terça-feira, 21 de setembro de 2010

Manuel C: Consciência amnésica

1. Maldito, vou me vingar de ti! Vou te matar! Odeio-te!
Mas de quem? A quem queres tu matar e odiar?
Ele.
Ele quem? De quem falas tu?
Dele, tu sabes quem.
Que te leva a pensar que sei? Eu sou a tua consciência e não faço ideia de quem estás tu a falar!
Cala-te consciência, estou a tentar perceber quem sou!
Certo…
Quem sou? Onde estou?

Serei eu apenas um pedaço de carne num espaço infinito?

Ou serei eu uma personalidade crescente, um herói para o mundo?
...
Ou talvez, eu seja…um sonho, uma memória ardente de um amor à muito perdido. Quem sou eu consciência?
Sei tanto quanto tu. Eu não passo da tua consciência.
Bah, de que me vales tu, se só sabes o que eu já sei.
Mas o que sabes tu?
Eu…sei falar. Sei onde estou. Conheço como sou. Será que me conheço?
Estás a dormir. E num sonho é difícil distinguir a realidade da imaginação. Não passas de um corpo dormente que aguarda pela sua hora de se libertar do feitiço de Salomão. Acorda que o teu tempo chegou.

Onde raio estou? Espera, ainda não abri os olhos. Já está. Que sitio é este? Parece um cubo… O que é um cubo?
È um sólido limitado por seis faces quadradas e iguais entre si, meu caro.
Ah, certo. Caro? Que é isso? É o meu nome?
Não, é uma expressão que escolhi para te poder chamar. Faço-o, pois não sei o teu nome. E antes que perguntes, nome é a palavra que designa pessoa, coisa ou animal.
E qual delas sou eu?
Uma pessoa, se não me engano.
As consciências enganam-se? O que é uma consciência? Para que serves?
Eu sou a moral em ti. Eu sou o que sabes. Eu distingo o bem do mal, o certo do errado.
Errado para quem?
Tudo o que digo serve para preservar a tua vida. Estou assim, sempre certo e correcto.
Estou a ver...Vou-me esforçar por abrir os olhos. Uma luz passa por mim. Demoro a abrir os olhos. Abri. Continuo no mesmo cubo. Sinto algo que me faz doer o corpo. Será esta dor normal?
Eu não sinto a dor, eu simplesmente faço tudo para impedir que a tenhas. Mas não é normal que tremas o corpo por culpa da dor que sentes. É sem dúvida estranho. Caíste.
Como sabes?
Estás a sangrar. Caíste. Ou foste espancado. Tens algumas feridas profundas e graves.
Que interessa... Não sei o que é isso de sangrar. Oiço vozes. Alguém vem ai.
Dorme.
Porquê?
Porque podes compreender quem és pela voz de outros.
O quê?
Dorme...
2. Acordei, mais uma vez
Sim, acordaste.
Porque estou preso? Sinto-me bloqueado, por algo que me prende o corpo.
São cintos de segurança.
Para que servem?
Para te manter seguro.
Se me querem manter seguro, porque me prendem?
Estás num transporte, num veículo que te leva para algum lado. E os transportes precisam de cintos de segurança. Para te protegerem, se por acaso sofreres algum acidente.
É possível termos um acidente?
São muitas as probabilidades de tal acontecer, sim.
Então, porque andamos neste transporte? Não seria melhor andarmos a pé?
Estás magoado, querem-te levar o mais depressa para um sítio onde te possam curar.
Mesmo correndo o risco de me magoar ainda mais, se ocorrer um acidente?
Sim.
Ah.
...
Não parece ter muita lógica o transporte... E porque estou magoado? Quem me magoou?
Talvez tu mesmo. Talvez sejas masoquista e tenhas prazer em sofrer. Ou talvez não.
Ser masoquista, é normal?
Não. Mas não é anormal. É apenas…diferente.
Não sou diferente. Sou normal.
Acredito que o sejas.
Não gosto de estar preso. Não quero estar preso.
Estás preso para tua segurança. Não estás numa prisão.
O que é uma prisão?
È um lugar, onde aqueles que são considerados perigosos para a humanidade, são postos.
Ah. E quem decide quem lá fica?
A justiça. A justiça decide quem vai para a prisão. Os que não cumprem são presos.
Estou a ver… E quem fez a justiça?
A humanidade, há muitos anos atrás. E adapta-se constantemente aos novos tempos.
Mas quem vai para a prisão não são homens?
Sim.
Quem nos diz, que os homens que criaram a justiça tinham razão? Quem nos diz que eles criaram algo correcto? Quem foram eles para julgar os maus e os bons? Errado e certo?
Alguém tem de julgar, se não o mundo seria selvagem, violento, assassino. Uma anarquia.
Portanto a justiça impede a violência e a morte?
A morte é inevitável. Mas a justiça tenta acabar com a violência desnecessária, sim.
Desnecessária?
Sim, existe violência necessária e desnecessária.
E quem pratica a violência necessária?
As forças da lei.
Quem controla as forças da lei?
A justiça.
...
...
Não é um pouco contraditório?
Não.
Se o dizes...
3. Qual é o seu nome? Onde vive?
Quem está a falar? Não és tu consciência? Quem é?
É uma enfermeira.
Para que serve uma enfermeira?
As enfermeiras cuidam dos doentes, mental e fisicamente. Trabalham em hospitais.
Porque estou num hospital?
Estás doente. Já não te lembras do transporte e dos cintos de segurança?
Ah, sim tens razão. E qual é o meu nome, e onde vivo?
Não te recordas?
Não. Era suposto eu saber?
Claro que era! Todas as pessoas têm um nome. Já algumas não têm onde viver, coitadas.
Coitadas? Porque são coitadas?
Acho que isso não interessa agora. Apenas o teu nome e morada.
Que eu não sei.
O seu nome, senhor? E a sua morada?
Não me recordo do nome.
Não se lembra do seu nome...? Não tem algum cartão, foto? Traz algo consigo?
Receio que não. Não me lembro de nada.
Como me chamo e onde vivo? Estás-me a esconder alguma coisa?
Não ganharia nada em te esconder alguma coisa. Não te sei responder.
Não sabes? Para que serves tu então? Sabes tanto como eu: nada!
Eu sou a tua moral, não sei coisas da tua vida, apenas o mais certo a fazer. Definições e…
Diz-me o que é mais correcto a fazer então?
Diz-lhe que não estás bem, talvez com o tempo te recordes. Precisamos de tempo.
Precisamos? Para quê?
Diz-lhe apenas isso.
Desculpe, está a falar comigo? Disse algo e não percebi o que era.
Não, não. Ah, eu não me estou a sentir bem. Pode ser que me recorde depois.
Ah. Está certo então, é melhor descansar. Não se sente bem? O que lhe dói?
A barriga e a cabeça está um pouco nublada.
Bom, vamos lá ver essa barriga.
Ela não sai daqui?
Devias ter apenas dito que te doía a cabeça!
Não me lembrei. Estou nervoso.
Tem calma, deixa ela acabar de fazer, o que quer que ela esteja a fazer.
Certo.
Dói-te mesmo a barriga?
Não.
Então porque disseste que te doía?
Senti uma vontade, dentro de mim, de ela me tocar na barriga. Não sei bem porquê…
O quê? Isso não tem lógica! Lógica nenhuma mesmo…
Bem, não consigo perceber qual é o seu problema. Talvez...
Eu se calhar só preciso de descansar, dói-me um pouco a cabeça.
Bom, vou ver se lhe arranjo algo então. Descanse.
Sim, obrigado.
Pronto, despachado.
Sim, por enquanto.
Preciso mesmo de fechar os olhos. Preciso de fechar os olhos e adormecer e...
Descansa então, depois tentamos perceber o que se passa com as tuas recordações.

4. As minhas quê? Que falavas antes de eu adormecer?
Já acordaste?
Sim, sim. Porquê, não dormiste?
A consciência não dorme, está sempre a pensar.
A pensar no quê?
Em resolver problemas, dúvidas, medos, perguntas, quebra-cabeças, adivinhas, dilemas…
Como o facto de não me lembrar de nada?
Exacto. A tua falta de recordações. Mas não descobri nada. Não percebo.
A minha falta de quê? Recordações?
Sim, noções da vida que tens. Memórias de momentos bons, pessoas a recordar, lugares em que já estiveste. A tua vida. A experiência que adquiriste dos erros que cometeste.
Eu errei?
Sim, inevitavelmente erraste. Todos erram. Ninguém é perfeito.
Tu também erras?
Eu apenas penso no mais correcto a fazer, independentemente das consequências gerais.
Se ninguém é perfeito, porquê a definição do perfeito?
O perfeito é muitas vezes visto como uma meta a atingir, um objectivo a cumprir.
Mas disseste que não era possível.
A luta pelo impossível ou pouco provável, alimenta a evolução humana há milénios.
Tudo isto me parece um pouco confuso… E quanto às minhas recordações?
Não te lembras de nada? Nada que te possa indicar algo? Uma visão vaga do passado?
Nada, a minha mente está apenas encalhada contigo.
Procura no teu corpo. Uma marca, uma tatuagem, uma cicatriz, uma deformação. Algo.
Marca, tatuagem, cicatriz, deformação? Que é isso?
Com a idade deixamos algumas marcas no corpo. Nascemos com elas ou fazemo-las ao magoarmo-nos. Alguns até pintam o seu corpo para recordar alguém, mostrar um estado de espirito, honrar uma época ou apenas algo que querem marcar no corpo para sempre.
Estou a olhar para mim. Noto que tenho umas cicatrizes nos joelhos. Mas parecem dema-siado pequenas para indicar-nos o que quer que seja. E vejo um corte no polegar direito.
As cicatrizes são antigas. O corte foi uma queimadura.
Tu lembras-te?
Não, mas parece ser de uma queimadura. Consegues-te levantar? Vai à casa de banho.
Vou para onde?
À casa de banho, é a primeira porta ao lado esquerdo.
Vou para lá. Entro. Vejo uma pessoa.
És tu, no espelho. O que consegues ver mais no teu corpo?
Tenho uma bata longa. Sou ligeiramente bronzeado. Olhos castanhos.
A bata, deu o hospital. Tira-a e diz o resto do teu físico.
Tenho um corpo largo. Músculos. Um corte pequeno no lado esquerdo, perto da cintura.
No lado esquerdo? Estranho, poderia ser o corte do apêndice, mas esse é no lado direito.
Apêndice? Dizes tanta coisa que não sei o que é!
Eu sou a definição das coisas, é apenas normal que eu saiba muito. Talvez tenhas os órgãos trocados de lado, é uma hipótese. Uma minoria mundial tem os órgãos trocados.
De qualquer modo, isso não me ajuda, não é? Não consigo perceber quem sou!
Calma. Nada está perdido. O tempo está do nosso lado.
Está?
Sim! Ninguém te persegue. Ninguém te procura. Ninguém te deu por desaparecido.
Mas como é que tu sabes? E isso é bom para mim em que sentido?
Seria pior se ainda estivesses no chão, a sangrar feito morto, sem te mexeres.
Sim, tens razão. Mas não sei quem sou. Sinto-me vazio. Como se estivesse morto.
5. Como se sente?
Melhor que quando cheguei, sem dúvida.
Óptimo. Ao que parece sofre de um problema nas pernas.
É muito mau?
Está incapacitado de andar e poderá sofrer nos braços. Mas não é permanente.
Ah...
O que é óptimo!
Sim, claro que é.
Teremos de marcar uma operação.
Está certo.
Portanto, entretanto eu irei ajuda-lo no que precisa, sim?
Sim. E como faço para a chamar? Devo gritar por si?
Apenas clique nesse botão á sua direita.
Ah, muito obrigado.
Não lhe perguntaste em que cidade estamos! Nem o dia ou o ano!
Temos tempo.
Ah, agora és tu a dizer que temos tempo?
Que se passa consciência? Pareces irritada comigo.
E estou.
Mas nunca te tinha visto irritada, o que se passa?
Estás a ficar ilógico, logo eu não aprovo.
Estou o quê?
Já não ages de acordo com a lógica. Perdes-te a razão, a sabedoria e a inteligência.
Ah sim, e porque dizes isso? Em que te baseias?
Qualquer outra pessoa sendo amnésica ficaria triste, revoltada. Mas tu não. Estás normal.
Qualquer pessoa seria assim? As pessoas amnésicas? Sou diferente do diferente, então.
És. Estás apaixonado.
Isso é o quê?
É tomar o gosto por alguém, sentir que a vida seria perfeita com esse alguém. Amar.
Mas dizias, antes, que nada é perfeito! E o que é amar?
E não é. Muitas vezes as relações não correm como previsto. E amar… é complicado.
E dizes então que eu quero uma relação? Que eu estou apaixonado?
Estás.
Por quem?
Pela enfermeira.
Não! Não estou… Ou estou?
Estás.
Hum… Bom, e que podes tu fazer, consciência? Podes impedir-me de me apaixonar?
Não. Eu apenas sei que estás apaixonado. Mas não controlo o que fazes. Eu aconselho.
Estou a ver. Eu não deveria sentir algo, já que estou apaixonado? Algo tipo...
Borboletas na barriga, um calor interior, um sorriso constante, uma felicidade enorme?
Exacto, algo assim!
Não. Cada pessoa reage à sua maneira. Não há um estado de espírito apaixonado comum.
Ah... E tu, queres que eu deixe de estar apaixonado?
Eu não te posso pedir para não te apaixonares, apenas não quero que cometas erros.
Apaixonar-me por ela é um erro?
Para ti não. Não tens nada a perder. Mas para ela talvez seja.
Porquê?
Olha para ti, não tens memória, estás incapacitado. Ela tem um trabalho, e a vossa relação, sendo tu um doente amnésico, não resultaria. Mas não faz mal ter esperança.
6. Estamos combinados?
Sim. Quando ela voltar, pergunto se posso almoçar com ela. Assim vou estar com ela fora do recinto do hospital. E aí a lógica de paciente doente não se aplica.
Exactamente.
E lá fora ela não terá problemas em reagir como uma pessoa normal e não como a minha enfermeira. Perde o estatuto e passa a ser uma pessoa comum.
Correcto.
Certo, vou chama-la.
Diga, que se passa?
Olá. Gostaria de saber se é possível eu almoçar com...
A hora do almoço já passou. Mas naturalmente que deve ter fome. Vou já às cozinhas ver o que consigo lhe arranjar. Se calhar restou algo do almoço.
Não, desculpe mas...
Já volto, não se preocupe. Não precisa de se desculpar, volto já.
Que raio. Não resultou.
Não disseste nada! Envergonhaste-te. E mesmo que digas, duvido que resulte.
Ah, porquê?
Não sabes se ela já tem um parceiro. Nem sabes se fazes o género dela.
O género dela?
Claro, ela pode preferir homens menos musculados. Talvez mais brancos. Ou pretos.
Mas o género tem tudo a ver com a aparência? A personalidade não conta?
Claro que conta! Mas olha para ti, és amnésico! Não sabes nada de nada. O que te garante que ela está disposta a arriscar perder o seu tempo contigo?
Nada.
Exacto.
Mesmo assim, vou arriscar. Quero que ela me negue, para ter a certeza.
Porquê?
Porque assim, contento-me por saber que ao menos tentei.
Mas se ela te recusar, talvez te arrependas. Tens a certeza que queres lidar com isso?
Não. Mas também não quero ter de lidar com uma vida cheia de remorsos. Entendes?
Entendo. Penso no que é certo para ti no imediato e no futuro. Mas ambas as hipóteses podem-te fazer sofrer. Portanto, não é fácil perceber qual a mais correcta a seguir.
Tenho a certeza que é a que vou tomar. Essa, pelo menos pode resultar bem. Se não lhe disser nada, nunca vou saber se podia ter corrido bem ou mal. Vou-lhe pedir.
Tens razão. Começo a achar que...
O quê?
Nada, já te digo.
Aqui tem.
Olhe, gostaria de saber se…é possível almoçar comigo.
Ah, eu... Eu tenho que trabalhar. Posso ficar um pouco, mas depois tenho que ir.
Ah. Mas não há nenhuma hipótese de almoçarmos lá fora? Fora do seu trabalho?
Enquanto não tiver alta, não é possível. E depois eu sou enfermeira. Tem que perceber que não pode haver uma relação enfermeira paciente desse cariz.
Qual cariz?
Ah… Assim como diz. Estou aqui para tratar de si, acima de tudo.
Estou a ficar sem ideias…
Diz-lhe que não procuras algo mais que uma amiga. Já que estás tão sozinho.
Pois. É que sinto-me um pouco sozinho. Não me lembro de nada e você é a única pessoa que me conhece. Penso que, me ajudaria conversar com alguém.
Entendo. Mas vou chamar-lhe um psicólogo do hospital para falar consigo.
7. Psicólogo? Isso é o quê?
Um especialista da mente que vai tratar de ti.
E resulta?
É discutível. Eu como tua consciência, desconfio. Ele não é nenhum mágico.
Mágico?
Ele não faz milagres.
Milagres?
Tu cansas-me. Enfim, o que interessa é que ele vem cá. Não tentes parecer um maluco.
O que é um maluco?
Alguém que não é considerado normal. Que cria um mundo imaginário na sua mente. Que não age normalmente como todos os outros indivíduos. Que vê o mundo de uma maneira diferente. De uma maneira que a sociedade em comum não tolera ou aceita.
E os malucos, também vão para a prisão?
Alguns. Outros vão para o Hospício onde procuram tratamento.
Portanto são malucos e admitem que são malucos. Vão para o hospício tratarem-se.
Não, na maioria dos casos eles não admitem estar malucos. São postos de lado porque são considerados perigosos para resto da sociedade ou apenas não se enquadram nos parâmetros necessários de cada cidadão. No hospício, os médicos procuram tratar deles.
Ah. Porque eles são malucos.
Exacto.
Mas a sociedade exige parâmetros? Exige regras e leis para os cidadãos normais?
Sim. Existe um documento que intitula os direitos e deveres de todos os cidadãos. Muitos dos prisioneiros são colocados na prisão porque as suas atitudes limitam ou retiram a liberdade de outros, cometendo crimes. E isso é um desrespeito perante a lei.
Hum… E os malucos também retiram ou maltratam a liberdade de outros?
Alguns. Outros simplesmente regem-se por um código moral que a sociedade não tolera.
Estou a ver. Portanto são postos de lado, porque não aceitam pactuar com quem ordena.
Correcto.
Se são postos de lado, porque são diferentes, então a humanidade é toda igual. Não?
Não é toda igual. Mas todos respeitam o mesmo. Todos caminham para o mesmo. O que se procura é a igualdade universal, mantendo a liberdade de escolha de cada um.
Bem, parece-me que não é justo por alguém no hospício. Quem nos diz que nos temos de ser todos iguais? Talvez quem tenha razão sejam os malucos e não quem os põe lá.
Vê lá se não dizes isso ao psicólogo...
Porquê? Que queres que lhe diga?
Nada que te possa fazer parecer maluco, fora do comum ou qualquer coisa anormal.
Está bem.
Ora, boa tarde. Sou o seu psicólogo. Venho ver como está.
Olá.
Bom, já sei que não se lembra do nome nem de onde vem. Diga-me, o que sabe?
Neste momento?
Sim.
Neste momento eu sei que tenho uma voz na cabeça, que se chama consciência e que me ajuda a me orientar. Ela disse-me há pouco para eu não lhe dizer nada de estranho ou diferente se não você ponha-me no hospício junto dos malucos.
Ah… Eu… estou a ver...
Achas que me safei bem consciência?
...
Consciência, estás aí?
Tu... Raios, eu não acredito...
8. Eu disse para não pareces maluco! Porque não mentiste?
Eu disse apenas a verdade! E o que é isso da mentira?
Mas… É o acto de ocultar a verdade ou de atenuar a realidade encobrindo alguns factos.
Eu não fiz isso!
Pois não! Mas devias ter feito! É o que as pessoas normais fazem em caso de necessidade!
Porquê? Não me parece correcto isso que chamas de mentir. Porque mentem as pessoas?
Porque precisam de esconder algo. Ele agora vai-te por num hospício junto dos malucos!
Começo a gostar mais dos malucos do que dos que estão cá fora. Ao menos não mentem!
O quê? Como podes dizer algo assim? Os que estão cá fora são os saudáveis e normais!
Os que estão cá fora, vivem as suas realidades e não aceitam a realidade dos que estão no hospício. Que raio de pessoas são estas? Ao menos os loucos admitem que vivem numa realidade diferente, segundo as suas normas e feitios. Não mentem. São reais.
Mas eles... eles são os marginais! Os diferentes. Os anormais. Os loucos!
Não me interessa.
Os normais são os que vivem cá fora. Em sociedade. Em união. Em grupo.
Se esses são os normais então eu prefiro ser anormal. Recuso-me a pactuar com uma sociedade que põe de lado os diferentes. Pensei que a ideia da sociedade era viver-se em união. Em liberdade. E contudo falas-me da vontade de toda a gente parecer igual, semelhante uns aos outros. Presos por regras. Isso não. Prefiro admitir que sou diferente.
Bem, eu não posso dizer que te entendo… E na verdade gostava de te poder convencer do contrário. Não me pareces muito lógico e contudo não sei o que te dizer.
Não digas mais nada. Fiz a minha escolha. Se ter-te na minha mente faz de mim um ser anormal, então chamem-me de louco… Como é a vida num hospício?
Estranha. Assustadora. Acordada. Violenta. Diferente.
Como é a vida na cidade? Que promessas me dá, que realidades me aguarda?
A cidade promete direitos. Hipóteses e garantias de trabalho e dinheiro. Mas nem todos se safam. Alguns vivem na rua. Outros trabalham muito, para um mísero quarto. Infestado de doenças e parasitas. Outros sobem na vida e vivem o sonho. Mas mesmo aí são alvos de inveja, medo e violência. Alguns passam fome e vivem uma vida sem objectivos.
Como vês, não estou seguro em lado algum. Consciência, de que me procuras defender, se em nenhum lado estou em segurança?
Procuro-te defender de qualquer coisa que te possa magoar. Ferir. Mas hoje em dia é difícil viver-se em paz. E nem todos fomos feitos para sermos monges, isolados na nossa montanha. A rezar e a orar.
Rezar e orar? Monges?
São pessoas comuns que seguem uma religião ou um ideal de paz. Vivem o que defendem no seu dia-a-dia. Procuram a paz interior e têm uma vida de meditação e dedicação.
Paz interior... Agrada-me a ideia. Será possível viver uma vida assim, num hospício?
Quem sabe. Foi uma escolha que tomaste. Espero que tudo corra bem.
Vais-te embora?
Não. Fico aqui na altura em que te levarem para o hospício. E daí para frente, fico contigo até ao fim. Eu faço parte das tuas escolhas, quer sejam erradas ou boas.
Obrigado. Já agora, eu serei internado, porque me vêm como uma pessoa louca?
Sim. Segundo as normas e os conhecimentos médicos, consideram-te um louco.
E quem criou as normas e os conhecimentos médicos?
O homem.
Mas o homem é imperfeito, logo todo o conhecimento médico e da justiça é falível…
...
O mundo é mesmo um lugar estranho…
Pois é.

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