Janeiro
O ano de 2009 tinha estreado há 25 dias e já se revelava um sucesso de bilheteiras. Uma vida amorosa que tendia para o enfadonho, abria-se agora em variadas comédias românticas, tão pouco originais quanto deliciosas de viver nos seus clichés acolhedores. Com David e Manuel tinha os dias repletos de mensagens e convites espontâneos. “Vamos tomar café à beira-rio”, sugeria David, a poucos dias de embarcar para Londres no seu primeiro trabalho. Iria deixar Portugal, que lhe parecia tão rústico, tão sub-desenvolvido, em oposição à cultura anglo-saxónica. Eu achava-o parvo, arrogante até, mas tinha outros charmes e, apesar do discurso snob, nada patriótico, o seu espírito aventureiro era de invejar. Ia viajar pelo mundo fora e Lisboa seria nada mais do que um destino de férias. Quando me fartava das suas peneiras, o que mais tarde ou mais cedo acontecia, tinha Manuel. Tão ironicamente diferente do anterior, satisfeito com a sua pacata vida em Sintra e com o seu ritual casa-faculdade-amigos. Sempre com dinheiro no bolso vindo dos pais que lhe pagavam a gasolina e faziam o almoço no fim de semana. Era mais aproximado de mim, Manuel, embora de tal não me orgulhasse. Eu, encurralada no curso de Direito, ou assim o fazia parecer, em plena fase de exames, não sabendo se ia passar ou chumbar às cadeiras, delirava com as ofertas do novo ano, sem tempo para me preocupar com assuntos molestos como o estudo. A total falta de ambição deste segundo recurso amoroso era confortável para mim. Tinhamos um passado similar e o mesmo presente e, embora não desejasse para mim o que parecia ser o futuro dele, não pensava nisso, aproveitando antes a atracção da novidade.
Nesse vigésimo quinto dia do ano tinhamos agendado um jantar de família. Os avós maternos, únicos que viviam também em Lisboa, vieram e almoçámos todos cinco. A sala ampla, de janelas altas, deixava entrar o solarengo entardecer de Domingo e tudo naquele dia parecia amistoso e sereno. Rimos à mesa, havia conversas sobre conversas, e no fim da refeição dancei com a minha avó. Sem qualquer razão para tal, apenas porque nos apeteceu. Era assim, um dia feliz.
Lembro-me claramente do primeiro momento de quietude. Deu-se quando a minha avó revelou continuar, diremos assim, com problemas intestinais. Os medicamentos tinham feito efeito, mas ela continuava inchada, uma barriga enorme, estilo Natalício. Lembro-me de como lhe espetei um dedo no estômago saliente e ri imenso. Ela era, afinal de contas, a senhora Magreza. Sempre pronta a dizer-nos como andávamos a comer demais. E tinha agora uma cintura de fazer concorrência aos mais bojudos bebedores de cerveja. A minha avó riu comigo, enquanto a minha mãe lhe oscultava a barriga e trocava olhares franzidos com o meu pai. Essa cumplicidade deixou-me de imediato tensa. Como se dizia já, “quanto mais médicos, mais moléstia”. E dois então, não podia ser bom. “Mãe, vai ter que fazer analíses. É muito importante. Continua cheia de ar no estômago”, ouvi a minha mãe dizer, enquanto o meu pai aquiescia com a cara que eu já tinha vindo a reconhecer como a cara da desgraça. Senti de imediato a minha garganta secar e o peito encheu-se de uma sensação de cláusura numa espécie de claustrofobia interna. E foi aí que vi, pela primeira vez, um olhar na minha avó que só mais tarde viria a compreender totalmente. Havia medo nos seus olhos redondos, medo que nunca a vira dirigir a si mesma. Uma ansiedade triste mas calma, tão rara nela, uma mulher de personalidade exaltada e exuberante. Talvez por isso a tenha abraçado e enchido de beijos na despedida. Manifestações de afecto não são comuns em minha casa – não, não é tão frio quanto pode soar – somos muito unidos e, entre-dentes, lá vamos dizendo o quanto gostamos uns dos outros. Mas abraços e festas são como o serviço de prata, só se usa em ocasiões especiais.
Mal os meus avós sairam, chegou a altura das perguntas: porque tinham feito aquelas caras? A avó tinha alguma coisa grave? E, sem atalhos, responderam. Tinha cancro. Assim, a seco, fora lançado o diagnóstico. E embora dissessem “se Deus quiser não tem”, eram só palavras. Os olhos da minha mãe não davam espaço para ilusões - a minha avó tinha cancro.
Fevereiro
David partiu para a aventura, dias depois. Talvez tenha sido bom, porque ao menos a ele não associo todas as más memórias. Associo-o à saída na noite pré-natalícia, onde o conheci; associo-o às esplanadas de Belém onde se conversava sobre terras diferentes e lugares a visitar, e a ele associo aromas de cafeína e tabaco, em dias húmidos e frios. Ele nunca chegou a saber, não havia razão para tal. Na verdade, a maioria dos meus amigos não o soube até muito mais tarde. Eu tinha uma enorme confiança que tudo não passaria de um susto e, para não gerar um qualquer mau olhado, era preciso cuidar dela sem referir a doença. Nunca referir a doença.
As sessões de quimioterapia começaram e o cabelo foi desaparecendo. Continuava com a mesma expressão serena, contemplativa, mas principalmente triste. Tinha medo, pedia consolo com os olhos, mas sem teatros, sem gritos. Era realmente uma pessoa diferente naqueles dias e embora fosse mais fácil confortá-la assim, eu queria de volta a mulher das respostas sardónicas, humor cru e energia imparável. Eu queria-a de volta.
Sempre que a visitava ela estava sentada no mesmo cadeirão, muito agasalhada, com um lenço à volta da cabeça. Com o passar das visitas foi ficando mais fraca, mais rugas iam surgindo no canto dos seus olhos, mais estes iam fechando. Só o lenço e o cadeirão se mantinham assim... intactos, iguais.
No tempo que eu passava fora de casa e fora da sala onde ela permanecia no cadeirão, procurava distracções. A minha mãe sempre disse “és uma obcecada, sempre que gostas de alguma coisa tens que levar para o exagero”, e era exactamente isso que eu procurava naqueles dias. Procurava-o nos filmes, nas músicas, procurava-o em livros, em pessoas. Não em amigos nem família, nada que já fizesse parte. Tudo tinha de ser novo naqueles dias. E Manuel, na sua frescura, era ideal.
Um dia veio a minha casa, depois do jantar, e fomos passear pelos jardins renovados de Telheiras. Cheirava a chuva naquela noite, mas o céu exibia algumas estrelas e no silêncio invernoso criava-se uma atmosfera quente, contrária à real temperatura. Ele tinha a mania de dar as mãos, por isso, todo o caminho a ele fui atrelada e embora não tivesse gostado da ideia, a verdade é que aquele hábito criava uma sensação de segurança. Sentámo-nos nos bancos húmidos, em frente às lojas fechadas, e ele contou-me histórias. Eu ria, sem falsidade, transportada para a adolescência dele, o seu mundo de primeiras cervejas e corridas de mota. Fez-me um relato de todos os ossos que partiu, eu só tinha um para contrapôr com os dele (partira o pulso numa aula de Judo); falou-me dos dias que passara no Alentejo e tentou impressionar-me com o seu conhecimento de Portalegre, lugar onde eu vivera quase 10 anos.
Nessa noite, tornámo-nos amigos, mesmo que amigos fugazes, fomos realmente amigos por uma noite. E eu, sem o perceber ou planear, deixei-a estender-se. Fomos para o carro dele e entre namoricos quase inocentes ele mostrou-me músicas. Tínhamos um gosto parecido, o que na altura nos fazia sorrir ainda mais. Ele deu-me um dos seus CDs e prometeu-me outro, eu não fiquei à espera mas gostei dele o ter dito. “Podias ir ao meu jogo de futebol amanhã, conhecias os meus amigos. E depois jantávamos... Mais tarde que o costume mas podiamos jantar. Só que eu ia ter que passar por casa. Mas... Podias conhecer os meus pais. Quer dizer... Mas podias. Não havia problema, não é?”, dizia, sem interrupções minhas, entre olhares e pequenos sorrisos. “Amanhã vamos ao cinema como combinámos e depois vais ao jogo. Jantamos outro dia, em que não tenhas tanto para fazer. Não te preocupes, temos tempo para tudo”, respondera eu. Ele, se se desentusiasmara no início, voltara a ganhar ânimo com o fim. Mas mais valia ter continuado desentusiasmado. Promessas assim, ditas entre festas, em noites em carros, ficam ali, presas no momento. Na verdade, não teríamos tempo para nada. Eu nunca conheceria os amigos dele, nem a casa nem a família. Era mais ou menos como a promessa do segundo CD. Uma só diferença, ele cumprira a parte dele.
A verdade é que exceptuando noites como aquela, Manuel não tinha o poder de me cativar longamente, de me fazer esquecer. Nada havia que contagiasse a minha cabeça o suficiente para aquele peso desaparecer. E dava por mim a chorar, várias vezes ao dia, em silêncio e sempre escondida. Ninguém podia ver, não por mim, mas por ela. Ver-me chorar era o mesmo que dizer o nome da doença. Simplesmente não se diz, não se puxa o azar.
Numa das visitas ao cadeirão, a minha avó ofereceu-me uma distracção. “Promete-me que te portas bem. Tens que estudar. Tens que passar. Eu só fico descansada se souber que vais fazer isso”, dissera ela, agarrada às minhas mãos. Soara-me tanto a uma despedida que odiara cada palavra. E contudo estudei mais, concentrei-me mais, porque acontecesse o que acontecesse era necessário fazer o que ela pedia, quando ela o dizia com aqueles olhos de adeus. E quem sabe, talvez concretizando os desejos dela eu lhe desse mais ânimo, ou simplesmente, talvez eu merecesse mais tê-la.
Estudei, o que ainda podia estudar em cima da hora, e, não tendo tido grandes e brilhantes notas, passara a tudo. Dei-lhe a notícia. Não sei se acreditou realmente em mim, se achou que eram apenas palavras para atenuar as dores que entretanto aumentaram, mas a notícia era verdadeira e eu dera-a com ânimo, sorrindo na expectativa de ver as melhoras justamente merecidas após o meu esforço. Foi na semana seguinte, na quarta sessão de quimioterapia, que esta deixou de fazer efeito. Ela rapidamente piorou, até o cadeirão já não servir para toda a sua dor. Foi para o hospital, já sem sorriso, já negativista, já sem serenidade.
Nessa altura a minha mãe já se deitava tarde, já se fechava às escuras no escritório, já passava os dias com os olhos vermelhos. Havia mais beatas nos cinzeiros, mais caixas de Lorenin a esvaziar. Um silêncio abatera-se em minha casa e estar dentro dela era afundarmo-nos nele. Assim, quanto menos se falava, mais alto eu punha a minha música e, quanto mais tempo pudesse passar fora de casa, mais passaria. Mas, todos os fins de tarde, voltaria religiosamente para casa para fazer o caminho pelas estradas de Benfica até ao hospital.
Quando sentimos que estamos a perder alguém, a tentação é agarrá-los, como se não quiséssemos que fugissem. Eu olhava a minha avó, cada vez mais careca e magra, de olhos cerrados e boca aberta, enrugada e lacerada pelas horas sem sair da cama, e o meu primeiro instinto era ir ter com ela, apertar-lhe as mãos, os ombros, beijar-lhe a testa. Mas quanto mais o bicho crescia dentro dela, mais sensível ficava, e a sua pele tornou-se como que uma fina camada de pó sobre as feridas abertas. Ao minímo toque ela gemia, e o máximo que eu podia fazer era levemente passar o dedo pelas veias da mão dela, tentanto não chorar.
Um dia ela falou. Era raro fazê-lo sem ser para nos mandar embora, para dizer que não nos queria ver mais, para exclamar que não havia nada a fazer, ela ia morrer, ia morrer rápido. Mas naquele dia falou, chamou-me, e eu agarrei-lhe a mão como sempre fazia, e ela de olhos muito abertos choramingou: “Porquê, Ana? Porquê eu? Era porque não rezava o suficiente, porque não ia à Igreja? Porquê?”. Eu sai disparada para a casa de banho e a minha mãe substituiu-me no lugar na cama. Ela calou-se. Voltou a dormir. E eu deixava as lágrimas correr, contendo os sufocos desesperados com as minhas mãos molhadas, enquanto respondia o que lhe dissera baixinho já em fuga – “não sei”.
Enquanto a sua agressividade doente crescia connosco, crescia também a minha com todos os outros. Quando já todos os meus melhores amigos sabiam da notícia, cada um à sua maneira deu-me as apropriadas e educadas palavras de apoio. Apetecia-me bater em todos. Não estávamos perante um jantar social elitista em que deviam saber que após uma refeição os talheres se punham virados para as 4h20. Era a minha avó. Lembro-me especialmente da mensagem de uma amiga, que permanecerá incógnita, que mais se assemelhava com uma mensagem sobre uma qualquer festa a preparar. “Se precisares de ajuda conta comigo, liga a qualquer hora ;D”. Ainda recebeu um obrigada, meio amargurado, meio sincero. E ainda tive direito a uma resposta “de nada :D”. De que mundo vinha o raio da miúda? Das minhas duas melhores amigas – sim, eu tenho a mania dos escalões de amizade, anos com as mesmas pessoas e algumas decepções pelo meio tornaram-me assim - só podia falar com uma. Aquela com quem eu não podia falar passara pelo mesmo, anos antes. Mesma doença, mesmo membro familiar, mesmo historial. E nas suas palavras sinceras, havia ainda a revolta que há em mim hoje. Por isso era fria nos seus comentários, como se o atestado de morte tivesse já sido passado. E eu odiava-a por isso, mas também queria abraçá-la. De todos os olhos, desde os educados, aos desconfortáveis, aos generosos, os dela eram os únicos que refletiam a minha dor e reconheciam em mim uma história, uma perda. Enquanto a minha avó esteve doente só falámos uma vez sobre o assunto, mas guardo daí o olhar que me lançou na despedida. Aquele abraço de força que não chegou a ser dado, mas ficára suspenso entre nós enquanto nos afastávamos para escadas opostas da linha de metro.
Entretanto Manuel ligava mais do nunca e eu evitava as três primeiras tentativas, atendendo à quarta escondendo o enfado na voz. Fomos ao cinema, já perto de finais de Fevereiro, ver o Slum Dog Millionare. Lembro-me de ter adormecido e acordei com mensagens dele a avisar estar a caminho. Tomei um banho rápido e fui ter com ele ainda com o cabelo húmido, atado num rabo de cavalo desajeitado. Quando ele saiu do carro, senti imediatamente que uma distância se criara, não entre nós, mas entre mim e a minha ideia dele. Fomos ao Alvaláxia, um cinema que tem tanto de romântico quanto tem de pessoas. Ficámos sentados num dos lugares laterais, nas filas de cima, porque apesar de desértico, as filas centrais do fundo estão sempre ocupadas por trituradores de pipocas e os seus pesados casacos. Sei ter adorado o filme e recordo-me de dar leves cotoveladas a Manuel pela sua constante necessidade de comentar tudo, com um tom inadequadamente alto. Lembro-me também de como lhe foram precisos uns bons quarenta minutos de filme para perceber que a história do rapaz seria contada através das perguntas do programa, e de como soltei um suspiro um tanto ou quanto arrogante.
Ele ia-se aproximando durante o filme, tentando dar as mãos, encostando-se a mim, mas o meu único foco era a imagem no ecrã e, após as suas vãs tentativas de interagir cedeu aos meus desejos, quieto e calmo no seu lugar. Já a meio do filme soltei o cabelo e enchi o nosso pequeno recanto com uma dose forte de cheiro a champô. Manuel inspirou e sorriu satisfeito. Não sei porque me ficou essa memória, mas lembro-me de ter-me encostando a ele, deixando-o abraçar-me, enquanto viamos uma épica história de amor, que me inundava com a noção de que a pessoa ao meu lado não era o meu Jamal nem me ia salvar da minha realidade, não nos iamos beijar numa estação de comboios, não iamos acabar numa dança coreagrafada de felicidade.
No fim do filme ele convidou-me para jantar. Eu ia aceitar, mas da minha boca saiu uma desculpa inventada e após um beijo rápido começara já a recuar para a entrada de casa. Ele parou-me, pediu mais. O seu sorriso brincalhão não escondia a confusão nos olhos claros, e eu, num momento de nostalgia precoce, aproximei-me dele entrando no seu abraço e beijei-o a sério, grata por todos os nossos dias, por todos os escapes à realidade, por todas as tentativas vãs. Manuel sorriu, com os olhos claros postos em mim, perscrutando a minha cara, como se soubessemos já que aquela era a última vez que nos viamos.
Março
Ela morreu. Não fisicamente, para isso seriam ainda precisos dez dias. Morrera em nós a ideia fantasiosa de que a situação mudaria, de que a roda inverteria o percurso, de que a voltariamos a ver risonha ou mal encarada, com os seus rijos cabelos castanhos. Em telefonemas e conversas murmuradas já se falava da ida para Portalegre, da transferência para o hospital de lá, da morfina que seria necessária para que ela aguentasse a viagem. O adeus era já dito e eram já choradas as memórias, nas madrugadas mal dormidas em nossa casa. A minha mãe falava da infância, eu sonhava com a minha. Contava-me dos dias em que desabafara com a mãe, eu lembrava-me dos dias em que dançáramos no alpendre da casa no Alentejo, com as cigarras ininterruptas como melodia de fundo, nas noites mais estreladas que os meus olhos já viram. Lembrava-me da sua voz esganiçada quando se irritava comigo e os meus “maus hábitos”. De como fazia corridas e dizia que mesmo com 50 anos a mais, eu não a conseguia acompanhar. Lembro-me da maneira como se afeiçoava aos gatos vadios e como se decepcionara com a “Fofa” quando esta ficara “prenha de 5 gatos”. Ai como os gatos da vizinhança eram tarados e como a gata fora estúpida. Lembro-me de como chamava o meu avô em pânico e procurava as minhas bombas quando eu tinha ataques de asma. Lembro-me de se deitar ao meu lado na cama e dizer com a voz tremeliquenta “eu sinto o teu coraçãozinho bater... ai meu Deus, quando é que aquele morcão chega com os remédios”. Lembro-me de quando me mudei de Portalegre para Lisboa e vivi um ano com os meus avós. Enquanto o meu avô via o telejornal das oito, ela ficava à mesa a fazer-me companhia. Perguntava-me pela escola e criticava a minha timidez. Lembro-me da satisfação dela quando fui convidada para sair com a minha nova turma, de como me ajudou a escolher a roupa e me olhava na ombreira enquanto eu me arranjava. Lembro-me do seu medo terrível que eu, a tontinha de Portalegre, não antevesse os perigos da noite Lisboeta. Lembro-me de como não dormiu até eu voltar e viveu na pele o entusiasmo da minha noite bem passada. Eu lembrava-me de tudo naqueles dias como se não a tivesse mais. Mas, no meio de toda a saudade, a melhor hora do dia era ir ao hospital, vê-la, saber que ainda estava ali. Por enquanto eu podia olhá-la, podia ouvi-la respirar, tocar-lhe nas mãos suaves e sentir-lhe a pulsação. Aquelas mãos que toda a vida cheiraram a creme Dove, creme que roubei da sua casa e guardara comigo, transportando-o sempre, como se a transportasse a ela.
Mas o dia em que a veria pela última vez chegaria a 10 de Março. Quando me anunciaram a sua morte não chorei. Fiquei queda, muda, parada, mas sem lágrimas. No dia do velório vagueei pela casa onde antigamente vivera e preparei a minha melhor roupa. Sabia o valor que ela dava a essas coisas. Anos a viver entre aldeias e as suas rotinas sociais, tinham-lhe criado um desejo de certas futilidades para o seu Fim: queria ser enterrada ao lado dos pais, queria muita gente no seu funeral, queria uma família de fazer inveja. E por isso calcei as minhas botas pretas, vesti o meu melhor casaco, estiquei o cabelo e fui. Sempre em silêncio, corremos a estrada inclinada e ziguezagueante até à Igreja. Não ia chorar. Agora não era só uma falta de lágrimas, mas uma decisão. Já sabia como eram os Alvarronenses. Já os conhecia de outros enterros e não estava disposta a alimentá-los com as minhas lágrimas. Mas tudo o que bastou foi a fotografia da minha avó à porta da Igreja, ainda nova e saudável, ainda com o sorriso que eu há um mês não presenciava, e a traquinisse que ainda há mais não via. O meu pai pediu-me, quase autoritariamente, que não chorasse e eu concordava, dizia que não queria, mas não estava à espera da fotografia dela, não tinha pensado ter que vê-la assim. Passei quase todo o velório de óculos escuros, chorando ininterruptamente, uma quantidade de água que até a mim assustava, agarrada às mãos da minha mãe, apertando-as enquanto ela apertava de volta, numa troca de forças. À minha volta muitos choravam, muitos fixavam o caixão com expressões pesadas, e muitos murmuravam as suas doenças e infortúnios com o colega de cadeira. Naquele dia apaixonei-me por algumas pessoas. Nomeadamente Bernarda, que corava com as lágrimas, permanecendo assim de nariz e bochechas rosadas e marcas de água na pele. Ela, que toda a vida vira de avental sujo e botas de borracha, vozeirão forte e gargalhadas frequentes, encontrava-se ali, vulnerável, de mãos juntas, vestido preto e sapatos que lhe inchavam os pés, sem pronunciar palavra que não fosse a reza contínua que dedicava baixinho ao caixão. Ou mesmo Conceição, que só me lembrava de ter conhecido uma vez, na companhia da minha avó, mas da qual ouvira falar muitas outras. Ela que abraçara a minha mãe e depois a mim com doçura nos olhos e se postara numa cadeira, entre lágrimas e contemplações mudas. Mas também houve quem para sempre fosse odiar. “Marizé”, como lhe chamavam, aquela que em tempos se apresentara como amiga da minha avó, aquela cujo amor pelo dinheiro e reputação nunca escondia, aquela, anunciou ao meu avó, entre lágrimas que hoje duvido serem sinceras, que conhecia da doença há um ano. Uma médica, 12 meses antes, informara a minha avó que era urgente que ela fizesse analíses. A minha avó, assustada e fugidia, como sempre fora, desobedecera. Podia não perdoar a minha avó, por aquela espécie de suicídio, podia atacar Marizé pela sua falta de consciência, podia muita coisa. Mas a única memória que tinha era o medo não falado nos seus olhos naquele Domingo de Janeiro. Da maneira como se tornara afável e ordeira, de como os seus olhos contemplativos tinham sempre medo e, agora eu entendia, tinham culpa, remorso, tinham tudo, aquele par de olhos castanhos.
Depois do velório fui para casa. Passei o dia perto dos meus pais, nunca querendo estar sozinha, embora também não tivesse necessidade de falar. Ficávamos só ali, num silêncio confortável. O meu avô apareceu mais tarde. Nos últimos meses eu criara uma proximidade com ele, que embora existisse já antes, estivera adormecida e agora acordara reforçada. Eu queria abraçá-lo, mas ele nunca se deixava agarrar por muito tempo. Refugiava-se no que tinha para tratar, sempre de olhos vermelhos e lágrimas presas. Eu, que nunca o vira chorar, já não lhe conhecia outros olhos que não aqueles.
No dia seguinte, fomos ao funeral. Apareceu ainda mais gente. Ouvi os comentários feitos ao meu avó, lançando olhares para mim “está tão bonita a sua neta, tem ali uma grande mulher”. E o meu avô anuia orgulhoso mas afogado na depressão em que entrara dois meses antes. Eu, após vê-la desaparecer na terra, após os vários beijos e obrigadas, após o último olhar àquela cara que durante anos conhecera, afastei-me de todos e percorri a estrada vazia que levava da Igreja à nossa antiga casa – a do alpendre e das cigarras.
Fiquei a ver os prados e o seu telhado à distância, atrás de mim um amontoado de vultos e lenços molhados cada vez menos sonoros. O ar estava frio, pingava-me o nariz. Era cedo demais para conseguir ter ideias bonitas como as de que ela me estaria a olhar lá de cima, mas ainda assim olhei o céu e sorri. O funeral fora tudo o que ela queria e eu, apesar de tudo, estava feliz por isso. Então, com o ar alentejano nas narinas, e um frio agradável a secar-me as mãos, tirei a arredondada lata azul do bolso, passei as mãos pelo creme que ela tanto usara, e, com o cheiro dela contra as searas molhadas do prado, disse o meu adeus.
Se algum alívio me trouxe esse dia foi o fim do ritual dos hospitais, dos procedimentos. Mas desde aquele Março que perdi uma peça que era minha e agora funciono como uma máquina de escrever que perdeu letras. Continuo a ter uso, continuo a ter muito que teclar, mas já não posso recorrer à segurança daquelas letras que perdi. Vivo sem elas e basta olhar para ver que faltam.
Se esta história tem sentido? Não. Não tem sentido nem razão, tal como não os tiveram aqueles meses que entraram de rajada pelo meu ano. É triste, secalhar até melodramático, mas é assim que os vejo e só assim os consigo descrever. Se este relato tem um motivo? Sim. O motivo é ela.
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