terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ana P: É preciso crescer? (bom título)

I – A tempestade
Bernardo era um rapazinho igual a tantos outros. Cabelo castanho, com caracóis indomáveis quando estava na altura de visitar Hilário, o barbeiro responsável pelos cortes de cabelo dos homens da família. Os olhos eram atentos, o ar de rufia.
Aos seis anos surgiu um problema na sua vida de pequenos sobressaltos. Começou a sentir-se o centro de uma tempestade: foi finalista no JI (Jardim de Infância) com a consequente despedida dos companheiros daquelas brincadeiras que poucos adultos costumam entender. O tempo fugia-lhes quando se transformavam em super-heróis que lutavam contra vilões, ou sempre que, na pele das tartarugas Ninja, desciam aos imaginados esgotos de Nova Iorque, escapando dos seus inimigos, principalmente do grande destruidor. Atiravam-se uns contra os outros, mas ninguém se magoava, facto que parecia impossível à D. Guilhermina, a funcionária com os cabelos em pé, sempre presente nestes momentos. Era pequenina e gorducha e os seus gritos de pânico, enquanto corria de uma ponta à outra do pátio a tentar salvá-los, quase que a transformavam num elemento do grupo:
– Ai, meninos, que se partem todos! Mas porque é que não vão jogar à bola?
Esse era outro dos modos de passar o tempo, chutando-o para bem longe, naqueles desafios de futebol com equipas indistintas. O que interessava era atirar à baliza e correr a festejar o feito. Fazia um brilharete com os toques que aprendera com o avô Martinho.
Também gostavam de fugir de outros no jogo da apanhada. Esse talvez fosse o preferido do Bernardo: acreditava que estava a fugir dos medos todos.

II – Sobressalto
Um dia, disseram-lhe que era preciso mudar de casa e o resto das férias passou-o a ver empacotar brinquedos e roupas.
A mãe comandava aquelas operações que lhe começaram a parecer mais violentas do que as lutas do Panda Kung Fu.
Separar-se das roupas que o apertavam até era bom, era sinal que estava a crescer, a entrar num mundo novo, de coisas importantes.
De repente, a voz da mãe fê-lo sentir algumas das desvantagens dessa nova condição:
– Bernardo, escolhe os jogos, os carros e os legos que já não queres e arruma-os neste caixote.
Esta realidade deixou-o com um pé atrás, pensou que estava a perder pedacinhos de si, pareceu-lhe uma ameaça que se tornou maior quando a mãe foi mais clara:
– Vais para o primeiro ano, não vais querer continuar a brincar com essas coisas de meninos do JI.
Mas, então, ele, o Bernardo, só porque ia para outra escola, tinha de deixar peças da sua vida?
– E, para além disso, há meninos que não têm quase nenhuns brinquedos. – continuava a mãe.
De repente, pareceu-lhe ter encontrado a solução:
– Mãe, quero desistir da escola!

III – À procura de uma solução
– Ó Bernardo, isso é impossível! Os meninos têm de estudar até ao décimo segundo ano!
O Bernardo sentiu que era preciso convencer a mãe do contrário. E tentou:
– E se eu não conseguir partir a carne sozinho? Não vou poder almoçar…
– Há pessoas para te ajudarem!
Percebeu tudo: não adiantava conversar mais. Estava num daqueles momentos em que o tamanho dos adultos parecia acrescentar-lhes uma força descomunal às palavras que diziam.
Foi para o seu quarto e deu largas a pensamentos pouco simpáticos. Esta tentativa da mãe levou-o a lembrar-se daqueles dias em que o queriam levar ao dentista ou ao otorrino, aqueles médicos de batas brancas e ar sério que faziam sempre alterações bruscas e por vezes dolorosas no seu corpo.
Voltou à sala com outra solução:
– E se eu me portar mal?
– E como é que te vais portar mal?
– Posso sentar-me na mesa, bater aos outros rapazes, puxar os cabelos às raparigas, dizer que não gosto da professora. Até posso ser expulso da escola!
– Se fizeres isso, estás a ser mau e mal-educado. Zangamo-nos contigo, vais deixar de fazer coisas de que gostas, como ir ao Parque, jogar PlayStation, ver televisão… e, para além disso, não aprendes a ler, a escrever…
– E se tu me ensinasses em casa? Não és professora?

IV – O fim das férias
No início de Setembro, a mãe levou o Bernardo e a Matilde ao Centro Comercial. No corredor do “material escolar”, as mochilas, os cadernos, canetas e lápis cheios dos heróis da actualidade deixaram-no a pensar que o mundo de brincadeiras continuava na escola.
Bernardo deixou que a mãe escolhesse uma mochila com o homem-aranha. Não ficou, no entanto, convencido. Pareceu-lhe que até os seus cúmplices o traíam, assim alinhados naquelas prateleiras.
Tudo aquilo lhe pareceu muito estranho. O que é que poderia fazer com um homem-aranha em formato de caixa, gordo de livros e cadernos, amarrado às suas costas e, depois, colocado numa cadeira? Era mais uma armadilha dos adultos, uma forma de o convencerem.
Pensou na sua família: o tio Arlindo era professor, a tia Belly também. A tia Ana passava os dias na escola e dizia que tinha uns alunos muito marotos. Às vezes até lhe contava histórias de meninos que não se portavam lá muito bem, que só diziam e faziam disparates. A mãe e o pai também eram professores. Mas o que é que se passava com esta sua família? O que seria o seu futuro, se nem com eles podia contar?

V – Sonho ou pesadelo?
À noite, sonhou. Era uma Tartaruga Ninja, preparava-se para um combate, o encontro decisivo com um adversário temível.
Levavam-no – uns seres nos quais reconheceu a mãe, a Matilde e até o pai – com olhos vendados, por um caminho cheio de vegetação e pedras. Não conseguiam guiá-lo convenientemente, por isso magoou-se no corpo e na alma: Já ninguém gostava dele? Tinham-se esquecido que era preciso protegê-lo?
Chorou, esperneou, mas com isso só conseguiu a impaciência dos outros: os gritos da mãe, a zanga do pai. Até a Matilde tinha esquecido os laços fraternos e, com ar desesperado, queixava-se:
– Tirem-me este puto daqui!
Então, ele, Bernardo/Tartaruga Ninja, sentiu-se um não-rapaz, sem couraças que o guardassem.
Viu a mãe, o pai e a Matilde ficarem cada vez mais minúsculos até que se esvaíram. Em vez deles, surgiram as caras da Barbie Rapunzel, com o seu telemóvel e o notebook, tudo cor-de-rosa. Que estranho! Não era o Ken que vinha com ela… Nem queria acreditar: o homem-aranha de novo. Estaria ele a namorar a princesa?
Mais uma relação sem futuro, como a dos pais do Afonso. Eles nem podiam falar dos mesmos assuntos… Não conheciam nada do mundo um do outro!
Com que paciência o homem-aranha ouviria os lamentos da Barbie, quando achasse os seus vestidos fora de moda ou os cabelos sem conserto possível? E se ele lhe lançasse uma daquelas teias que a deixassem sem vontade ou possibilidade de falar?
Bem, para piorar ainda mais a sua noite, surgiu das trevas o Venom, aquele super vilão muito magro, de língua comprida e fato preto.
No meio deste mundo de fuga à escola, Bernardo já não sentia o tempo. Dava por si a não conseguir fazer mais do que ver: não falava, não se mexia, todo o seu corpo se resumia aos olhos. E foi com eles que continuou a viver. Vindos de mais longe, com espadas, cadernos e livros na mão aproximavam-se uns uniformes que não o enganaram. Eram os ninjas. Iriam defendê-lo? Conseguiriam salvá-lo daquela família terrestre que só queria abandoná-lo naquele sítio a que chamavam escola?
Desejou muito que os poderes sobrenaturais daqueles guerreiros cujas habilidades eram reconhecidas por todos fossem suficientes para acabar com aquele pesadelo.
E se a professora e a sua família terrestre mais não fossem do que ninjas disfarçados? Eles tinham esse poder. Podiam estar só a experimentá-lo. A escola podia ser um obstáculo para ele, Bernardo super ninja, tentar ultrapassar, uma espécie de prova de fogo.

VI – O Dia
Aquele dia começou com um beijinho.
A mãe veio acordá-lo. Foi como se lhe mostrasse que continuava a ser a sua fortaleza, apesar das transfigurações nocturnas. E respirou de alívio.
Na véspera, tinham ouvido o discurso da ministra da educação. Ela tinha dito que estudar desenvolvia o cérebro, tornava-o mais forte e que nem era preciso fazê-lo em todas as vinte e quatro horas do dia:
– Estudar é o desporto do cérebro. – Estas palavras tiveram nele um efeito aliciante e ao mesmo tempo assustador. Se calhar, até ia ser divertido. E se fosse? Se ele estivesse enganado?
Mas o diabinho da sua consciência repetia outras palavras, aquelas que davam força aos seus pavores:
– É preciso cumprir as regras, estar na aula bem, comer coisas que fazem bem…
Aí estava de novo o poder do bem: “Porta-te bem!”, “Senta-te bem!”, “Lava bem as mãos!”, “Devemos praticar o bem!”. Até esta senhora aparecia a dar conselhos e repetia, com aquele sorriso, uma palavra que ele, por vezes, tinha vontade de apagar de todas as listas de palavras.
– Levanta-te, Bernardo, escolhe a roupa que queres levar e vem tomar o pequeno-almoço.
– Quero ir de azul e vermelho! – Ao dizê-lo pensou que seria simpático vestir as cores do homem-aranha, já que o levava estampado naquela mochila. E assim sempre seriam dois a tentar ser heróis.
Até tinha fome, talvez por não ter dormido muito descansado com a companhia de todos aqueles seres que tinham resolvido agitar ainda mais a sua já perturbada existência.
Lavou os dentes e pegou em tudo o que havia para levar.
Saíram os três de casa, com receios diversos: Bernardo não queria fraquejar à frente daquelas mulheres da sua vida, mas o certo é que desejou com todas as suas forças que os seus familiares Ninjas ganhassem corpo e viessem resgatá-lo. A Matilde imaginava como haveria de se desembaraçar daquele irmão-apêndice que seria bem capaz de se lhe colar, tivesse ela vontade ou não.
A mãe, como quase todas as mães, estava ansiosa, também porque, embora nunca tivesse confessado, tinha querido resistir à escola, num tempo que fora o seu. Talvez estivessem perante um daqueles casos em que os pais transmitem aos filhos o que querem, como olhos azuis, e o que não querem, como os medos e o mau feitio. Ela compreendia muito bem aquela resistência, sentia-a como se fosse sua, mas levava muito a sério o seu papel de mãe e não queria entre eles nenhum grau de cumplicidade quanto àquele assunto.
Aproximavam-se do portão e Bernardo sentiu-se como que arrastado por aqueles seres multicoloridos com mochilas às costas e mães por perto.
Os beijinhos e as recomendações multiplicaram-se e, aos poucos, cada um ficou no seu mundo. As mães e alguns pais atravessaram os portões, que se fecharam. Mais uma vez se sentiu abandonado, como no seu sonho.
As professoras, à porta de casa sala, iam chamando rapazes e raparigas. Pareceu-lhe que se tinham esquecido dele, até que se encontrou no seu nome completo.
Bernardo Miguel de Sousa Fonseca conheceu, enfim, a sua professora. Chamava-se Amália, tinha um daqueles penteados em que o cabelo parece estar amarrado contra a sua vontade, usava uma bata branca e, ao chamá-lo, mesmo com todos aqueles outros nomes colados ao seu, achou-a parecida com a avó Beatriz.
– Podem sentar-se onde quiserem.
Bernardo ficou sem saber como seguir esta orientação da professora. O que esperavam dele?
Diogo, o seu amigo de muitas brincadeiras, quis sentar-se ao pé dele e resolveu-lhe este problema.
Ouviram a professora dizer que iam descobrir novos mundos, aprender tudo o que conseguissem e que era preciso cumprir regras.
Sentiram-se importantes, quando lhes foi dito que já conseguiam estar ali sentados até ao intervalo, porque não eram mais meninos do Jardim Infantil, estavam no início do primeiro ciclo.
A professora pediu-lhes que desenhassem e, mais uma vez, deixou-os seguirem as suas vontades.
Bernardo desenhou o seu herói preferido e pô-lo como lhe tinha aparecido no seu sonho, a namorar uma princesa. Quis que a professora percebesse quem era cada um deles, por isso esforçou-se.
E os maus pensamentos foram desaparecendo, enquanto ouvia a voz da professora e tentava fazer um homem-aranha digno desse nome:
– Meninos, é preciso fazer silêncio. Não conversem com os vossos parceiros, deixem isso para o Intervalo.
Olhou à sua volta e viu que aquela sala era parecida com as que via nos filmes e nos desenhos animados: mesas e cadeiras para dois, paredes preparadas para receberem desenhos e outros trabalhos, armários, uma secretária para a professora e um quadro verde, grande, onde lhe apeteceu colocar o que já sabia: o seu nome e alguns números. A professora ia andando por ali, fazia perguntas sobre os desenhos e as ilustrações, parecia interessada. Bernardo achou-lhe graça.
Ouviu-se uma campainha:
– Meninos, peguem nos vossos lanches e vão lá para fora. É o intervalo. Quando ouvirem outro toque, devem voltar aqui.
Saíram em fila indiana, uma estratégia inventada pelos adultos para arrumarem a agitação das crianças.
Lá fora, esperavam-nos algumas mães mais ansiosas e Bernardo desejou com muita força que não encontrasse a sua. Fechou os olhos, porque se lembrou do truque: “Se fecharmos os olhos, as pessoas que não queremos que nos vejam deixam de existir.”
Mas não foi preciso recorrer à magia, a mãe era sensata e acreditou nele.
Correu, brincou à apanhada, ouviu os gritos da D. Guilhermina nos seus receios de que se partissem, quase se ia esquecendo do lanche e, quando o toque da campainha surgiu, de novo, regressou àquela sala que não o prendia para além da sua vontade. De repente, sentiu vontade de contar à mãe que, afinal, estava a gostar daquele primeiro dia na escola. E ficou mais crescido.

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