terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vanessa P: Escórias de ambição (raio de título)

Escórias de Ambição


I

Os passos tornavam-se pesados como chumbo à medida que se deslocava por entre ruas e ruelas, dobrando esquinas, cruzando avenidas. Era inacreditavelmente absurdo que não houvesse um único táxi disponível numa cidade que se caracterizava por um aglomerado tão significativo de turistas. O sol apertava cada vez mais, evocando em William as condições do clima ameno que deixara para trás.
Ao deter-se para recuperar o fôlego, constatou que os ponteiros do seu relógio de bolso se preparavam para incidir sob as 14 horas do dia. Havia exactamente três quartos de hora que deambulava por entre multidões avessas à sua desorientação, a qual progressivamente acabaria por desencadear cogitações derrotistas.
Caminhando irrevogavelmente abstraído do que ocorria em seu redor, tudo o que via à sua frente resumia-se a uma esborratada mancha amarelada, assemelhando-se a uma digna obra de arte que um pintor acaba de elaborar e ninguém percebe porquê. As pessoas não eram pessoas, os prédios não eram prédios, o dia já não era dia.
Gotas de suor escorriam-lhe pelas faces, os músculos fraquejavam, dilacerando as últimas réstias de força. O corpo inteiro exasperava por um pouco de repouso. A garganta estava seca, não bebera nada desde que saíra do aeroporto. No entanto, a ânsia de encontrar o hotel revelou-se superior à sede que o martirizava. Por outro lado, parar e procurar a garrafa de água que se achava perdida dentro da mochila, algures entre roupas, comida e instrumentos de trabalho, implicava perder simultaneamente mais tempo.
William Thompson completara recentemente 32 anos de idade, e aproveitando então a deixa, consciencializou-se que chegara o momento ideal para dar uma reviravolta na sua vida. Formado em Arqueologia com nota máxima, leccionava numa prestigiada universidade inglesa, e embora o seu cargo invejável, eram circunstâncias por si só não lhe satisfaziam. Ambicionava mais e melhor. Almejava um dia mais tarde ver o seu nome reconhecido globalmente, não pelo bom docente que era, mas por realmente ter participado em algo concreto e relevante da sua área académica. Pretendia, com efeito, ressalvar o seu estatuto profissional.
Partira para o Cairo a convite de Peter O’Neill, um historiador de renome, cuja simples referência a si era quanto bastava para instintivamente o associar ao legado da historiografia. Tal como o arqueólogo, Peter constituía parte do corpo de docentes que integrava a universidade, e fora assim que a proposta surgiu. Segundo O’Neill, “a História e a Arqueologia são a base de toda uma estrutura que se encontra intimamente ligada, andando constantemente de mãos dadas sob as índoles de todo um passado ainda por descobrir”. Em suma, ambas as ciências complementavam-se. Desta feita, colaborar numa expedição de tamanha envergadura com um dos melhores historiadores do século XX, nada mais era do que a catapulta perfeita para se autoprojectar mundialmente, alcançando a ribalta.
Combinara com O’Neill encontrarem-se na porta das chegadas. O sujeito teve que ir mais cedo para tratar ao que parece, de burocracias. Ironicamente, desígnio do destino ou obra do acaso, o último traço de bateria sucumbiu mal o avião aterrou. Não tivera tempo para avisar a que horas chegavam. Perdido em pensamentos, amaldiçoava-se por não ter carregado o telemóvel antes de partir. Lamentações agora não me servem de nada, pensou.
Ao fundo, as silhuetas da multidão pareciam dançar às ondas do calor, que tudo desfocavam quando observado a grandes distâncias. A poluição sonora tornara-se tão constante que paradoxalmente, no cômputo final, já não se fazia sentir. Ainda que todo o meio envolvente sugerisse um dia negativo, William haveria de encontrar o hotel. Considerando as evidências, era a meta estabelecida.


II

No interior do veículo, a temperatura apresentava-se mais agradável. Lá fora, imperava a rotina típica de quem vive subjugado aos horários impostos pelas respectivas profissões. Peter regozijava-se. Ser historiador era sinónimo de livre arbítrio para fazer o que se quisesse.
Uma vez no aeroporto, esperara um bom par de horas, tendo em conta que desconhecia o momento exacto da chegada do voo 9700 da British Airways. De lés a lés, já percorrera a cidade, mas encontrar alguém numa metrópole tão movimentada era como procurar uma agulha num palheiro. Após uma primeira ronda, decidira ir à embaixada inglesa. Seguiu-se o hospital e postos policiais, respectivamente. Nem sinal de William Thompson.
No taxímetro, os valores assomavam-se. De quando em vez, era habitual fazer-se acompanhar por um bom número de libras egípcias, para eventuais contratempos. Porém hoje não contava em gastar mais do que o necessário para o percurso entre o aeroporto e o Sheraton. Nem no primeiro dia aquele imbecil é capaz de fazer uma boa figura, murmurou entre dentes.
Faltava justamente trinta minutos para a última reunião com uma importante cadeia de televisão, a qual viria a cobrir todas as etapas do propósito que o trouxera ali. Durante os seus estudos documentais, deparou-se com algumas pontas soltas no que se referia a conteúdos datados do século XII a.C. Uns revelavam-se inconsistentes, outros porventura, incoerentes. Havia ali alguma coisa, e quanto mais se debruçava sobre o assunto mais a suspeita ganhava consistência. A fim de evitar pisar terreno infundado, Peter resolveu solicitar outras opiniões. Consultou outros historiadores, falou com arqueólogos e inclusivamente antropólogos. Excluindo um ou dois discursos, a concordância era unânime.
Mal se soube o que iria ser feito, não faltaram patrocínios ou entidades dispostas a colaborar. A notícia alastrara aos quatro cantos do mundo como a Peste Negra assolara a Europa Medieval. Desde institutos superiores, a museus e órgãos de comunicação social, todos queriam estar envolvidos no projecto. Nunca outra expedição tivera tamanha projecção. Qualquer que fosse a grande descoberta, a mesma revolucionaria para sempre o fio condutor da História, podendo mesmo quebrar com os cânones das concepções tidas como verdades irrefutáveis da História Mundial.
Portanto, foi na sequência deste rol de circunstâncias que chegara à fala com William. Ainda que verde na área do trabalho de campo, o arqueólogo mostrava-se consideravelmente bom no que fazia. Apesar de avesso, decerto que a sua colaboração seria uma mais-valia. Desde logo cortejou o rapaz, ganhando deste modo a sua graça. Indagou sobre o seu parecer acerca do assunto, colocando-lhe posteriormente a proposta em cima da mesa. Deste modo, William Thompson aceitou.
Todavia, não era exclusivamente o contributo para com a História que mais motivava Peter. Efectivamente, o proveito que poderia arrecadar com isto tudo caso a expedição fosse bem sucedida, era algo que não lhe passava ao lado. Mais reputação, mais dinheiro, mais respeito. Não tinha nada de mal, é somente uma forma fácil e eficaz de juntar o útil ao agradável. Em suma, era com esta reflexão que Peter O’Neill baseava os seus intuitos.



III

(CONTINUA)

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