terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ana Paula S: Estação das Laranjeiras (demasiado seco, talvez?)

Estação das Laranjeiras
Entrou no metro, rapidamente, e circundou a carruagem com o olhar. Num segundo, percebeu que não havia lugar para se sentar. Tinha os olhos treinados a estes relances. O pescoço magro e a cabeça esguia acompanhavam facilmente o ritmo do olhar. Arrumou-se junto à porta e a mão direita pousou firme no varão. Os olhos mantinham-se atentos. Olhos escuros, sob um arco de sobrancelhas disciplinadas. O corpo direito, franzino, tinha a tensão sossegada da espera. Primeira paragem. Ninguém se levantou. Começou a impacientar-se. É que hoje queria muito sentar-se, precisava de pensar. No fim da viagem tinha de ter uma decisão tomada. A reunião estava marcada para o meio-dia e meio-dia era já daqui a pouco. Pelo canto do olho, pressentiu que alguém se levantara. Tentou a sorte. Moveu-se para o fundo do corredor, decidida, quase ansiosa. Um homem que lhe pareceu desmesurado tinha, de facto, libertado um assento. Instalou-se na repulsa do calor húmido que o banco libertava mas também na urgência da decisão. Sim? Não? Aceitava? Recusava?
Andava assim há uma semana. Um desassossego, uma agitação. Durante as férias, na anual semana de praia com os pais, conhecera finalmente o genro do Dr. Mendonça. Os pais e os Mendonça conheciam-se desde sempre. Frequentavam a mesma praia há anos e anos de conta perdida. Raramente se encontravam ou comunicavam fora desse espaço de veraneio mas, ano após ano, lá estavam, vizinhos de toldo e de conversa preguiçosa. A filha mais velha dos Mendonça, depois do intervalo de juventude, voltara a acompanhar os pais. Vinha com os filhos, praticamente mais um em cada ano, mas sempre sem marido. O genro do Dr. Mendonça era uma pessoa importante. Viajava muito. Esta ausência insistente já dera origem a muito comentário. Ela e os pais divertiam-se a antecipar onde estaria, nesse verão, esse mítico genro do Dr. Mendonça. Pois bem, nestas férias, o senhor apareceu. Era, sem dúvida, um homem importante. Tinha esse ar solto, confiante, de quem decide vidas e lucros. Um dia, à beira da hora de almoço, apercebeu-se de que tinham ficado sozinhos nos respectivos toldos. O jornal dele e o livro dela desculpavam a ausência de comunicação mas, às tantas, ela achou o silêncio embaraçoso e arriscou uma pergunta.
- Então, Dr. Lourenço, finalmente uns dias de descanso, não é? Fica até ao fim do mês?
Ele saiu do jornal, complacente, sorriu e dispôs-se à conversa. Esta tomou imediatamente um rumo seguro; falaram de trabalho.
- Bem gostaria, mas sabe como é, tenho uma reunião na segunda-feira. Amanhã já regresso à capital.
- Que pena! Mal pôde desfrutar deste sol maravilhoso. Bem, na verdade, eu também vou regressar. Este ano, excepcionalmente, vou ter férias repartidas. Mudanças lá no emprego.
- E que faz a Laurinda?
- Trabalho na Biblioteca Nacional, sou responsável pela sala dos periódicos. Já lá estou há vinte e dois anos. Era a minha segunda casa.
Ele interessou-se, começou a fazer perguntas, a puxar por pormenores e ela foi respondendo e falando, e falando. Acabou por escorregar em confidências. Lançou sobre aquele quase-desconhecido todo o desalento do seu mundo. Que vergonha! Como fora capaz! Começara por lhe contar como tinha ido parar à Biblioteca há vinte e dois anos atrás. Tivera sorte. Logo depois de ter concluído o curso, e já conformada com uma carreira de docente, a estrear num escuso liceu de subúrbio, eis que, no metro, encontrou o professor de História Medieval. Ficou contente. Gostava daquele professor. Durante a breve conversa, ele disse-lhe que ia abrir um concurso na Biblioteca Nacional e que devia tentar. Ficou entusiasmada e, depois, profundamente agradecida, pois tinha conseguido o lugar. Gostou logo de tudo. Das funções, das colegas, dos almoços descansados na cantina. Fez lá as grandes amigas. Umas, as mais velhas, eram de conselhos e orientações, outras, jovens como ela, de devaneios e risadas frescas. Com o tempo, as primeiras reformaram-se, as segundas criaram famílias, todas se cansaram. Foram desaparecendo, mesmo que ainda, todas as manhãs, zelosamente, picassem o ponto. E, com os devagares do tempo, chegou a rotina, a chatice, a idiotia, a desilusão.
- E veja só, Dr. Lourenço, agora querem abrir a biblioteca durante a noite. E também à tarde, no sábado. Vamos ter de fazer turnos. Nunca foi preciso e toda a gente pesquisou o que tinha a pesquisar. E agora vai ser assim porque mandam que seja. Vai ser terrível! Sem carro, a ter de apanhar o comboio para regressar a casa, já noite feita…
E ali, em palavras despidas, desamparadas, contou a mágoa, a angústia, a dor de mansinho no peito. E, então, num alarido, os outros chegaram. Vinham a correr para alcançarem rapidamente a sombra apaziguadora do toldo, para se libertarem da areia que, àquela hora, escaldava. Chegou a excitação dos meninos, a água tão boa, quentinha mesmo, e chegou a sua salvação. A sua e a do Dr. Lourenço que, de jornal em desleixo, silenciava a sua incomodidade. Coitado! Quereria lá saber dos periódicos, das pesquisas, da hora de abertura e de fecho de uma obscura biblioteca onde, certamente, nunca tinha ido. Não sabia o que lhe acontecera. Não era seu costume. Sempre fora muito reservada. Simpática, comunicativa, mas reservada, acentuadamente reservada nas suas debilidades e problemas. Falaria de uma constipação, de uma dor nas costas, de uma fuga de gás na cozinha, nunca de solidão ou desânimo. Nunca. Contratempos, sim, todos bem explicados, com os alongados pormenores de conversa de café. Sofrimentos, não. Isso não. E ali na praia, assim, sem mais… Que embaraço. Felizmente, no dia seguinte, já não se encontrariam e as viagens do Dr. Lourenço ocupariam os verões seguintes. A meia-dúzia de horas que antecederam a despedida, no final da tarde, foram preenchidas pelo redemoinho das vozes na sua habitual vibração de férias, de praia, de mar. A despedida foi formal, ambos escudados num constrangimento cúmplice.
Na segunda-feira, entrou no seu gabinete indisposta. Tinha calor, tinha vontade de mar e sol, tinha zanga profunda a estar ali, naquele dia sem jeito nenhum para trabalho que valesse a pena. Não havia urgências. Tinha apenas de fazer uma nota de serviço. Havia uns periódicos muito antigos que queria preservar. Os microfilmes só estariam disponíveis daí a um par de meses mas entretanto não autorizaria a consulta em papel. Mimava com desvelo os seus jornais. Era assim. Achava que tinha de os proteger e estava ali para os poupar ao tempo e ao desrespeito. Livrá-los, sobretudo, de uma rapaziada que chegava no fastio de um trabalho para fazer, de prazo de entrega ao professor no dia de ontem, sem sequer suspeitar que ia ter nas mãos um milagre, um tesouro. A semana de trabalho fora, na verdade, uma semana de tédio que só não tinha sido absoluto porque, pelas tardes, havia umas quantas reuniões, tão animadas quanto inconclusivas, sobre horários e outras mudanças avulso. Na sexta-feira, no rescaldo de mais uma reunião, tinha decidido apanhar ar, andar um pouco. Normalmente apanhava o metro de Entrecampos, bem perto, portanto, mas tentara-se por uma descida, a pé, da Avenida da República. Não seria o passeio ideal mas evitaria, pelo menos, a clausura dos transportes. Morava em Paço d’Arcos e, depois do metro, ainda tomava o comboio e, por fim, uma camioneta que a deixava, então, a poucos metros de casa. Antes de sair, porém, tinha regressado ao gabinete. Queria certificar-se de que deixava tudo em ordem. Espreitou os e-mails, quem sabe, alguma novidade de última hora podia alterar os planos para a próxima semana. Mesmo de pé, foi lendo os endereços, os assuntos. Tudo desinteressante. Quase a libertar-se, um último e-mail tinha-a sobressaltado: nlourenco@gmail.com; proposta de trabalho. Sentou-se. De respiração suspensa, deu dois cliques e o texto ocupou o ecrã. Tentou sossegar-se para ler a mensagem. Os olhos corriam as frases aos saltos, na busca de um entendimento rápido, esclarecedor. No fim, respirou fundo, uma, duas, três vezes, e reiniciou a leitura. Era efectivamente do Dr. Lourenço. Oferecia-lhe trabalho como secretária de um administrador da empresa em … Budapeste. Expansão dos negócios, mercado, leste europeu… sabia da sua insatisfação actual… desafio interessante… e foi por ali abaixo somando as restantes palavras, claramente supérfluas perante a ofuscante realidade do convite. Pedia-lhe uma decisão rápida, uma semana, e deixava o contacto do colega para explicações mais detalhadas. A terminar: Os melhores cumprimentos, Nuno Lourenço. A estupefação colara-a à cadeira. Tinha até medo de acreditar mas o Dr. Lourenço não teria nem tempo, nem lembrança para partidas tolas. Tinha de ser verdade.
Depois de reler a mensagem umas sete vezes, aturdida e com receio de um entusiasmo que viesse a despenhar-se brevemente, acabou por levantar-se. Saiu do gabinete, passou por outras funcionárias, nem bom fim-de-semana nem até segunda, e, já no hall, passou maquinalmente o cartão magnético que fechava o dia de trabalho. Transpôs a porta e encarou o final de tarde, ainda muito quente. A Fernanda, que também saía, falou com ela. Apressou-se a retorquir-lhe, pouco convicta, um bom fim-de-semana para ti também e deixou-a ganhar distância. Felizmente a colega tinha carro, não tentaria acompanhá-la até ao metro. Afinal decidira regressar a casa rapidamente, dispensava o passeio ao ar livre. Queria muito sentar-se no seu sofá e, frente ao televisor, desligar-se daquela notícia que lhe parecia tão fantástica quanto perturbadora.
Esteve em suspenso todo o fim-de-semana. Não se permitiu sonhar sem antes falar com o tal administrador embora mal conseguisse fingir para si própria que tudo continuava igual. Só na quinta-feira, após três telefonemas e cinco e-mails trocados com o colega do Dr. Lourenço, se sentiu verdadeiramente esclarecida. Tinha inclusivamente falado com um amigo seu, advogado. Percebeu naquele momento que apenas faltava o que lhe parecia mais fácil: tomar a decisão. Nessa noite, já semi-adormecida, um frémito atravessou-lhe o corpo. E se estivesse a ser precipitada? E se tudo corresse mal? E se, e se …? Sentou-se na cama, ofegante, alarmada com tantos ses que voltejavam em redor da sua cabeça. Acalmou-se um pouco e arrastou-se até à secretária. Decidiu utilizar um método que já anteriormente, em situações de dúvida, se revelara muito eficaz. Um método que arrumava ideias, concretizava hipóteses, objectivava o que parecia difuso. Pegou numa folha branca e traçou uma linha na vertical. No topo esquerdo, escreveu: vantagens. No topo direito: desvantagens. Foi, então, dispondo, metodicamente, em cada uma das colunas, os dados de que dispunha. Melhor ordenado. Maiores despesas com o alojamento. E assim por diante. Preencheu duas páginas, com a sua letra redonda, bem ajustada à linha. Quando terminou, surpreendeu-se com o facto de ambas as colunas estarem ao mesmo nível. De seguida, leu o que tinha escrito: vantagem, desvantagem, vantagem, desvantagem. Alarmou-se. A cada vantagem correspondia directamente uma desvantagem. Estava verdadeiramente atónita. Como poderia ser? Tinha finalmente recebido a proposta de trabalho que a poderia fazer deixar para trás tudo aquilo que tanto a aborrecia e agora descobria que havia iguais vantagens e desvantagens. Como poderia ser? A falta de um resultado lógico, racional, de provas concludentes, deixou-a petrificada. E foi num crescendo de indecisão e angústia e indecisão que chegou à madrugada de sexta-feira.
Findava a semana que lhe tinham dado para pensar e esperavam uma resposta definitiva, clara. Combinara uma reunião com o Dr. Lourenço na sede da empresa, às Laranjeiras, ao meio-dia. O Dr. Lourenço apresentar-lhe-ia o colega, ajustariam detalhes… Que lhes poderia dizer? De manhã, por volta das nove horas, a decisão ainda pairava sob a forma de um desesperante ponto de interrogação. Não tinha dormido mas sentia-se enérgica, despachada. Tomou um duche rápido, meteu-se num vestido leve, colorido, disfarçou as olheiras da insónia com três toques de base e maquilhou-se com esmero. Estava bem. Apenas não tinha conseguido comer. Saiu apressada e enfrentou os transportes: camioneta, comboio, metro. Estava no último e continuava sem saber o que dizer. Subitamente, viu-se desacompanhada. Encaminhou-se para a porta e percebeu que chegara à estação terminal. Tinha deixado passar as Laranjeiras, não saíra, não se apercebera. Alguns passageiros impacientavam-se com a sua lentidão na saída, queriam entrar, tinham pressa e suspiravam. Olhou o relógio: meio-dia em ponto. Respirou fundo e o cansaço começou a chegar, aconchegante. Sorriu. Alargou o sorriso e seguiu os passos dos que desapareciam pelo cais, em busca do exterior. Ia tomar um bom pequeno-almoço. A fome surgia, exigente. Telefonaria depois ao Dr. Lourenço. Para pedir desculpa, para se justificar, para agradecer e, claro, para dizer que não podia aceitar. Afinal, não tinha descido na estação certa. Não tinha de ser!

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