terça-feira, 21 de setembro de 2010

André C: O nascimento de um não-lugar

Sinopse

Este conto tem como protagonista um lugar, a rua onde vivi. Pretende ser apenas uma história do seu progressivo esvaziamento social. Um lugar outrora vibrante e dinâmico foi-se tornando, progressivamente, apático, amorfo e silencioso.
Assumindo que um lugar depende da inscrição no espaço-tempo de uma identidade e que esta é um produto das relações que nele se cristalizam, este conto baseia-se na recordação por parte do lugar de um conjunto de memórias fragmentadas do seu passado.
No momento em que se aproxima do seu fim, recorda alguns episódios não atraiçoados pela memória. Esta é, assim, a história contada de uma rua, de um lugar, enquanto entidade orgânica e evolutiva, que se confronta com a inevitabilidade da sua própria finitude. Ao fazê-lo, recorda um passado mítico que pode, afinal, nunca ter existido.


O nascimento de um não-lugar

Estou doente. Sinto-me mal.
Sinto que estou a chegar ao fim dos meus dias e não consigo vislumbrar um caminho alternativo que me permita sobreviver.
Estou doente. Sinto-me mal.
Tenho memórias de um passado a cada dia mais longínquo e ténue, cuja perda me dilacera e consome.
Não quero, porém, partir sem inscrever na escultura do tempo, aquilo que me deu vida.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
Olhando para o rio, ao fundo, já mal lhe sinto o cheiro. À arena de épicas batalhas que não raras vezes terminaram com heróicas derrotas já não a vejo. Já não existe. O vazio que foi sendo um pouco de tudo, dando novo fôlego à intensificação da constrição que sinto, desapareceu. Hoje, existe um monstro que encanta e empobrece. O meu coração está frágil e minhas artérias rígidas, pouco sangue nelas circula. Lenta e vagarosamente.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
A novidade dera lugar à monotonia e a um andamento apático que não se deixava surpreender. Era como se o caminhar não deixasse rasto e pairasse ligeiramente sobre o solo. A erosão imprimia já o seu cunho nas paisagens, no asfalto, no betão, nos revestimentos mais ou menos viscosos e escorrentes. Os esqueletos de ferro assomavam lá do alto, olhando decadentemente para baixo. A ausência de ruído, porque também de silêncios é feita a música, fora substituída pela perpétua trilha sonora da urbanidade mais frívola e banal.
Sinto-me mal. Sinto que cheguei ao fim.
Os túneis e labirintos que me atravessavam, os faróis que desorientando destruíram, tudo isso são memórias dum passado que se oblitera sob o peso do presente. Ainda assim a sua resiliência faz com que retornem à superfície de tempos a tempos, esbracejando e lutando contra o que agora já parece inevitável, para evitar a submersão. Lutando, lutando. Sabendo, porém, que o movimento frenético e incessante só torna mais rápida a chegada do fim.
Sinto que cheguei ao fim. Esta é a minha última luta.


O dia

Acorriam bem cedo para brincar. Ainda o céu estava opaco e o sol não se vislumbrava no fio de horizonte visível. O silêncio matutino era apenas quebrado pelos pássaros de aço que percorriam o asfalto e saciavam a sua sede no oásis. Ocasionalmente, também uma ou outra pessoa se atravessava no caminho. Umas, em passo lento e curvado, outras, acelerada e asmaticamente. Rumo a destino incerto.
Sem hora marcada iam chegando. Uns primeiro, outros depois. Todos. Para brincar. Sem saber bem o que o futuro lhes reservava construíam o presente a cada momento, puxando o futuro para perto de si. Vigorosamente. Por vezes, sem sentido, outras vezes em sentido. Uma horda infantil que sorvia toda a liberdade e movimento do lufa-lufa quotidiano.
O desporto-rei de massa, plástico, plasticina e cera era o centro das atenções. O pelado, liso, encerado, e bamboleante estava sempre em parte incerta. Por vezes destroçado, vandalizado, coberto por um manto de invisibilidade, pois os inimigos lá do topo não davam tréguas, motivava a ira dos mentores e dos adeptos mais incendiáveis. Muitos maquiavélicos planos de vingança era engendrados ali naquele mesmo instante. Raramente tinham pernas para caminhar mas eram meticulosamente planeados no longo minuto que durava a ira.
Se, por sorte, embora fosse a maioria das vezes mas a sorte aqui não é uma questão de números e probabilidades mas sim de ânimos destroçados. Se por sorte, como dizia eu, o relvado estivesse homologado e cumprindo todos os regulamentos e todas as regras e costumes que eram hábito cumprir-se, tradições de há muitos anos que não deviam ser ignoradas mas cuja memória hoje já se perdeu, então era tempo de o fazer descer à terra. Uma viagem que nem sempre corre bem. Como é sabido.
Antigamente, quando a realidade era ainda e só a real, era preciso fazer sair os atletas que iriam dentro em breve encantar ou desapontar as bancadas, pois o futuro só está escrito amanhã, do anonimato. Era preciso dar-lhes um nome, uma face, um passado e uma trajectória. Mas era tudo mentira, obviamente, verdadeira identidade já eles tinham definida quase sempre no momento do achamento, da compra ou do roubo. As falsas identidades eram roubadas em língua francesa, num acto sublime de sofisticada erudição.
Textura, peso, ângulo, diâmetro, estilo, identidade, historial, tudo servia para definir a correcta avaliação da condição física do atleta e da selecção do onze que iria iniciar o desafio. Os do bigode, circunspectos e concentrados, davam os últimos retoques, nunca imunes à pressão dos meios de comunicação social, dos adeptos, de algum vizinho ou transeunte mais atento e curioso.
O ambiente era hostil, fervoroso, a luminosidade escassa e as lufadas de vento faziam, por vezes, oscilar os alicerces sempre trémulos e periclitantes das bancadas. Os desafios quase nunca amigáveis. Tácticas e estratégias variavam, embora a defesa fosse sempre compacta, e a incerteza no resultado, uma constante. Os jogos sucediam-se, uns atrás dos outros, longas horas, todos os dias, numa regularidade que fazia parecer estática a mudança incessante trazida pela passagem do tempo. O espaço, esse, era imutável.
Olhando para trás, a singularidade da actividade era tal que as viagens à capital para averiguar a possibilidade de novas contratações e possíveis malabarismos ilusionistas eram já reconhecidamente localizáveis. Era daqui e não de acolá que partiam os mestres da arte dos micro-futebóis cristalizando e antecipando uma mudança que já se avizinhava.
Os negócios não eram raros, mas raros eram aqueles cuja magnitude excedia os limites da razoabilidade e por isso mesmo se inscreviam indelevelmente na dupla que os realizava sem saber que a perenidade da sua acção era indiscutível.
Para a mudança de escala ia uma distância tão rapidamente percorrível que mal se dava pela escorrência do tempo. Mergulhavam nos espaços entrecruzando-se, baralhando-se, uma amálgama de movimento, som e teatralidade. Por momentos, todos os truques se condensavam num só palco, numa arena suburbana cuja origem remontava a um truculento projecto colectivo de colaboração prefigurativa.
Vários membros se moveram numa mesma direcção, empurrando, puxando, erguendo, sopesando, batendo e calcando, os materiais e ferramentas, moldando e morfologizando o lugar-acção. A demanda foi longa e demorada mas a confiança assente no vislumbramento do horizonte, da trajectória a percorrer tornava menos penosa a sua concretização.
Medições, objecções, debates e desvios foram marcando o caminho, sinuoso mas rectilíneo. Industriosa herança e tradição plasmando-se também aqui bem dentro das fronteiras que aninhavam no seu ventre as pueris criaturas. Metamorfoseando-se, o espaço, fez-se lugar, imbuiu-se de sentido e significado. Tornara-se mais próximo deles, sua propriedade comunitária, partilhada com aqueles que dela se mostravam dignos.
Num instante estava concluída. Satisfação nos rostos dos obreiros. Imensa. Genuína. Uma espécie de grito de revolta perante os antagonistas que perfidamente iam comprimindo as liberdades e amputando as efémeras e pulsáteis manifestações de regozijo. O cansaço de alguns, não todos, pois apenas o empenhamento de alguns cumpriu um exercício que era inicialmente uma manifestação do poder social da acção colectiva, tornou ainda mais notável a transfiguração da arquitectura rígida que então existia. A plasticidade dos espaços mostrara, mais uma vez, a sua mais beleza e singularidade.
Era preciso agora pô-lo a mexer. Sem interrupções nem equívocos. Sem artifícios nem ambiguidades. A mexer. Só. A mexer. Para que o efeito desejado tomasse forma era necessário um empenhamento que não deixasse dúvidas quanto à vontade de alcançar o efeito desejado, o movimento. E assim foi.
Deixando à aleatoriedade probabilística dos deuses a selecção natural dos pares, justiça fora feita sem tibiezas nem ambiguidades, injustamente.
Chegada a hora, feitos os últimos preparativos e cumpridas as cerimónias, abriram-se as hostilidades, entre amigos. No plural. No masculino. Se algum espectro havia que pairasse no ar, era o da testosterona que reprimia todos os seres que não atingissem o paroxismo da obtusidade mais grotesca.
Uma após as outras foram-se sucedendo as batalhas, numa guerra imensa cujos limites eram coincidentes com a superfície do lugar que vai perdendo o fôlego com o aproximar do crepúsculo. Momentaneamente.
Antes porém, as acções confundiam-se, sincretizavam-se, fora, dentro, dentro e fora, a mensagem circulava incessantemente num meio gelatinoso que se sublima a cada instante para logo solidificar no momento que se segue.
Jogos mentais depreciativos, verborreias maldicentes, estigas malaicas e dicas pesadas, todas estas manifestações de escárnio suburbanita confluíam, ali encontravam alento, incubavam e medravam, expandindo suas fronteiras. Fugaz e pegajosamente. Fazendo parte do jogo. A maior parte do jogo. Ela, ali, não chorava, desejava uma morte rápida. Mas tudo prosseguia. Como sempre prosseguia e prosseguiu, ontem.
Intensidade ondulante ia rapidamente do zénite ao nadir, por ali permanecendo longas horas, minutos, muitos mais. Escapar à condição era difícil, tarefa inverosímil que, ainda assim, por vezes, acontecia. Apenas por vezes. Por vezes.
No encerramento, desapontamento e esfuziante satisfação sarcástica coexistiam lado a lado numa arena incapaz de maltratar os vencidos ainda que estes não se inibissem de a atropelar violentamente, repetidamente. Sempre. Todos os dias.
Chegava sempre a luminosidade das trevas, que calculava as trajectórias de fuga não planeadas, quase sempre contragostadas, macambúzias, para que fossem partilhadas as efemeridades dum passado próximo que ainda parecia presente. Não a todos. Mas quase.
Tocavam as sirenes, sonoridades que omniscientemente ondulavam pelos céus, vindas do topo, causando reacções alérgicas de várias intensidades, perigosidades e saudades. A antecipação do momento causava a dor que se ignorava mesmo até ao limite do possível, sendo sempre sonhada a inexistência do chamamento. Mas ele vinha. Sempre. Todos os dias.

A noite

Amanheciam as noites. As esferas brilhantes soavam como uivos que lembravam aos militantes a eminência dos eventos. A impunidade da cegueira criava pequenos rabinos que pregavam comédias e filmes de acção com casualidades múltiplas.
Sanguinolentas perseguições, fugas subliminares, contrabandos esquecidos, todos acorriam sob o luar das estrelas que iluminavam os canais por onde se entretecia a acção. Que deslizava tropegamente sobre o tempo.
O tear dos momentos era incerto e progressivamente mais afastado da segurança de mapas mentais já cartografados a escalas que recobriam um real em constante devir sem certezas de que as coordenadas eram suficientemente falsas para nelas podermos confiar.
Às dezenas buscavam-se uns aos outros, vítimas eram sempre o mesmo, era como se o destino estivesse pré-determinado. Estava. Só para ele. Justo ou não era mesmo assim. Indelével e perene. Sozinho, a busca parecia interminável, ainda que as estratégias fossem treinadas, sofisticadas e elaboradamente reflectidas para logo se esboroarem sob as baixas pressões vindas de oriente, de olhos rasgados.
Espionagem de alto gabarito era ensaiada sob o manto opaco da ausência negra de luminosidade. Estratégias tão longamente preparadas que inevitavelmente deixavam para um amanhã longínquo o que ontem nunca se fez. Não fará.
Galerias subterrâneas eram também percorridas veloz e arriscadamente sem bússola nem canários mas com sofisticados mecanismos de transmissão, longos, imensamente longos e faiscantes. Arriscando a tragédia a cada curva, recta, paragem, arranque, subida ou descida, os duplos tornavam-se triplos e quádruplos. Mais vidas que as dum gatil.
Subitamente, fez-se luz. Não havia saída à vista e o tempo passava rapidamente. A sabedoria alquimista de traficantes exauridos pelo cansaço da falácia bombasticamente elaborada mostrara-se, mais uma vez, sempre, descuidadamente ineficaz.
Surrealmente perdidos nesse universo (re)criado as narrativas sobrepunham-se, os espaços entrecruzavam-se e as personagens tornavam-se ficções da vida real. Pulavam telhados ensacando tesouros oculares que voavam para a burguesia endinheirada indignada por tal acontecimento.
Artistas, pianistas, teclistas corredores, furtivos e obviamente culpados. Juntos, tropeliavam sucessivamente os inimigos privados deste espaço partilhado. Xerifes, pais de família, malucos da guerra, batateiros, todos eram alvos privilegiados duma fúria cega que infantilmente gerada não se apercebia dos erros tácticos nas artimanhas infundadas.
Sobrevoavam intrépidos os calhaus, seixos, xistos, ardósias, granitos e grauvaques. O alvo era odiosamente amado, tantas vezes massacrado mas resilientemente persistia numa existência com fim à vista. Mas não ainda. Depois.
Duplos silicatos solidamente escorridos protegendo calçados enriquecidos pereciam ante os projécteis disparados com a precisão cirúrgica de um guarda-redes teimosamente habituado a sentar-se muito longe do local de trabalho.
Extinguindo-se um único foco de contágio enegreciam as sombras já imóveis. A cegueira dum vulto em corrida desgastava o atleta em exercício. Impreciso, explodiam plásticos rígidos e banais, esburacadamente pincelados como ornamentos aspergidos em latão adquirido no beco original.
Obstáculos e barreiras impediam a inacção de todos aqueles que compassadamente acorriam. Campo de treinos de paralisias musculares e fisioterapias regulares, radicais livres sobre patins, e outras plataformas importadas, não olhavam para trás. Fugiam dele. Para diante.
Esgotados lançavam fogo pelos ares, escuteiros sem meias nem calções, fartas cabeleiras, gémeas articulações que sondavam novas possibilidades de aventureirismo noctígavo, sonambulismo acordado.
Implosões cronometradas de multinacionais arremessadas contra sistemas financeiros locais eram iniciações ao verter de venenos corrosivos que impunham respeito pela incerteza que deixavam libertar. Agora. Talvez, para depois.
Promiscuidades automóveis iam fazendo suas revisões, com mecânicos encartados e experientes velocistas desarmados. Tecnologias pós-modernas no passado alumiavam sofreguidões exaltadas de duração limitada, resvalando para a noitada ilegalmente jogada.
Perscrutando as urbanas escaladas surgiam velhos sapientes, aconselhamentos pausados, aborrecidos e demorados que impacientavam as multidões respeitadoras das imposições assertivamente redigidas no ocaso.

Entranhando-se o cansaço disfarçado. Esmagando-se a sonolência furtiva. Pesada. Virtuosamente combatida num jeito desleixado e infantil.

O tempo chegara ao fim. A inevitabilidade da partida era óbvia. Nada mais havia para fazer.

Sinto que cheguei ao fim.
Sinto-me mal. Lutei. Morri.

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