terça-feira, 21 de setembro de 2010

Marisa B: A canção

I

Caminhando, sozinho, naquela praia desconhecida, Andhrey passava em revista a sua vida. Não sabia o que fazer. Não sabia onde estava. E mais importante ainda, não sabia como voltar a casa. Sentou-se, por fim, num dos destroços do seu navio. Olhou o mar. Estava tão calmo, tão diferente daquela noite… Aquela fatídica noite. Quanto tempo teria passado? Os dias eram tão longos naquele lugar, que simplesmente perdera o conto. Uma semana? Duas? Mais tempo ainda?
Deixou-se escorregar e deitou-se na areia branca e fina. O céu estava tão azul, a brisa tão fresca, o sol tão brilhante… Pela primeira vez na sua vida, uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto moreno. Ele só queria voltar para casa. Voltar para os braços de Johanna.

Andhrey tinha trinta e oito anos batidos pelo sol, o sal e as intempéries. Era um marinheiro experiente, capitão do Diabolo, navio que, agora, jazia em pedaços a seus pés. Cabelos cor de mel, olhos claros, rosto de traços bem definidos, com lábios grossos. Quando ainda muito pequeno, a mãe morreu-lhe devido à peste. O pai, de quem herdara o gosto pelo mar, deixou a vila onde viviam e partiu rumo à cidade, com ele nos braços. Ansiava por dar uma vida melhor ao seu filho, e fugir da doença.
Andhrey cresceu pelo cais e as docas, sempre rodeado de navios, brincando com outros filhos de marinheiros. O pai, a muito custo, arranjou emprego na Companhia Mercante Real, e raramente estava presente. Entregava-o constantemente aos cuidados de amigos seus. Andhrey entendia; enquanto o pai tivesse emprego, não passariam fome.
Uma das famílias que tomava conta de Andhrey possuía um pequeno estaleiro onde realizavam consertos aos navios. Foi lá que Andhrey aprendeu tudo sobre eles, e encontrou o seu primeiro trabalho. Foi lá também que cresceu o seu amor pela navegação.
Mais tarde, com dezassete anos completos, Andhrey foi mais uma vítima do destino. A embarcação onde o seu pai seguia desapareceu misteriosamente numa tempestade, com toda a tripulação a bordo. Nunca se chegou a encontrar nenhum corpo, nem os destroços do Navarro. Andhrey esperou. Tinha esperança de que o pai voltasse, desse notícias. Contudo, um ano mais tarde, sentiu-se cansado de esperar. Decidiu agir.
Alistou-se como marinheiro num dos barcos da Companhia, o Marianne. Embora a princípio sentisse a dureza do trabalho, rapidamente se habituou. Com esforço e dedicação, integrou-se facilmente, e despertou o interesse do capitão. Era um homem severo, mas atencioso. Ao longo do tempo, ambos passaram a respeitar-se como pai e filho. Durante vários anos, foi neste navio que Andhrey aprendeu todos os seus conhecimentos de navegação através dos ensinamentos do capitão. Inclusive aprendeu a cartografar, e desenhou os seus próprios mapas. Aprendeu sobre si mesmo e sobre os outros. Conheceu a traição e a confiança. Acalmou a necessidade de viver e amadureceu a sua sensatez. No Marianne, Andhrey cresceu.
Aquando dos seus vinte e sete anos, o capitão do Marianne morreu, e Andhrey recusou continuar a integrar a tripulação. Amealhara o suficiente para comprar uma pequena embarcação, e queria libertar-se das amarras da Companhia. Finalmente, tentaria cumprir a promessa que fizera anos mais tarde, quando o pai desaparecera: ia descobrir o que lhe acontecera.
Adquiriu o seu navio de uma pequena companhia mercante. Era semelhante ao Marianne, e tinha muitos anos de uso. Necessitava de sérias reparações. Contudo, Andhrey, com a experiência adquirida na juventude e aperfeiçoada na idade adulta e a ajuda de alguns amigos, em pouco mais de meio ano renovou completamente o barco, tornando-o mais leve e aerodinâmico, embora mantendo a resistência e robustez. Mudou-lhe o nome original – Corazón –, rebaptizando-o de Diabolo.
Depois de formar a tripulação – vinte sete homens dedicados, escolhidos a dedo – lançou-se ao mar. Contudo, não foi capaz de partir imediatamente em busca do pai. Faltou-lhe a coragem. Não sabia bem o que fazer, nem o que ia encontrar, e vacilou. Deu início ao seu próprio negócio. Começou por transportar mercadorias e passageiros para diversos destinos. Decidiu que seria melhor ganhar algum dinheiro e assegurar um futuro antes de se lançar na sua jornada.
Alguns anos depois de estabelecido o seu negócio, já ia nos trinta e três, conheceu Johanna, por quem se apaixonou. Ela trabalhava numa padaria com o pai, perto do estaleiro onde Andhrey cresceu. Era uma rapariga na casa dos vinte, ruiva, franzina e bonita, de olhos grandes, castanhos, e lábios gulosos. Contudo, foi a sua personalidade que cativou Andhrey. Era muito viva e sincera, trabalhadora e carinhosa. Com o tempo e a insistência, Johanna também se agradou dele. Começaram a namoriscar-se. Dois anos depois, e assumido o compromisso, decidiram finalmente casar. Com o dinheiro que Andhrey conseguiu amealhar, comprou uma pequena casa junto às docas, para onde se mudaram. Um ano mais tarde, pelo Natal, nasceu o primeiro filho, um rapaz gordinho a quem deram o nome de William. Andhrey estava feliz. Sentia que a sua vida estava completa.
Mas, numa tempestuosa noite de Março, Andhrey encontrava-se com os seus marujos n’O Ancorado, a taberna das docas mais popular entre os marinheiros da região. Lá, ouviu um agastado marinheiro da Companhia Mercante Real contar, por entre canecas de cerveja, que mais dois navios tinham desaparecido sem rasto, em menos de três meses, numa enigmática tempestade perto de uma pequena ilha, a alguns dias de distância da costa. Andhrey sobressaltou-se. Fora naquele mesmo local, nas mesmas condições, que o seu pai tinha desaparecido no Navarro quando ele era pequeno. Subitamente, lembrou-se da promessa que fizera e sentiu remorsos por nunca a ter cumprido. O seu pai não o perdoaria. Para ele, uma promessa tinha sempre de ser cumprida; caso não fosse possível cumpri-la, nunca deveria ser feita. Fora assim que fora educado. Teria de, mais cedo ou mais tarde, partir. Aproximou-se do homem, pagou-lhe mais uma cerveja e pediu-lhe informações sobre o sucedido com os navios.
Soube que, na zona onde os barcos desapareciam, existia uma ilha, sempre envolta em brumas, da qual muito poucos gostavam de se aproximar. Fora bem documentada em antigas lendas folclóricas locais, muito antes da implementação do Cristianismo vigente. Era sempre referida como uma espécie de ligação ou limbo, um local de diálogo entre as dimensões divina e terrena, para onde eram enviadas as entidades divinas expulsas da sua dimensão pelo Deus-Rei, chamado simplesmente de Pai. Curiosamente, da ilha nunca se soube o nome. O velho marinheiro, na sua pouco sóbria embriaguez, acreditava que todos os desaparecimentos eram obra de um Pai enfurecido por o terem atirado para o esquecimento, com a chegada dos padres.
Andhrey não acreditava em Deuses nem temia a fúria do Pai. Queria apenas perceber o que acontecera com o seu pai, e cumprir a sua promessa. Por isso, no dia seguinte, foi consultar alguns mapas de navegação da Companhia, na esperança de encontrar cartografada a dita ilha. Teve sorte. Contudo, mais perigosa do que qualquer divindade, era a própria região. A ilha era rodeada por quilómetros consideráveis de águas baixas, bancos de areia e muitos recifes de coral e rochas – um pesadelo para qualquer navio de médio-grande porte como o seu. Mas não podia desistir. Teria de ter cuidado e não se aproximar demasiado.
Preparou a viagem com cautela e tempo. Não se sentia propriamente ansioso de deixar Johanna e William, ainda bebé. Portanto, procedeu sem pressas. Quando anunciou à sua mulher que iria partir, esta entrou em choque e chorou toda a noite. Teve medo pelo marido, medo que ele não voltasse. Andhrey sossegou-a meigamente. Nada aconteceria e em poucos meses estaria de volta. “Promete-me.” Mesmo correndo o risco de falhar desta vez, Andhrey prometeu.
Depois de completar os seus trinta e oito anos zarpou, finalmente, em busca da verdade. Sentia-se apreensivo, assim como toda a tripulação. Sabiam que corriam o risco de não voltar, tal como os outros navios não tinham voltado. No entanto, a viagem correu bem nos primeiros dias, e a moral dos marinheiros manteve-se à tona.
Uma noite, porém, de mares pouco agitados e lânguidos ventos, quando já estavam perto, Andhrey despertou do seu sono leve e sentiu-a. Sentiu-a mais do que a ouviu. Uma voz feminina, doce, mas enraivecida, que cantava num idioma desconhecido. Ao sabor do seu cântico, as águas insurgiram-se num crescendo contra o navio e os ventos despertaram do seu hipnótico sono. O apelo da música aos ventos e mares subia de tom, nunca cessando, à medida que os marinheiros aterrorizados tentavam de tudo para controlar a embarcação, já de velas desfeitas. Não sabiam ao certo para onde as loucas vagas os levavam, pois pouco se conseguia ver na escuridão. Escassos momentos depois souberam – sentiram por baixo deles o casco embater em algo e desfazer-se. O navio inclinou-se tanto que quase ficou na horizontal. Os marinheiros eram atirados borda fora e levados pelas águas, para nunca mais serem vistos. O Diabolo desfez-se ao ser empurrado para as rochas. Andhrey foi brutalmente atirado à água e só conseguiu agarrar-se ao que restava de uma tábua do convés, antes de voltar a ser engolido pelas ondas. Via os seus companheiros em pânico, que tentavam agarrar-se a algo ou fugir a nado para a praia que, embora distante, já aparecia no horizonte. Já não tinha forças para lutar contra o mar, que o puxava impetuosamente para o fundo e o arrastava gradualmente em direcção à praia. Com a vista turva e a certeza de que não sobreviveria, Andhrey distinguia, por entre todo o alarido da tempestade, a voz sedutora que desencadeava aquela tormenta cada vez com mais nitidez. Embora não percebesse o que dizia nem o idioma que falava, conseguia distinguir certas palavras no meio do emaranhado de sons que se aglutinavam por entre a melodia do vento e das águas iradas. Sentia a sua voz cada vez mais perto. Pouco antes de desmaiar, viu-a. Desviara o olhar para o alto de uma escarpa que se agigantava sobre as águas, junto à praia, e observara, recortada no negrume dos céus e ladeada por fervorosos relâmpagos que começavam a despontar das nuvens, uma silhueta feminina de braços abertos ao horizonte, com leves roupas claras que pareciam iluminá-la e compridos cabelos louros dançando colericamente ao sabor do vento. Sentiu-a, mais do que a viu, desviar o olhar para o lugar onde ele, sem forças, lutava para se manter consciente e à superfície. Porém, no momento em que lhe parecera avistar um sorriso a desenhar-se nos lábios já indefinidos da mulher, desfaleceu.












II

Quando recobrou a consciência, Andhrey encontrava-se no mesmo lugar onde agora se achava deitado, juntamente com o que restava do Diabolo. Atrás de si crescia uma imensa floresta cerrada, onde o sol mal perpassava a folhagem. O mar calmo, de águas transparentes, estendia-se infinitamente até ao horizonte. Do lado esquerdo terminava a praia junto à escarpa onde vira, ou julgara ver, a mulher que cantava aos ventos. Para o seu lado direito, a praia continuava até perder de vista, numa curva que parecia penetrar na floresta. A calmaria que pairava naquele lugar desde o momento do naufrágio era insana, absurda. Andhrey sentia-se enervado. Levantou-se. A brisa fresca de Verão envolveu-o nos seus braços como a um precioso amante, afagando-lhe os cabelos e beijando-lhe o rosto. Tentava dar-lhe a inevitavelmente falsa sensação de paz e segurança que aquela maldita ilha nunca poderia salvaguardar.
Percorrera todo o comprimento da praia até esta terminar, e não encontrara nada nem ninguém. Os corpos dos seus companheiros desapareceram sem deixar rasto, e não se via ou ouvia mais nada para além do mar e do restolhar de folhas vindo da floresta. Não encontrava aves ou outras formas de vida, para além dos peixes que apanhava para comer, junto de um pequeno riacho que desaguava junto à escarpa, onde ia beber água. Mas não podia ficar ali para sempre. Já se tinha passado muito tempo – quanto, não tinha a certeza. Estava na hora de adentrar na floresta.
Dirigiu-se para junto desta, e apoiou-se numa enorme palmeira. Não sabia o que iria encontrar, e não tinha nada consigo que pudesse usar como arma para se defender. Nunca na sua vida se tinha sentido tão indefeso. Mas não podia hesitar. Avançou, a passos firmes, por entre a vegetação rasteira, desviando-se das árvores exóticas que ali, parecia, tinham nascido como cogumelos. O ar era pesado, abafado e muito húmido. A luz era metodicamente filtrada por entre as folhas e lianas, que mal lhe tocavam as mãos, tão altos estavam os ramos. Não se ouviam cantares de pássaros, nem se viam rastos de animais. Toda a floresta era reduzida apenas ao murmurar das árvores.
Continuou por ela, sem saber ao certo onde esta o levaria, ou o que iria encontrar. Talvez vivesse alguém ali. Ouvira muitas histórias sobre ilhas em que tinham sido descobertas aldeias de gente estranha, com pele escura e pintada. Quem sabe se não estaria numa ilha assim? Quem sabe se não encontraria alguém que o ajudasse a sair daquele fim de mundo? Queria tanto voltar a casa. Mas sabia que, se não conseguisse sair dali por si mesmo, ninguém o viria procurar. Não ali.
Continuou a caminhar por muito tempo, horas talvez, quantas nunca soube, até que começou a ouvir um rumorejar que parecia o de água corrente. Seria um rio? Troava demasiado alto para ser um simples riacho na floresta. Apressou o passo na direcção do som, que se tornava cada vez mais alto à medida que se aproximava. Em pouco tempo, encontrou-o. Um rio profundo, mas não muito largo, corria alegre e velozmente. Se o seguisse numa das direcções, talvez encontrasse alguém, ou alguma coisa, que o ajudasse. Decidiu seguir o rio em direcção à foz. Ainda pouco andara, já caíra a noite. Não podia continuar, principalmente não conhecendo a região. Aninhou-se debaixo de uma grande árvore e, a custo, lá adormeceu.
Acordou, ainda mal o sol começara a despontar, com a sensação de não estar sozinho. Levantou-se rapidamente e perscrutou a escuridão da floresta. Ainda foi a tempo de ver a cauda de um vestido branco e as pontas de uns cabelos louros fulgurantes esconderem-se atrás de uma árvore. Lembrou-se da rapariga na noite do naufrágio. Afinal era real. Existia mesmo alguém naquela ilha. Correu na direcção de onde ela tinha desaparecido, mas não a encontrou. Subitamente, ouviu um leve e alegre riso de mulher ecoando na floresta, por trás de si. Voltou-se, mas só teve tempo de ver um reflexo luminoso a fugir novamente por trás de outra árvore. Andhrey decidiu voltar para junto do rio e continuar a sua caminhada, receoso de penetrar demais na floresta e acabar perdido.
Ainda o sol não ia alto, já tinha chegado. Ali estava de novo o mar à sua frente, a perder de vista. Nas margens do rio formara-se uma pequena praia fluvial. Na outra margem, os juncos tinham nascido como cogumelos. Pela primeira vez, encontrou animais que não peixes – várias libélulas e outros insectos que não reconheceu pululavam nas águas paradas junto da margem. Contudo, não foi só isso que encontrou.
Diante dos seus olhos jaziam os despojos de várias embarcações. Restos de corda, tábuas, âncoras, tecido das velas, pedaços do mastro, barris desfeitos. A água e a praia estavam pejadas dos testemunhos de inúmeros naufrágios – pela degradação de alguns destroços, certos navios teriam naufragado ali há muitos anos. O estômago vazio de Andhrey deu voltas de nervosismo. Estaria ali o barco do seu pai?
Procurou pela praia, mas nenhum dos destroços correspondia ao que se lembrava do Navarro. Entrou na água, vasculhando o que encontrava. As carcaças dos navios que por ali se aninhavam eram-lhe completamente desconhecidas. Contudo, o seu olhar deteve-se em algo muito familiar. Na outra margem, sobressaía uma âncora meio enterrada na água. Andhrey nadou até lá, sem tirar o olhar dela. O seu nervosismo cresceu. Reconhecia-a. Era ela, tinha quase a certeza.
Chegou junto da âncora e começou a procurar. Já estava muito degradada e escura, mas ainda sentiria as gravações na parte cimeira, se lá estivessem. Segundos depois, encontrou-as. Libertad. Viam-se muito mal, mas ainda assim conseguiam ler-se algumas das letras. Fora o seu próprio pai que as gravara. Era sem dúvida a âncora do Navarro.
Finalmente, sabia o que acontecera ao pai. O Navarro naufragara ali, tal como naufragara o Diabolo. Não havia sinal de vida naquela ilha – provavelmente, e passados tantos anos, mesmo que o seu pai tivesse sobrevivido ao naufrágio, já estaria morto. Foi no meio destes pensamentos que notou. Junto à floresta, nessa margem, encontrava-se uma jangada. Era antiga – muitos troncos já estavam soltos e as lianas que ainda mantinham os restantes seguros uns aos outros mostravam-se quebradiças. Contudo, deu-lhe certezas. Não fora o único sobrevivente a ficar preso naquela ilha. Quem quer que lá tenha estado antes tentou, também, fugir – e não foi bem sucedido, pois a jangada estava ainda ali. Pela primeira vez, sentiu medo. Não queria apodrecer naquela ilha para sempre. Queria voltar para casa, ver Johanna, abraçar o seu filho. Teria de arranjar maneira de fugir.
Repentinamente, ouviu um cantar suave vindo da floresta. Não reconhecia as palavras, mas o tom era-lhe familiar. Imediatamente, soube. Era a mesma mulher que cantara aquando do naufrágio. Era certamente ela quem ele, por vezes, sentia segui-lo na floresta. Era certamente ela que se escondia por entre as árvores assim que ele dava conta de que estava a ser observado. Se aquela mulher morava realmente ali, sabia certamente como sair. Talvez até existisse uma qualquer aldeia na floresta. A mulher era o único sinal de civilização que dava mostras de ainda existir por aquelas paragens. Teria de a encontrar.
Entrou na floresta, seguindo o cantar da mulher. À medida que avançava por entre as árvores e penetrava mais no interior, ouvia-a cada vez mais nítida. Parecia que a mulher cantava propositadamente para ele, esperando que seguisse a sua voz até a encontrar. Serpenteou por entre as árvores durante, parecera-lhe, quase uma hora, a voz da mulher sempre cantando, num crescendo. Subitamente, as árvores acabaram. Andhrey parou, de queixo caído. Nada o teria preparado para o que estava a ver naquele momento.
Encontrava-se numa imensa clareira relvada, bordada a flores. Várias casas nasciam da relva aqui e ali, como que formando uma minúscula aldeia. Contou-as – sete no total. As paredes estavam cobertas de heras e outras plantas, e as pedras que as compunham mostravam-se escurecidas. Os telhados de grande parte delas tinham simplesmente desabado. As pequenas delimitações na frente das casas, que supôs terem sido jardins, mal se distinguiam no meio da erva e das flores. O canto da mulher tinha parado.
Andhrey entrou vagarosamente naquele povoado abandonado, demorando os seus olhos pelas casas. Várias borboletas esvoaçavam aqui e ali, e um coelho fugiu, assustado com o som dos seus passos. Junto da última casa, no final da clareira, viu finalmente a mulher. Encontrava-se sentada nos destroços de uma das paredes da casa. Era loura, de cabelos ondulados muito brilhantes e compridos. O seu rosto era belo, o mais belo que alguma vez vira. A sua pele mostrava-se branca, com lábios rosados e grossos. Um olhar verde que, ao desviar-se para ele, logo o pregou ao chão, tão intenso era. O vestido que envergava, reconheceu-o logo. Era o mesmo que se lembrava de vislumbrar na noite do naufrágio, esvoaçando ao vento. Era branco, tão branco que dava a sensação de brilhar, de um tecido leve e solto, que lhe vincava as elegantes formas do seu corpo. O carisma daquela mulher era tão avassalador, que Andhrey não conseguia deixar de olhar para ela. Ela sorriu-lhe, com um sorriso alegre e sedutor. A rapariga estava descalça, e brincava com os seus pezinhos pequenos na relva.
Não tenhas medo, sussurrava uma voz ao seu ouvido. Contudo, a mulher não falava. Limitava-se a olhar para ele e sorrir. Aquelas três palavras suaves arrepiaram-no.
- Quem és?
- Se é o meu nome que queres saber, chamo-me Ayalla. – desta vez, foi a mulher que falou. A sua voz era melodiosa. Repentinamente, lembrou-se da história que o velho marinheiro lhe contou na taberna. Não soube bem porquê.
- O que és?
- Já sabes a resposta. – a mulher riu-se suavemente, e levantou-se, ajeitando o vestido. – Não sou humana.
- Então, o velho tinha razão. És uma deusa.
- Muitas são as coisas que se dizem, ainda mais aquelas que se ouvem. Mas poucas são verdade. – aproximou-se de uma árvore e, deslizando a mão pelo tronco, desapareceu por detrás dela. Antes sequer de Andhrey poder mover-se, já ela estava atrás de si, sussurrando-lhe ao ouvido. – A verdade é que não, não sou uma deusa. Sou uma ninfa. A ninfa desta ilha.
- Então diz-me, onde estou? Existe mais alguém aqui? Como posso voltar para casa? – voltou-se para a olhar nos olhos.
- Tantas perguntas sem necessidade de resposta. – o sorriso de Ayalla esmoreceu um pouco. – O que precisas de saber é que encontraste o paraíso. Podes ficar aqui comigo, para sempre. Serás feliz, prometo-te.
- Responde-me. – a sua expressão endureceu, assim como a de Ayalla, que via inglórios os seus esforços de seduzir aquele homem.
- Esta ilha não tem nome. O Pai criou-a, assim como criou tudo o que existe. Criou-a para manter aberta uma ponte entre esta dimensão e a Dele. Pensa nesta ilha como uma espécie de limbo, onde o humano e o divino coexistem. Dantes, habitaram aqui, aqui mesmo nestas casas, mais algumas ninfas, como eu. – o seu semblante tornou-se, subitamente, assustador. – E alguns homens como tu. Marinheiros. Náufragos. Sempre tentámos protegê-los aquando de um naufrágio, trazê-los para terra sãos e salvos. Temos o poder de controlar os elementos. Contudo, quando se entra no perímetro desta ilha, já não se pode voltar a sair. Os marinheiros culparam-nos pelo sucedido, e muitas de nós morreram às suas mãos. Podemos ser ninfas e viver eternamente, mas não temos o poder de ressuscitar mortos ou curar ferimentos.
- Então, os navios naufragados na foz do rio…
- São dos homens que tentámos proteger. Dos homens que nos traíram.
- O meu pai vinha num desses navios.
- A minha última companheira morreu às mãos dos últimos homens que aqui estiveram. Tenho vivido escondida desde então. Não sei quem era o teu pai, mas não está mais ninguém vivo nesta ilha para além de mim. Todos os morreram, ou mataram-se.
- Diz-me, por favor, como posso sair daqui. Deves saber qual a saída.
- Não ouviste o que estive a dizer-te? Não há saída. Foi por isso mesmo que muitos de vós enlouqueceram.
- Mas eu não posso ficar aqui. Tenho que voltar para minha casa, para a minha mulher. – sem aviso, Ayalla beijou-o. Andhrey foi apanhado tão de surpresa que nem soube o que fazer.
- Vejo que a amas. – disse a ninfa, quando o largou. – Ela é muito bonita. Mas deixa-a. Está perdida. Não a podes ter, nunca mais. Aceita isso, e fica comigo. Se o fizeres, não mais terás de sofrer. Por favor. Sou tão solitária. Não me deixes sozinha novamente…
- Deixa-me! – Andhrey empurrou-a com tanta força, que Ayalla caiu no meio das flores. – Vou sair daqui, com a tua ajuda ou sem ela.





























III

Correu de novo para a floresta, o mais rápido que pôde. Ainda ouviu a ninfa chorar e gritar de frustração, mas não podia voltar para trás. Tinha de sair dali. Inesperadamente, lembrou-se da jangada que encontrara. Ia tentar consertá-la. Não encontrava outra alternativa. Correu até não conseguir mais, desejoso de chegar. No fim de um longo tempo, que não conseguiu calcular ao certo, chegou de novo à praia, junto da jangada desfeita. Os troncos estavam em bom estado; só precisaria de corda, ou lianas novas, para os unir.
Entrou de novo na floresta, mas apenas o razoável para encontrar lianas grossas e fortes o suficiente. Voltou para junto da velha jangada e substituiu todas as lianas velhas e quebradiças pelas novas que apanhara. Apertou-as fortemente. No fim de satisfeito com o resultado, procurou um pedaço de madeira suficientemente robusto e comprido para transformar em remo. Improvisou algo com uma tábua de um dos barcos naufragados que encontrou na areia. Anoiteceria dentro de algumas horas mas, embora fosse imprudente lançar-se à água, achou ainda mais imprudente ficar em terra. Meteu a jangada na água e lançou-se à sua sorte.
Remou na direcção do horizonte, afastando-se o mais que podia da costa. No fim de um tempo, deixou de a ver. Anoiteceu. Andhrey tentou não dormir. Continuou a remar sempre que o cansaço lhe permitia, desesperado por uma saída. Nunca mudou de direcção, pelo menos conscientemente. Como não sabia para onde se dirigir, decidiu continuar em linha recta, na direcção do horizonte. Assim, pensou, não correria o risco de andar em círculos e aproximar-se de terra. Durante muitas e muitas horas, ou pelo menos isso lhe pareceram, permaneceu acordado; no entanto, o cansaço falou mais alto. Começou a cabecear de tanto sono. Deitou-se um pouco na jangada, sem intenção de adormecer, mas acabou por não conseguir evitá-lo.
Quando acordou, já o sol o saudava. Sentia-se exausto, com fome, com sede. Agora, de cabeça fria, apercebeu-se da sua imprudência. Como conseguiria sobreviver sem água ou comida, no meio do oceano? Fora demasiado precipitado. Porém, todas essas preocupações passaram rapidamente para segundo plano. Mesmo à sua frente, estava a foz do rio, o exacto local de onde partira. Ayalla tinha razão – era possível entrar naquela ilha, mas já não havia hipótese de sair. Os últimos pedaços de esperança que o seu coração conservava estilhaçaram-se. Nunca mais veria a mulher e o filho. Falhara na promessa que lhe fizera, apenas para cumprir uma promessa feita enquanto miúdo, a um homem que sabia estar morto. Nunca se perdoaria.
Remou para terra, de coração pesado. Largou a jangada à beira da água e estendeu-se na areia. Fechou os olhos. Queria adormecer, adormecer e não mais acordar. De repente, ouviu uma canção arrastar-se pelo ar à sua volta. Ayalla. O seu cantar aproximava-se por detrás de si, vindo da floresta. Não fez tenção de se mexer. Já não queria saber. Subitamente, o cantar parou. Andhrey só ouvia, agora, uma palavra na sua cabeça. Vem. Repetia-se, pausada e incessantemente, mas não era Ayalla que falava. Andhrey conhecia muito bem aquela voz. O seu coração apertou-se.
Vem.
Andhrey voltou-se, e lá estava ela. A sua mulher. Mas como? Como conseguira ela chegar ali? Olhou-a nos olhos, uns olhos verdes que nunca lhe vira. Sentiu-se zonzo; tentou levantar-se mas caiu na areia. Na sua mente rodopiava uma névoa branca. Não conseguia pensar em nada. Johanna não se mexeu do seu nicho junto à entrada da floresta mas, repentinamente, a imagem esfumou-se e, afinal, era Ayalla quem estava ali. Piscou os olhos, confuso e atordoado, com a vista turva, e rastejou na direcção dela. Continuava a ouvir o mesmo chamamento. Vem.
- Johanna… – rastejou até Ayalla e sucumbiu ao seu suave abraço. Fechou os olhos. Ouviu-a rir. Adormeceu.
De repente, serenou. Apercebeu-se, era ali que pertencia. Como se pudera ter esquecido? Nascera ali. Na pequena aldeia perdida no meio da clareira verdejante e coberta de flores. Ayalla era a mulher com quem fora destinado a casar. Se voltasse à aldeia, decerto veria de novo a sua mãe, com um sorriso rasgado no rosto rosado, no umbral da porta à sua espera, e o pai chegando a casa juntamente com os outros homens, com os peixes ou coelhos que apanhara para jantar. Encontraria a irmã que nunca teve a brincar por entre as flores, e os amigos que desconhece a brincar na orla da floresta. Tantas memórias que nunca vivera. Eram verdade? Esquecera-se. Mas como se esquecera ele delas, como? Só um nome ressoava na sua cabeça, um nome tão nostálgico, mas que já não reconhecia, embora lhe fosse terrivelmente familiar.
Johanna…

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