziam. Ambicionava mais e melhor. Almejava um dia mais tarde ver o seu nome reconhecido globalmente, não pelo bom docente que era, mas por realmente ter participado em algo concreto e relevante da sua área académica. Pretendia, com efeito, ressalvar o seu estatuto profissional.
Partira para o Cairo a convite de Peter O’Neill, um historiador de renome, cuja simples referência a si era quanto bastava para instintivamente o associar ao legado da historiografia. Tal como o arqueólogo, Peter constituía parte do corpo de docentes que integrava a universidade, e fora assim que a proposta surgiu. Segundo O’Neill, “a História e a Arqueologia são a base de toda uma estrutura que se encontra intimamente ligada, andando constantemente de mãos dadas sob as índoles de todo um passado ainda por descobrir”. Em suma, ambas as ciências complementavam-se. Desta feita, colaborar numa expedição de tamanha envergadura com um dos melhores historiadores do século XX, nada mais era do que a catapulta perfeita para se autoprojectar mundialmente, alcançando a ribalta.
Combinara com O’Neill encontrarem-se na porta das chegadas. O sujeito teve que ir mais cedo para tratar ao que parece, de burocracias. Ironicamente, desígnio do destino ou obra do acaso, o último traço de bateria sucumbiu mal o avião aterrou. Não tivera tempo para avisar a que horas chegavam. Perdido em pensamentos, amaldiçoava-se por não ter carregado o telemóvel antes de partir. Lamentações agora não me servem de nada, pensou.
Ao fundo, as silhuetas da multidão pareciam dançar às ondas do calor, que tudo desfocavam quando observado a grandes distâncias. A poluição sonora tornara-se tão constante que paradoxalmente, no cômputo final, já não se fazia sentir. Ainda que todo o meio envolvente sugerisse um dia negativo, William haveria de encontrar o hotel. Considerando as evidências, era a meta estabelecida.


II

No interior do veículo, a temperatura apresentava-se mais agradável. Lá fora, imperava a rotina típica de quem vive subjugado aos horários impostos pelas respectivas profissões. Peter regozijava-se. Ser historiador era sinónimo de livre arbítrio para fazer o que se quisesse.
Uma vez no aeroporto, esperara um bom par de horas, tendo em conta que desconhecia o momento exacto da chegada do voo 9700 da British Airways. De lés a lés, já percorrera a cidade, mas encontrar alguém numa metrópole tão movimentada era como procurar uma agulha num palheiro. Após uma primeira ronda, decidira ir à embaixada inglesa. Seguiu-se o hospital e postos policiais, respectivamente. Nem sinal de William Thompson.
No taxímetro, os valores assomavam-se. De quando em vez, era habitual fazer-se acompanhar por um bom número de libras egípcias, para eventuais contratempos. Porém hoje não contava em gastar mais do que o necessário para o percurso entre o aeroporto e o Sheraton. Nem no primeiro dia aquele imbecil é capaz de fazer uma boa figura, murmurou entre dentes.
Faltava justamente trinta minutos para a última reunião com uma importante cadeia de televisão, a qual viria a cobrir todas as etapas do propósito que o trouxera ali. Durante os seus estudos documentais, deparou-se com algumas pontas soltas no que se referia a conteúdos datados do século XII a.C. Uns revelavam-se inconsistentes, outros porventura, incoerentes. Havia ali alguma coisa, e quanto mais se debruçava sobre o assunto mais a suspeita ganhava consistência. A fim de evitar pisar terreno infundado, Peter resolveu solicitar outras opiniões. Consultou outros historiadores, falou com arqueólogos e inclusivamente antropólogos. Excluindo um ou dois discursos, a concordância era unânime.
Mal se soube o que iria ser feito, não faltaram patrocínios ou entidades dispostas a colaborar. A notícia alastrara aos quatro cantos do mundo como a Peste Negra assolara a Europa Medieval. Desde institutos superiores, a museus e órgãos de comunicação social, todos queriam estar envolvidos no projecto. Nunca outra expedição tivera tamanha projecção. Qualquer que fosse a grande descoberta, a mesma revolucionaria para sempre o fio condutor da História, podendo mesmo quebrar com os cânones das concepções tidas como verdades irrefutáveis da História Mundial.
Portanto, foi na sequência deste rol de circunstâncias que chegara à fala com William. Ainda que verde na área do trabalho de campo, o arqueólogo mostrava-se consideravelmente bom no que fazia. Apesar de avesso, decerto que a sua colaboração seria uma mais-valia. Desde logo cortejou o rapaz, ganhando deste modo a sua graça. Indagou sobre o seu parecer acerca do assunto, colocando-lhe posteriormente a proposta em cima da mesa. Deste modo, William Thompson aceitou.
Todavia, não era exclusivamente o contributo para com a História que mais motivava Peter. Efectivamente, o proveito que poderia arrecadar com isto tudo caso a expedição fosse bem sucedida, era algo que não lhe passava ao lado. Mais reputação, mais dinheiro, mais respeito. Não tinha nada de mal, é somente uma forma fácil e eficaz de juntar o útil ao agradável. Em suma, era com esta reflexão que Peter O’Neill baseava os seus intuitos.



III

(CONTINUA)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Anagramas

(artigo em obras)

Não me posso afastar muito da minha fonte de energia

E mesmo que quisesse não o poderia. Por mais que me esforce, não consigo sair do meu universo.
"Não se pode regressar ao lugar onde fomos felizes", dizem? Pois regressemos então ao lugar onde fomos infelizes.
Quando contei a história da minha tia, o objectivo não era ter auditores para a minha vidinha, mas dar o exemplo de algo que aconteceu e onde está "tudo" (aprendizagem, coragem, culpa, amizade, traição...). Só tenho de carregar a terrina de sopa para a mesa e não entornar. Ou seja, de reorganizar simbolicamente (com palavras, sinais de pontuação, pausas respiratórias) uma história que está "acabada" antes de a verter para o papel.
Todos temos estas histórias. Em vez de "perseguir um sonho", por que não "recordar um sonho"?
Ser capaz de implementar imagens no espírito do leitor (ou seja, cabeça e coração) através do simples movimento das letras: isso é ser imaginativo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O conto medievo (Sinopse) - Isabel J.

Foi inspirado no mito grego de Artémis e a Corça. Basicamente, tocam-se nas linhas da rapariga que se apaixona por alguém que não pode, uma vez que deveres superiores se impõem e a sua obediência aos seus princípios faz com que o homem que ame acabe morto.
No caso de Diana (nome escolhido por alegoria à própria Artémis) a personagem principal, uma princesa da época medieval, apaixonar-se-à por Santiago, pajem e primo de Dinis, príncipe a quem se encontra prometida para casar.
Aqui desenrolar-se-à um triângulo amoroso em torno destes três nomes. Dinis quer e está no dever de ter Diana, esta ama Santiago e este retribuiu. Este amor deverá começar antes do casamento de Diana e Dinis e prolongar-se por vários anos após a união destes. Porém, ao bom-tom medieval e das cantigas de amor, será um amor platónico, à distância, espiritual.
Eventualmente, pela mão de um criado é entregue a Dinis alguma da correspondência trocada entre a mulher e o primo e o pico do conto é atingido. Numa discussão acesa e violenta entre os primos, a que imponentemente Diana assiste, rebenta um duelo em que Dinis derrota Santiago, conduzindo esta personagem à morte.
Em sinal de luto, Diana nunca mais vestirá outra peça de roupa que não seja preta e o cabelo será sempre visto preso. Quando Dinis morre, numa batalha, o filho mais velho suceder-lhe-à o trono e Diana conservar-se-à até ao seu último momento num convento, em voto de silêncio. Isto tudo, baseando-me na história da Imperatriz Sissi e na rainha D. Leonor, de Portugal, dramatizando mais as histórias originais.
Para maior empatia para com as personagens Diana e Santiago e a sua relação extra conjugal, Dinis reunirá em si características com conotações mais negativas e pesadas, representando um tirano, um vilão, de forma a criar um desagrado crescendo com a sua personagem da parte do leitor.
Diana será uma princesa muito recatada, educada e elegante, como se o auge da mulher perfeita. Daí ser disputada tão ferozmente por dois homens.
Já Santiago será o típico homem galã, de bom coração e corajoso. Serão compostas várias cenas para que o leitor tenha oportunidade de sentir compaixão pela personagem que tão perdidamente ama a princesa sem a poder ter para si, vendo-a às mãos de Dinis. Assim, o leitor poderá sofrer, em conjunto com Diana, a perda de Santiago. E, até, ao longo do texto, torcer para um rasgo de esperança para que eles consigam desencobrir uma relação.
Optei por uma base muito simples e bastante conhecida para o conto, uma vez que é fácil de moldar, existem várias referências a que posso recorrer e poderei preenchê-la com experiências minhas; como se eu fosse a manteiga e este cliché uma torrada. Só uma vez desenvolvido se poderá distinguir dos pré-existentes. Para já, são apenas estas as linhas que ficam mencionadas.

Joca Sibilante

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A partir do seminário de 6-11/9 na FCSH

Aqui está um esboço de balanço do mini-curso:


Sessão 1: A regra é “o rei manda”
O rei do jogo não é importante – é apenas a pessoa que distribui jogo nessa jogada. Podíamos, em grupo, ir alternando quem era o rei, e os outros teriam de obedecer ao seu “capricho” (desde que tenha a ver com a matéria, claro!)
Estamos a falar de ginástica, harpejos. Fazer exercício activa músculos. Não fará de mim um Schwarzennegger (nem governador da Califórnia) mas ficarei em menos má forma do que antes.
1. Exercício 1: Escrever com a mão esquerda: o acontecimento mais importante de ontem (15’)
2. Teoria: fizemos uma coisa que nunca tínhamos feito: usar a mão esquerda! E no entanto ela sempre esteve aqui. Tantos anos que a tivemos ao nosso lado – temos duas mãos – e não a usámos. E no entanto a mão é uma das partes do corpo que mais ligadas estão à inteligência do mundo. Com a mão: acariciamos, agarramos, agredimos. Com a mão escrevemos. Já fizemos uma coisa nova!
3. Está cá – tudo do que precisamos está cá – nós é que não notamos.
4. Molde: Esta é a história de ….. que quer (mais que tudo) …. Mas não pode [por causa de …..]
5. Exercício 2: tornar, usando esta matriz, a nossa história numa história épica. Em três blocos de uma, duas frases – como molas a segurarem a roupa numa corda.
6. Exercício 3: passar por estes 9 pontos com 4 segmentos de recta sem levantar a caneta.

Sessão 2: O constrangimento é a chave para a liberdade
Conhecer os limites que me limitam é mais útil do que iludir-me pensando que não existem. “Conhece-te a ti próprio”… e seremos, não livres, mas menos prisioneiros dos nossos vícios e tiques.
1. Exercício 1: Balões para foto (Jornal Metro: casal Cameron)
2. Teoria: numa relação de grupo (+ de 2) há comunicação. Cada parte é parcialmente responsável pela boa comunicação. Co-responsável Eu tenho, dentro do razoável, que participar no acto. Comunicação a menos e serei um “poeta hermético”; desejo de comunicação a mais e estarei ao colo do leitor, ou ele ao meu colo. Enfim, opções.
3. Exemplo a partir de história de colega: como “encher” o texto e melhorá-lo (em que rua? Andar? Quarto? Gaveta? Etc.)
4. Exercício 2: tentar escrever a frase mais imaginativa e criativa que consiga.
5. Teoria: com tal instrução, o exercício estava condenado ao falhanço. Tentar ser criativo é como tentar estar calmo. Só piora.
6. Exercício 3: Pensar em história para contar
7. Exercício 4: Contá-la sem a vogal e
8. Teoria: a dificuldade vai forçar-nos a encontrar alternativas. Não para sermos “imaginativos”, mas porque não temos outro remédio. E treinamos o dicionário interior.
9. Exercício 5: S+ 7
10. Exercício 6: cinco palavras para Portugal hoje. Cinco entradas para “um dicionário/mapa do país
11. Exercício 7: lembrar-me dos últimos minutos do dia de ontem. Atenção aos pormenores.
12. Ao dizermos "foi um dia igual aos outros" estamos a apagar momentos únicos. A culpa é nossa!


Sessão 3: A autobiografia como instrumento
Tudo é experiência que eu tive. Tudo parte disso.
Esta foi a aula mais teórico-prática. Os exercícios ilustraram as questões colocadas, não o contrário.
1. O anagrama – o belo casamento (método: recortando as letras é mais fácil que com a caneta. Temos o direito de escolher a melhor técnica; não é batota, apenas sentido prático.
2. A ponte: atravessamo-la num sentido, mas é construída a partir de ambas as pontas.
3. Teoria: tamanho é importante. Temos de ter a noção de para onde queremos ir e de que texto queremos fazer. Depois poderemos ser surpreendidos.
4. O fio de Ariadne: O que dá sentido ao labirinto? Um fio condutor.
5. Primeiro acto, segundo acto, terceiro acto. Ir de A a C passando por B.
6. Se estou a escrever um policial, talvez deva começar pelo fim: pelo crime. E depois caminhar para trás. Pensar como o criminoso cometeu o crime, como o detective chegou lá.
7. Contar uma história em cinco/seis quadras alentejanas.
8. Exercício de memória: um rosto vinte anos mais velho, vinte anos mais novo.
9. Teoria: memória é imaginação. Melhoremos a memória e melhoraremos a imaginação.

Sessão 4: O retrato
1. Exercício 1: desenhar o retrato de duas pessoas. Entre outras coisas, posso concluir que: a) a caricatura tende a ser “mais parecida” que o retrato fiel; b) como não sei desenhar, posso copiar à vontade. Às vezes sou mais imaginativo quando não tento ser imaginativo. E o que conta é o resultado. O retrato afinal era auto-retrato.
2. O mito: todas as narrativas vão dar a um punhado de matrizes.
3. A história tem de ser verosímil, a realidade não é obrigada a isso.
4. Exercício 2: trocar as entradas do dicionário com o colega.
5. Comentar os exercícios com as quadras. Quem começou fez o que quis (dentro do molde formal), os outros tiveram de se adaptar.
6. O salto do génio: disfarçar os pequenos passinhos.
7. As coisas acontecem a todos; mas reagimos consoante o nosso carácter. (A tradição americana acredita que o carácter decide o que lhe acontece).

Sessão 5: cânone e compaixão
1. Calvino, As cidades invisíveis, Joyce, Ulisses: ambos usam modelos simples, para os subverter.
2. Exercício 1: preencher balões numa página de BD (dinâmica, seis quadrados).
3. Prova superada! Em apenas cinco dias, todos conseguimos "adequar" de forma feliz, um fio de Ariadne a um labirinto pré-determinado. E duas ou três eram bem publicáveis.
4. Exercício 2: provérbios combinados. A partir da aplicação de "zero imaginação", um resultado por vezes bem surpreendente.
5. Li Wei: "Quando escrevo, a cabeça segue a caneta; quando reescrevo, a caneta segue a cabeça." Dois movimentos separados: fazer e analisar.
6. A cabeça "paranóica": ver grávidas por toda a cidade.
7. Em grupos de dois, discutir projectos. Eu sou o teu editor, tu o meu.
8. Greimas: sujeito, objecto, adjuvante, oponente.
9. Exercício 3: improviso oral - na repartição.
10. Teoria: os princípios do diálogo e do conflito.
11. Os díspares que dão disparates com sentido.

Sessão 6: Conto e mandamentos
1. Qual o poder do editor? É um conselheiro do rei, não o rei. Ajuda o texto a ficar melhor.
- Só se imagina o que se conhece. Só se conhece o que se imagina.
- Se me afasto da minha fonte de energia, perco forças. (Os escritores e as suas obsessões, o seu maná).
- O burocrata finge que trabalha; o artista finge que não trabalha. E, para ambos, o sucesso depende de os outros acreditarem.
- A técnica ajuda-nos, porque é a parte do acto criativo que podemos "controlar". A inspiração existe, mas não pode ser convocada, só vem quando lhe apetece.
- Compreender a paixão do outro, fazer a terceiros sentir a paixão nossa e do outro.