Quando entrou no carro, decidiu respirar fundo antes de arrancar; apoiou a cabeça e as duas mãos no volante e assim permaneceu durante alguns segundos.
Tinha acabado de sair do trabalho e não tinha a mínima vontade de ir festejar… Hoje tinha sido um dia complicado. Mais uma vez contivera-se o suficiente para não virar costas a tudo e sair porta fora. Odiava aquilo que fazia, e as pessoas que trabalhavam consigo não ajudavam a minimizar a situação. Ligou o rádio…”Toda a cidade flutua, no mar da minha canção, passeiam na rua pedaços de lua, que caem no meu balão (…)”
A música que estava a tocar alterou-lhe por completo o estado de espírito, pois começou gradualmente a sorrir, abanando os ombros como que a dançar; lembrou-se novamente da noite que se aproximava e arrancou…
Maria tinha combinado jantar com uns amigos, ou seja, aceitara o convite de um amigo para jantar com amigos dele; e andava bastante entusiasmada, tendo já inclusive escolhido roupa para a ocasião, mas o dia já tinha sido bastante comprido para si… e toda aquela enorme vontade diminuíra; conduzia depressa, mas os acessos condicionados das ruas, dificultaram a simples tarefa de chegar a casa. Morava numas águas-furtadas, num beco de Alfama, e demorava aproximadamente quinze minutos de sua casa ao local de trabalho; naquela noite demorou uma hora e vinte minutos…
Ao entrar em casa, poisou a mala no cabide que estava no corredor e dirigiu-se dançando para a pequena sala; ligou o rádio e começou afastar-se em direcção ao quarto, bamboleando as ancas e cantarolando, “(…) e na canastra a caravela, no coração a fragata, em vez de corvos no xaile, gaivotas vêem pousar, quando o vento a leva ao baile, baila no baile (…)”. Tinha acabado de decidir que não iria ao jantar; ia tomar um banho, comer qualquer coisa e talvez mais tarde então se encontrasse com eles. Procurou o telefone no fundo da sua mala; uma mensagem escrita era melhor que uma chamada; assim não haveria hipótese de a tentarem dissuadir; agilmente, digitou a mensagem e enviou-a. A resposta não tardou em chegar:” Já vi que estás numa de anti-social… mas quando estivermos a sair, passo por aí para te apanhar. Bjs”. Sorriu atirando o telefone para cima do sofá e encaminhando-se para a casa de banho, continuou a cantar:” (…) vende sonho e maresia, tempestades apregoa, seu nome próprio Maria, seu apelido Lisboa…”
Ás onze e meia, Maria estava já pronta… aguardava sentada no sofá, com o olhar perdido no céu estrelado que do alto da sua janela avistava. O som de aviso de uma nova mensagem despertou-a; dizia para descer…
Tinha conseguido, pensava observando o seu reflexo no espelho; o vestido cor-de-rosa assentava-lhe na perfeição… deu uma volta, sobre si mesma; queria ver a roda da saia… Do cabelo solto e ainda húmido, pendia uma rosa vermelha, presa com um gancho. Antes de sair, debruçou-se á janela e deixou o seu olhar percorrer uma vez mais as casas e as ruas, até encontrar o rio… Tinha-se habituado á sua companhia e agora não conseguia viver sem ele; julgava mesmo conhecer todos os tons de azul da água, inclusive aquele tom em que o azul empalidece e se une no horizonte á névoa das nuvens sobre o céu. Desceu o olhar pelos telhados e fixou-o na agitação da rua; na multidão de pessoas que passava; nas fitas coloridas, presas nas varandas, que formavam um toldo sobre a estreita ruela; as floreiras em flor que se assemelhavam a pequenos jardins flutuantes… Ao fundo, pairava já sobre a cidade uma espessa nuvem de fumo, proveniente dos assadores, que começavam agora a crepitar…” Lisboa velha cidade, cheia de encanto e beleza, sempre a sorrir tão formosa e no destino, sempre airosa (…). Sacudiu a cabeça e passou a mão sobre as pregas do vestido, endireitando-o… Saiu…
O cheiro a sardinha assada pairava no ar. Cá em baixo, á sua porta, um grupo de pessoas olhava na sua direcção; o amigo sorria-lhe de copo na mão: - Esta é para ti!!! – Maria desceu o degrau que os separava, e abraçou-o com uma mão, enquanto que a outra agarrava no copo. Virou depois a cabeça e sorriu para os amigos do amigo, dizendo boa noite.
- Bem, vamos? - ouviu-se uma voz vinda do meio do grupo; Maria entrelaçou o seu braço no de João e assim caminharam, de braços dados como de um casal se tratasse. – Sozinha, pá? Outra vez??? - disse João, enquanto tentavam seguir o resto do grupo, disperso pelo meio da multidão;
- O habitual, acho eu!... Já nem ligo… - retorquiu Maria, ao mesmo tempo que se tentava equilibrar, pois um dos seus pés estava enfiado no carril do eléctrico, e a multidão atrás de si continuava a empurrar, fazendo pressão para avançar; João puxou-a antes que tivesse tempo de cair e Maria agradeceu rindo (naquela noite o trânsito pedonal ficava congestionado e toda e qualquer circulação tinha de ser feita devagar).
Esta pergunta surgiu porque a situação era de conhecimento geral; ela queixava-se constantemente do mesmo; o facto de o noivo estar sempre ausente e a consequente solidão que por vezes sentia. Não fossem os amigos e alguns familiares mais chegados, provavelmente já teria enlouquecido… No início não era nada assim e por isso, quando o pedido de casamento surgiu, passado dois anos de namoro, foi aceite por Maria com convicção, ou seja com toda aquela que se pode transpor para uma resposta deste tipo. Decidiram seguir a tradição e marcar a data para o dia de santo António, mas esse capricho custou-lhes terem de esperar dois anos por uma vaga na igreja escolhida; conformados e felizes aceitaram… agora faltava precisamente um ano para o tão ansiado dia… E a alegria inicial dera lugar á duvida e á tristeza… Maria já não tinha tanta a certeza de aquele ser o passo certo a dar… Já tinha dado por si algumas vezes a pensar em cancelar o casamento…
Para si a definição de uma boa relação assentava nos princípios de companheirismo acima de tudo; logo a de casamento era: amantes companheiros a partilharem o mesmo espaço - pensava ela. E no último ano e meio tinham sido tudo menos companheiros; tempo para estarem um com o outro era difícil de conciliar, e já nem partilhavam as pequenas coisas que tornavam os seus dias diferentes; geralmente ele chegava, tinha a chave do seu apartamento, ela já estava deitada ou dormitava no sofá… apenas dormiam juntos… Nessa noite, mais uma vez, o seu mais que tudo tinha de trabalhar… A combinação entre um mau dia de trabalho e uma crise de consciência tinham ditado a sua disposição no início da noite.
João era um amigo bastante chegado e com quem ela desabafava constantemente; já a tinha questionado acerca do casamento, se ainda era importante para si; Maria respondera que sim, que ainda o amava e que provavelmente tudo não passava de uma fase passageira… mas no fundo sabia que estava a mentir... continuava agarrada a essa ideia pois na sua cabeça era inconcebível não haver casamento, mesmo já tendo pensado diversas vezes nessa opção. Imaginem cancelar o casamento!... O que diria á família? E as pessoas o que iriam pensar? Sem contar com o sonho da sua falecida mãe, de a ver entrar vestida de branco na igreja… não, andava novamente com a cabeça nas nuvens e com ideias enubladas, como dizia a tia Aurora, que a havia criado.
João seguia agora na frente, abrindo caminho, segurando no braço de Maria; a cada passo que davam, ouviam o barulho do plástico dos copos por baixo dos pés; quase como se tivessem coberto as ruas da cidade com um tapete de plástico transparente, que protege a calçada nessa noite.
- Para onde? - ouviram gritar os dois;
- Para a rua dos Corvos!!! - alguém respondeu.
- Mas afinal vamos para onde? - perguntou Maria, puxando João e gritando-lhe ao ouvido…
- Não disseste que querias dançar? - disse rindo - Vamos a um bailarico, ali no largo da igreja de S. Miguel.
Maria riu-se também com a resposta. Sim, uns dias antes, quando ainda não sabiam o que iriam fazer nessa noite, Maria apenas dissera que queria dançar; adorava dançar… o resto não lhe importava, podiam combinar o que quisessem… nessa altura ainda fazia planos para levar consigo o namorado.
Quando finalmente chegaram ás Escadinhas do Arco da Dona Rosa, pararam e tentaram reunir o grupo todo, para ver se ninguém tinha ficado para trás; mas Maria já nada ouvia, porque ao fundo, debaixo daquela nuvem escura que anuncia a noite, o rio… as luzes brilhantes reflectidas…com aquele tom de azul escuro que se confunde com a noite… Alguém lhe dá um encontrão, que faz com que ela avance mas nunca desviando o olhar, preso no horizonte, embalado pela corrente. Consegue descer dois degraus antes de parar novamente; não percebe a pressa das pessoas e muito menos naquela noite, quando toda a cidade decide sair á rua para celebrar. É uma jovem rapariga, amiga do seu amigo, que lhe diz:
- Vamos descendo? - e sorri; Maria abana a cabeça afirmativamente e deixa-se ficar para trás, á espera de João; deixa-o passar á sua frente e segue-o.
A fila avança lentamente pela escadaria, arrastando Maria consigo; ela continua com o olhar perdido, ainda a navegar pelo Tejo. Quando ouve um barulho de algo a partir, nem tem tempo de se aperceber antes de cair; rebola por dois degraus até ser agarrada por um braço forte que a levanta; ao tentar perceber o que aconteceu, volta-se e vê algo partido no chão… Uma rapariga, que estava sentada num pequeno banco de madeira no lado oposto ao altar, levanta-se bruscamente e agarra num dos dois pedaços que se encontram no chão, olhando para Maria com ódio… Reparou então que o que ela segurava na mão era uma das pernas da estátua do Santo António; Maria tinha tropeçado num altar e tinha deixado cair a estátua. Sem ainda ter noção do que tinha acontecido, apanhou a carteira e o casaco do chão…Ao flectir a perna, para se baixar, sentiu uma dor no joelho e olhou na direcção do mesmo: um fio de sangue escorria pela perna. Ao mesmo tempo que se baixava, procurava com o olhar o rosto que fazia parte do braço que a ajudara a erguer-se; não o via… procurou o amigo, mas também não o encontrou… Voltou-se novamente para a moçoila mal encarada que tentava compor o altar novamente, murmurando algo entre dentes.
- Peço imensa desculpa!!! – disse Maria envergonhada, mas o olhar de raiva da miúda fê-la desejar ter algo mais grave do que a simples mazela no joelho.
Tentou minimizar os estragos, oferecendo-se para pagar uma nova estátua, mas a dona continuava a ignorá-la, não lhe dirigindo sequer a palavra. Continuou a insistir, não obtendo resposta alguma e alegando continuamente que fora sem intenção. Ao fim de algum tempo desistiu e virou costas á rapariga, ao altar e ao santo partido. Por esta altura já João tinha voltado atrás á sua procura;
- Então? Onde é que te meteste? Anda…
- Vais só ver o que te vai acontecer!! Vais ver… - foi a única coisa que Maria ouviu antes de começar novamente a descer a escadaria.
- Vamos!... - respondeu Maria, apoiando-se no ombro de João… - Nem imaginas o que acabou de acontecer!... - e resumidamente contou-lhe o sucedido.
Estava irritada; doía-lhe a perna e o joelho; não conseguia perceber como tinha caído, e logo em cima do Santo António… muito menos entendia a reacção da rapariga, que se recusara a dirigir-lhe a palavra… á medida que descia os degraus, lentamente, observava as dezenas de pessoas no constante sobe e desce… emaranhado que não fora suficientemente coeso para não a deixar cair…
Com a perna dorida, chegou ao fim da escadaria; o restante grupo aguardava por eles mas João disse-lhes para irem andando que eles já iriam lá ter… Maria sentou-se na soleira de uma porta, para ver o joelho;
- Deixa-me ver isso!... - disse João, pondo-se de joelhos no passeio para observar a ferida - Passa-me um lenço de papel…não é nada de grave… - disse sorrindo, olhando ternamente para ela. Maria abriu a sua mala e retirou um lenço de papel do pequeno maço; - Mas não temos água para o molhar… - disse.
João olhou á sua volta e depois na direcção da sua mão; ainda tinha um resto de cerveja no copo que poisara ao seu lado; sem demoras, deitou-a por cima do lenço e limpou o sangue seco e a areia do joelho;
- Só tu!!! Cinco minutos, não foi mais que isso, o tempo que não estive a olhar para ti… - dizia ao mesmo tempo que dobrava o lenço e repetia a operação; - A sério, só contigo Maria!!!...
Ela nada dizia; observava a delicadeza dos seus gestos; estava a gostar daquela atenção; não se mexia sequer…
- Imagino a tua cara quando te levantaste do chão!... Ninguém te ajudou?
- Havia um braço de um homem… forte… que me ajudou a levantar… mas como deves calcular nem lhe vi a tromba… - respondeu ela.
- Bem, aguentas ou queres ir para casa?
- Desculpa??!! Foi apenas um arranhão, estou óptima… estás parvo? - respondeu Maria levantando-se; mas a expressão do seu rosto fez João soltar uma gargalhada:
- Dói-te, não dói? - ela riu-se:
- Mas não o suficiente para me fazer ir para casa e ficar por lá sozinha…
- Então, anda… Vamos dançar!
- E beber! Vamos!... - disse Maria, entrelaçando novamente o braço no dele… E assim se misturaram com a multidão…
“Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza não vais ser feliz; Lisboa, que ideia daninha, vaidosa alfacinha casar com Paris (…)”
No largo da igreja, vários pares dançavam… sorrisos rasgados nos rostos… e olhares perdidos deixavam antever que o bailarico estava animado; junto ao bar improvisado, rostos conhecidos… os dois atravessaram a “pista de dança” e foram ter com eles… a aventura foi contada por entre uma rodada de cerveja e todos riram, inclusive a própria Maria… Não fossem as picadas no joelho de quando em quando e tudo aquilo poderia ter sido apenas mais um dos seus devaneios… os copos vazios tombavam no chão, ajudando no fabrico, colectivo, do tal tapete protector da calçada…
“Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa, e se á porta humildemente bate alguém, senta-se á mesa com a gente (…)” - ouvia-se agora; Maria, agarrou no braço de João e disse:
- Vá, anda dançar comigo!... Prometeste que dançavas… - insistiu ela, sabendo que ele não gostava muito de dançar e, por esse motivo, obrigara-o a jurar que dançaria pelo menos três musicas antes de aceitar o convite.
João cedeu e deixou-se arrastar por ela; dançaram… Maria soltava gargalhadas de cada vez que ele a fazia rodopiar… ele aos poucos também se foi desinibindo… uma musica após outra… apenas paravam para se dirigirem ao bar, quando os copos já estavam vazios… mas rapidamente voltavam, retomando os seus lugares… já não sentia o joelho, não se lembrava da queda e muito menos pensava no namorado… rodopiava alegremente… na sua cabeça só ouvia a música… e mais ainda lhe apetecia dançar…
- Maria, preciso de descansar… - disse João ofegante - Para!!!... - e afastou-se, sempre com o copo na mão, sentando-se no degrau da igreja; Maria seguiu-o, sempre a balouçar as ancas, marchando…
- Anda lá!... Tens dez minutos para te recompores… - disse, mantendo-se de pé na sua frente…
- Tu não te cansas, mulher?...
- Não!... - e continuou a dançar sozinha… tal qual varina marchando pela avenida… sentiu uma mão a tocar na sua, ao mesmo tempo que ouvia:
- Queres dançar… comigo?...
Maria voltou a cabeça e viu um homem de braço esticado a sorrir para si; numa situação normal o mais provável seria responder que não, mas naquela noite, deixou-se levar pelo momento e virando a cabeça na direcção de João, disse:
- Já que tu não queres dançar, paciência!... Danço eu… - e seguiu o estranho.
“(…) aí Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor de rosa, dos pregões tradicionais; aí Mouraria (…)”; o ritmo da música ditou um abrandamento dos passos de dança e Maria aproveitou para observar o homem; começou pelo braço que segurava a sua mão, firmemente esticado… as veias, salientes como pequenas cordilheiras, sobressaíam da sua pele morena, mas baça e seca… queimada do sol… uma linda boca… pequena… Maria corou…
- Espero que não te tenhas magoado… - disse-lhe, não parando de dançar.
Maria não percebeu…
- Desculpa?!!!
- A escadaria? O Santo António partido?... Não te lembras? - disse, rindo.
Maria olhava agora novamente para o seu braço e rapidamente o reconheceu…Tinha sido ele que a ajudara a levantar; tinha sido um daqueles braços fortes, que agora a seguravam com firmeza enquanto dançavam, que ela vira no meio da multidão…
- Ah! Desculpa não te ter reconhecido… - disse, um pouco envergonhada - E aproveito também para te agradecer… - continuou, baixando os olhos…
- Bem, não tens de quê… mas aleijaste-te?
- Não!... Quer dizer, um arranhãozito no joelho… coisa pouca…
Ele parou de dançar e baixou-se para ver…
- Não parece nada de grave… - disse, ao mesmo tempo que se levantava e a agarrava novamente pela cintura, fazendo-a rodopiar com a outra mão…
O seu nome era Ernesto e era marinheiro; estava de licença e por isso aproveitara para festejar o Santo António com uns colegas; fora mero acaso a sua presença na escadaria nessa noite; tinha-se perdido dos companheiros e por isso decidira voltar atrás para ver se os encontrava; essa resolução implicou subir novamente a escadaria do Arco da Dona Rosa… foi aí que se cruzaram... continuavam a dançar mesmo enquanto ele falava… os seus olhares não se cruzavam…Maria escutava-o… Havia algo de familiar nele... Por momentos veio-lhe á memória a imagem do seu pai; era um homem robusto, com braços fortes e compridos… tinha em comum com Ernesto aquele tom moreno, baço e desgastado… que só os homens do mar têm… fechou os olhos e por breves instantes conseguiu ver o seu rosto…
“(…) das festas, das seculares procissões, dos populares pregões matinais que já não voltam mais!...” - a música tinha acabado e Maria abriu novamente os olhos… continuavam ainda de mão dada… ele olhando para ela sorrindo…
- Ah!!! O João!!!... Esqueci-me completamente dele… - e procurou-o com o olhar; encontrou-o encostado ao balcão do bar, em amena cavaqueira com três ou quatro raparigas; sorriu e voltou-se para o seu salvador:
- Preciso descansar um bocado… - disse, largando a mão dele, nervosamente…
- Ok… Podíamos procurar um sitio com menos barulho, onde nos pudéssemos sentar e conversar… Talvez assim conseguisse saber alguma coisa sobre ti, já que fui só eu que falei… Além disso preciso de companhia até ás cinco da manhã - disse olhando para o relógio - … já só falta hora e meia… e perdi os meus amigos…
Os seus olhos escuros brilhavam enquanto falava; Maria observava-o… aquele brilho… já o tinha visto antes… e mais uma vez a imagem do pai… sempre que saia para o mar… na altura perguntara-se se não seria o reflexo do rio, mas não… o brilho mantinha-se igual, mesmo quando não havia rio nem sol por perto…
- Então?...
Maria olhava para ele com um sorriso distante; ele tocou-lhe no braço como que a puxá-la de volta para a realidade;
- Hã?!... Desculpa… Sim… acho que sim… - balbuciou Maria, sem ter a certeza da resposta… - Mas tenho de falar com o João… Dás-me um minuto?... - e dirigiu-se para o bar… João ao vê-la esboçou um sorriso maroto;
- Ora, ora… pensei que já não te via mais esta noite - disse com voz arrastada…
- Foi ele que me ajudou quando eu cai, acreditas nisto?... - respondeu Maria excitadamente… - Vou acompanhá-lo ao cais de Santa Apolónia… Queres vir?
- Já ouviste aquela frase?... Um é masturbação, dois é bom e três é demais… -e soltou uma gargalhada…
Rindo-se, Maria puxou-o para si e disse-lhe ao ouvido:
- Vontade não me falta… mas tu conheces-me, meu amigo… não consigo…
- Eu sei… e por isso não estou minimamente preocupado contigo… passo a pasta ao grandalhão… ele que continue a tomar conta de ti por hoje - respondeu ele, beijando-a na mão…
Maria soprou um beijo na sua direcção e voltou para junto de Ernesto, que a aguardava na saída do largo…
- Está tudo? - disse em tom de piada, sorrindo, quando a viu chegar. Maria abanou a cabeça afirmativamente, pronta e decidida a mergulhar uma vez mais na confusão de gente que ainda deambulava pelas ruas… As barracas que vendiam bebidas, começavam agora a fechar, sinal de que já nada tinham para oferecer aos clientes… o tapete plástico tinha-se tornado mais espesso… Caminhavam lado a lado, e Maria tentava resumir a história da sua vida; falou-lhe do pai e da mãe já falecidos; do emprego que mantinha mas que detestava; do namorado ausente; do casamento marcado; das dúvidas… e só se deixou levar pela emoção quando abordou a sua paixão pelo rio…
- Acabei de ter uma ideia!... Como forma de agradecimento vou-te mostrar o meu sitio favorito da cidade… O mais bonito… - disse ela - Estás interessado?...
- Tenho tempo… e estou curioso… - respondeu Ernesto - Vamos lá…
Maria fez-lhe sinal para cortarem á direita e seguirem em frente… Passaram a Casa dos Bicos e continuaram… sempre a conversar… estava feliz por a noite não ter sido um completo desastre… de certa forma o incidente da queda até tinha ajudado a torná-la mais interessante… de outra forma não o teria conhecido… Afinal tinha de agradecer ao santo António a boa companhia daquela noite… Os vasos de manjericos perfumavam o ar… e a música ainda se fazia ouvir… Chegaram á praça do Terreiro do Paço…
- É para aqui que venho quando preciso de pensar… - e começou a andar em direcção ao rio; ele seguia-a… - Muitas das vezes sento-me lá em baixo - disse apontando para o ancoradouro.
- Tens de admitir que é um dos mais belos sítios que esta cidade tem!...
Ele caminhava atrás dela, observando-a e ouvindo-a… Preparavam-se para atravessar a estrada… não havia carros a passar e Maria avançou decididamente, mas no meio da passadeira deteve-se, voltou-se para trás e gritou:
- Despacha… - mas não acabou a frase porque sem se saber de onde apareceu um carro a grande velocidade que a abalroou… ainda tentou travar… ouviu-se o chiar dos pneus… mas no ar apenas um cheiro intenso a borracha queimada… Maria foi projectada para junto de uma das colunas do ancoradouro… Ernesto correu para junto de si… O condutor do carro também… Deitada no chão, gemia… não sentia as pernas… Ernesto ajoelhou-se ao seu lado e agarrou-lhe na mão… sentiu a mão dele a segurar a sua…
- Está bem? - perguntou o condutor com a voz a tremer… Maria virou a cabeça para responder e soltou instantaneamente um grito abafado;
- Não!... Não…
Á sua frente o noivo… era ele o condutor do carro…
- Ma… Maria!!! - exclamou ele aflito…
- Vocês conhecem-se? - perguntou Ernesto sem a largar…
- Este é o António… Aí!!!... o meu noivo…
António, permanecia lívido e sem qualquer reacção… a rapariga que viajava no carro com ele apressara-se a telefonar a chamar uma ambulância e só agora vinha ter com eles;
- Querido, está tudo bem? - e colocou o seu braço á volta da cintura de António… - A ambulância já vem a caminho…
António não respondia… dos olhos de Maria escorriam agora lágrimas… não só de dor mas também de raiva…apertou com mais força a mão de Ernesto e pediu-lhe baixinho:
- Não a largues, por favor!!!
Ernesto olhou-a nos olhos e sorriu… os seus olhos brilhavam… olhou rapidamente para as pernas dela e viu diversas fracturas expostas… voltou a olhá-la nos olhos… e apertou a sua mão com mais força…
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