Tentei ser criativo mas… não senti nada. Fiquei como aquelas raparigas que vão ter a primeira relação física (no meu caso metafísica) e estão expectantes (eu também) porque lhes disseram que ia ser Maravilhoso, uma experiência Transcendente, um Encontro Cósmico com as Forças Poderosas do Amor (no meu caso, da Inspiração).
E depois, num ápice, o amante eleito faz o serviço, todo nervoso, enquanto elas ficam a olhar para o tecto, desapontadas, espantadas:
“Então afinal é só isto? Não senti nada!”
Acontece que até aqueles escassos segundos, ou minutos (sejamos generosos para o titubeante amante), e apesar de a moça “não sentir nada”, podem trazer uma bela surpresa, que se revelará ao mundo nove meses depois.
Pois é. A inspiração não é nada de especial.
O resultado é que, às vezes…
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Ana Paula S: Estação das Laranjeiras (demasiado seco, talvez?)
Estação das Laranjeiras
Entrou no metro, rapidamente, e circundou a carruagem com o olhar. Num segundo, percebeu que não havia lugar para se sentar. Tinha os olhos treinados a estes relances. O pescoço magro e a cabeça esguia acompanhavam facilmente o ritmo do olhar. Arrumou-se junto à porta e a mão direita pousou firme no varão. Os olhos mantinham-se atentos. Olhos escuros, sob um arco de sobrancelhas disciplinadas. O corpo direito, franzino, tinha a tensão sossegada da espera. Primeira paragem. Ninguém se levantou. Começou a impacientar-se. É que hoje queria muito sentar-se, precisava de pensar. No fim da viagem tinha de ter uma decisão tomada. A reunião estava marcada para o meio-dia e meio-dia era já daqui a pouco. Pelo canto do olho, pressentiu que alguém se levantara. Tentou a sorte. Moveu-se para o fundo do corredor, decidida, quase ansiosa. Um homem que lhe pareceu desmesurado tinha, de facto, libertado um assento. Instalou-se na repulsa do calor húmido que o banco libertava mas também na urgência da decisão. Sim? Não? Aceitava? Recusava?
Andava assim há uma semana. Um desassossego, uma agitação. Durante as férias, na anual semana de praia com os pais, conhecera finalmente o genro do Dr. Mendonça. Os pais e os Mendonça conheciam-se desde sempre. Frequentavam a mesma praia há anos e anos de conta perdida. Raramente se encontravam ou comunicavam fora desse espaço de veraneio mas, ano após ano, lá estavam, vizinhos de toldo e de conversa preguiçosa. A filha mais velha dos Mendonça, depois do intervalo de juventude, voltara a acompanhar os pais. Vinha com os filhos, praticamente mais um em cada ano, mas sempre sem marido. O genro do Dr. Mendonça era uma pessoa importante. Viajava muito. Esta ausência insistente já dera origem a muito comentário. Ela e os pais divertiam-se a antecipar onde estaria, nesse verão, esse mítico genro do Dr. Mendonça. Pois bem, nestas férias, o senhor apareceu. Era, sem dúvida, um homem importante. Tinha esse ar solto, confiante, de quem decide vidas e lucros. Um dia, à beira da hora de almoço, apercebeu-se de que tinham ficado sozinhos nos respectivos toldos. O jornal dele e o livro dela desculpavam a ausência de comunicação mas, às tantas, ela achou o silêncio embaraçoso e arriscou uma pergunta.
- Então, Dr. Lourenço, finalmente uns dias de descanso, não é? Fica até ao fim do mês?
Ele saiu do jornal, complacente, sorriu e dispôs-se à conversa. Esta tomou imediatamente um rumo seguro; falaram de trabalho.
- Bem gostaria, mas sabe como é, tenho uma reunião na segunda-feira. Amanhã já regresso à capital.
- Que pena! Mal pôde desfrutar deste sol maravilhoso. Bem, na verdade, eu também vou regressar. Este ano, excepcionalmente, vou ter férias repartidas. Mudanças lá no emprego.
- E que faz a Laurinda?
- Trabalho na Biblioteca Nacional, sou responsável pela sala dos periódicos. Já lá estou há vinte e dois anos. Era a minha segunda casa.
Ele interessou-se, começou a fazer perguntas, a puxar por pormenores e ela foi respondendo e falando, e falando. Acabou por escorregar em confidências. Lançou sobre aquele quase-desconhecido todo o desalento do seu mundo. Que vergonha! Como fora capaz! Começara por lhe contar como tinha ido parar à Biblioteca há vinte e dois anos atrás. Tivera sorte. Logo depois de ter concluído o curso, e já conformada com uma carreira de docente, a estrear num escuso liceu de subúrbio, eis que, no metro, encontrou o professor de História Medieval. Ficou contente. Gostava daquele professor. Durante a breve conversa, ele disse-lhe que ia abrir um concurso na Biblioteca Nacional e que devia tentar. Ficou entusiasmada e, depois, profundamente agradecida, pois tinha conseguido o lugar. Gostou logo de tudo. Das funções, das colegas, dos almoços descansados na cantina. Fez lá as grandes amigas. Umas, as mais velhas, eram de conselhos e orientações, outras, jovens como ela, de devaneios e risadas frescas. Com o tempo, as primeiras reformaram-se, as segundas criaram famílias, todas se cansaram. Foram desaparecendo, mesmo que ainda, todas as manhãs, zelosamente, picassem o ponto. E, com os devagares do tempo, chegou a rotina, a chatice, a idiotia, a desilusão.
- E veja só, Dr. Lourenço, agora querem abrir a biblioteca durante a noite. E também à tarde, no sábado. Vamos ter de fazer turnos. Nunca foi preciso e toda a gente pesquisou o que tinha a pesquisar. E agora vai ser assim porque mandam que seja. Vai ser terrível! Sem carro, a ter de apanhar o comboio para regressar a casa, já noite feita…
E ali, em palavras despidas, desamparadas, contou a mágoa, a angústia, a dor de mansinho no peito. E, então, num alarido, os outros chegaram. Vinham a correr para alcançarem rapidamente a sombra apaziguadora do toldo, para se libertarem da areia que, àquela hora, escaldava. Chegou a excitação dos meninos, a água tão boa, quentinha mesmo, e chegou a sua salvação. A sua e a do Dr. Lourenço que, de jornal em desleixo, silenciava a sua incomodidade. Coitado! Quereria lá saber dos periódicos, das pesquisas, da hora de abertura e de fecho de uma obscura biblioteca onde, certamente, nunca tinha ido. Não sabia o que lhe acontecera. Não era seu costume. Sempre fora muito reservada. Simpática, comunicativa, mas reservada, acentuadamente reservada nas suas debilidades e problemas. Falaria de uma constipação, de uma dor nas costas, de uma fuga de gás na cozinha, nunca de solidão ou desânimo. Nunca. Contratempos, sim, todos bem explicados, com os alongados pormenores de conversa de café. Sofrimentos, não. Isso não. E ali na praia, assim, sem mais… Que embaraço. Felizmente, no dia seguinte, já não se encontrariam e as viagens do Dr. Lourenço ocupariam os verões seguintes. A meia-dúzia de horas que antecederam a despedida, no final da tarde, foram preenchidas pelo redemoinho das vozes na sua habitual vibração de férias, de praia, de mar. A despedida foi formal, ambos escudados num constrangimento cúmplice.
Na segunda-feira, entrou no seu gabinete indisposta. Tinha calor, tinha vontade de mar e sol, tinha zanga profunda a estar ali, naquele dia sem jeito nenhum para trabalho que valesse a pena. Não havia urgências. Tinha apenas de fazer uma nota de serviço. Havia uns periódicos muito antigos que queria preservar. Os microfilmes só estariam disponíveis daí a um par de meses mas entretanto não autorizaria a consulta em papel. Mimava com desvelo os seus jornais. Era assim. Achava que tinha de os proteger e estava ali para os poupar ao tempo e ao desrespeito. Livrá-los, sobretudo, de uma rapaziada que chegava no fastio de um trabalho para fazer, de prazo de entrega ao professor no dia de ontem, sem sequer suspeitar que ia ter nas mãos um milagre, um tesouro. A semana de trabalho fora, na verdade, uma semana de tédio que só não tinha sido absoluto porque, pelas tardes, havia umas quantas reuniões, tão animadas quanto inconclusivas, sobre horários e outras mudanças avulso. Na sexta-feira, no rescaldo de mais uma reunião, tinha decidido apanhar ar, andar um pouco. Normalmente apanhava o metro de Entrecampos, bem perto, portanto, mas tentara-se por uma descida, a pé, da Avenida da República. Não seria o passeio ideal mas evitaria, pelo menos, a clausura dos transportes. Morava em Paço d’Arcos e, depois do metro, ainda tomava o comboio e, por fim, uma camioneta que a deixava, então, a poucos metros de casa. Antes de sair, porém, tinha regressado ao gabinete. Queria certificar-se de que deixava tudo em ordem. Espreitou os e-mails, quem sabe, alguma novidade de última hora podia alterar os planos para a próxima semana. Mesmo de pé, foi lendo os endereços, os assuntos. Tudo desinteressante. Quase a libertar-se, um último e-mail tinha-a sobressaltado: nlourenco@gmail.com; proposta de trabalho. Sentou-se. De respiração suspensa, deu dois cliques e o texto ocupou o ecrã. Tentou sossegar-se para ler a mensagem. Os olhos corriam as frases aos saltos, na busca de um entendimento rápido, esclarecedor. No fim, respirou fundo, uma, duas, três vezes, e reiniciou a leitura. Era efectivamente do Dr. Lourenço. Oferecia-lhe trabalho como secretária de um administrador da empresa em … Budapeste. Expansão dos negócios, mercado, leste europeu… sabia da sua insatisfação actual… desafio interessante… e foi por ali abaixo somando as restantes palavras, claramente supérfluas perante a ofuscante realidade do convite. Pedia-lhe uma decisão rápida, uma semana, e deixava o contacto do colega para explicações mais detalhadas. A terminar: Os melhores cumprimentos, Nuno Lourenço. A estupefação colara-a à cadeira. Tinha até medo de acreditar mas o Dr. Lourenço não teria nem tempo, nem lembrança para partidas tolas. Tinha de ser verdade.
Depois de reler a mensagem umas sete vezes, aturdida e com receio de um entusiasmo que viesse a despenhar-se brevemente, acabou por levantar-se. Saiu do gabinete, passou por outras funcionárias, nem bom fim-de-semana nem até segunda, e, já no hall, passou maquinalmente o cartão magnético que fechava o dia de trabalho. Transpôs a porta e encarou o final de tarde, ainda muito quente. A Fernanda, que também saía, falou com ela. Apressou-se a retorquir-lhe, pouco convicta, um bom fim-de-semana para ti também e deixou-a ganhar distância. Felizmente a colega tinha carro, não tentaria acompanhá-la até ao metro. Afinal decidira regressar a casa rapidamente, dispensava o passeio ao ar livre. Queria muito sentar-se no seu sofá e, frente ao televisor, desligar-se daquela notícia que lhe parecia tão fantástica quanto perturbadora.
Esteve em suspenso todo o fim-de-semana. Não se permitiu sonhar sem antes falar com o tal administrador embora mal conseguisse fingir para si própria que tudo continuava igual. Só na quinta-feira, após três telefonemas e cinco e-mails trocados com o colega do Dr. Lourenço, se sentiu verdadeiramente esclarecida. Tinha inclusivamente falado com um amigo seu, advogado. Percebeu naquele momento que apenas faltava o que lhe parecia mais fácil: tomar a decisão. Nessa noite, já semi-adormecida, um frémito atravessou-lhe o corpo. E se estivesse a ser precipitada? E se tudo corresse mal? E se, e se …? Sentou-se na cama, ofegante, alarmada com tantos ses que voltejavam em redor da sua cabeça. Acalmou-se um pouco e arrastou-se até à secretária. Decidiu utilizar um método que já anteriormente, em situações de dúvida, se revelara muito eficaz. Um método que arrumava ideias, concretizava hipóteses, objectivava o que parecia difuso. Pegou numa folha branca e traçou uma linha na vertical. No topo esquerdo, escreveu: vantagens. No topo direito: desvantagens. Foi, então, dispondo, metodicamente, em cada uma das colunas, os dados de que dispunha. Melhor ordenado. Maiores despesas com o alojamento. E assim por diante. Preencheu duas páginas, com a sua letra redonda, bem ajustada à linha. Quando terminou, surpreendeu-se com o facto de ambas as colunas estarem ao mesmo nível. De seguida, leu o que tinha escrito: vantagem, desvantagem, vantagem, desvantagem. Alarmou-se. A cada vantagem correspondia directamente uma desvantagem. Estava verdadeiramente atónita. Como poderia ser? Tinha finalmente recebido a proposta de trabalho que a poderia fazer deixar para trás tudo aquilo que tanto a aborrecia e agora descobria que havia iguais vantagens e desvantagens. Como poderia ser? A falta de um resultado lógico, racional, de provas concludentes, deixou-a petrificada. E foi num crescendo de indecisão e angústia e indecisão que chegou à madrugada de sexta-feira.
Findava a semana que lhe tinham dado para pensar e esperavam uma resposta definitiva, clara. Combinara uma reunião com o Dr. Lourenço na sede da empresa, às Laranjeiras, ao meio-dia. O Dr. Lourenço apresentar-lhe-ia o colega, ajustariam detalhes… Que lhes poderia dizer? De manhã, por volta das nove horas, a decisão ainda pairava sob a forma de um desesperante ponto de interrogação. Não tinha dormido mas sentia-se enérgica, despachada. Tomou um duche rápido, meteu-se num vestido leve, colorido, disfarçou as olheiras da insónia com três toques de base e maquilhou-se com esmero. Estava bem. Apenas não tinha conseguido comer. Saiu apressada e enfrentou os transportes: camioneta, comboio, metro. Estava no último e continuava sem saber o que dizer. Subitamente, viu-se desacompanhada. Encaminhou-se para a porta e percebeu que chegara à estação terminal. Tinha deixado passar as Laranjeiras, não saíra, não se apercebera. Alguns passageiros impacientavam-se com a sua lentidão na saída, queriam entrar, tinham pressa e suspiravam. Olhou o relógio: meio-dia em ponto. Respirou fundo e o cansaço começou a chegar, aconchegante. Sorriu. Alargou o sorriso e seguiu os passos dos que desapareciam pelo cais, em busca do exterior. Ia tomar um bom pequeno-almoço. A fome surgia, exigente. Telefonaria depois ao Dr. Lourenço. Para pedir desculpa, para se justificar, para agradecer e, claro, para dizer que não podia aceitar. Afinal, não tinha descido na estação certa. Não tinha de ser!
Entrou no metro, rapidamente, e circundou a carruagem com o olhar. Num segundo, percebeu que não havia lugar para se sentar. Tinha os olhos treinados a estes relances. O pescoço magro e a cabeça esguia acompanhavam facilmente o ritmo do olhar. Arrumou-se junto à porta e a mão direita pousou firme no varão. Os olhos mantinham-se atentos. Olhos escuros, sob um arco de sobrancelhas disciplinadas. O corpo direito, franzino, tinha a tensão sossegada da espera. Primeira paragem. Ninguém se levantou. Começou a impacientar-se. É que hoje queria muito sentar-se, precisava de pensar. No fim da viagem tinha de ter uma decisão tomada. A reunião estava marcada para o meio-dia e meio-dia era já daqui a pouco. Pelo canto do olho, pressentiu que alguém se levantara. Tentou a sorte. Moveu-se para o fundo do corredor, decidida, quase ansiosa. Um homem que lhe pareceu desmesurado tinha, de facto, libertado um assento. Instalou-se na repulsa do calor húmido que o banco libertava mas também na urgência da decisão. Sim? Não? Aceitava? Recusava?
Andava assim há uma semana. Um desassossego, uma agitação. Durante as férias, na anual semana de praia com os pais, conhecera finalmente o genro do Dr. Mendonça. Os pais e os Mendonça conheciam-se desde sempre. Frequentavam a mesma praia há anos e anos de conta perdida. Raramente se encontravam ou comunicavam fora desse espaço de veraneio mas, ano após ano, lá estavam, vizinhos de toldo e de conversa preguiçosa. A filha mais velha dos Mendonça, depois do intervalo de juventude, voltara a acompanhar os pais. Vinha com os filhos, praticamente mais um em cada ano, mas sempre sem marido. O genro do Dr. Mendonça era uma pessoa importante. Viajava muito. Esta ausência insistente já dera origem a muito comentário. Ela e os pais divertiam-se a antecipar onde estaria, nesse verão, esse mítico genro do Dr. Mendonça. Pois bem, nestas férias, o senhor apareceu. Era, sem dúvida, um homem importante. Tinha esse ar solto, confiante, de quem decide vidas e lucros. Um dia, à beira da hora de almoço, apercebeu-se de que tinham ficado sozinhos nos respectivos toldos. O jornal dele e o livro dela desculpavam a ausência de comunicação mas, às tantas, ela achou o silêncio embaraçoso e arriscou uma pergunta.
- Então, Dr. Lourenço, finalmente uns dias de descanso, não é? Fica até ao fim do mês?
Ele saiu do jornal, complacente, sorriu e dispôs-se à conversa. Esta tomou imediatamente um rumo seguro; falaram de trabalho.
- Bem gostaria, mas sabe como é, tenho uma reunião na segunda-feira. Amanhã já regresso à capital.
- Que pena! Mal pôde desfrutar deste sol maravilhoso. Bem, na verdade, eu também vou regressar. Este ano, excepcionalmente, vou ter férias repartidas. Mudanças lá no emprego.
- E que faz a Laurinda?
- Trabalho na Biblioteca Nacional, sou responsável pela sala dos periódicos. Já lá estou há vinte e dois anos. Era a minha segunda casa.
Ele interessou-se, começou a fazer perguntas, a puxar por pormenores e ela foi respondendo e falando, e falando. Acabou por escorregar em confidências. Lançou sobre aquele quase-desconhecido todo o desalento do seu mundo. Que vergonha! Como fora capaz! Começara por lhe contar como tinha ido parar à Biblioteca há vinte e dois anos atrás. Tivera sorte. Logo depois de ter concluído o curso, e já conformada com uma carreira de docente, a estrear num escuso liceu de subúrbio, eis que, no metro, encontrou o professor de História Medieval. Ficou contente. Gostava daquele professor. Durante a breve conversa, ele disse-lhe que ia abrir um concurso na Biblioteca Nacional e que devia tentar. Ficou entusiasmada e, depois, profundamente agradecida, pois tinha conseguido o lugar. Gostou logo de tudo. Das funções, das colegas, dos almoços descansados na cantina. Fez lá as grandes amigas. Umas, as mais velhas, eram de conselhos e orientações, outras, jovens como ela, de devaneios e risadas frescas. Com o tempo, as primeiras reformaram-se, as segundas criaram famílias, todas se cansaram. Foram desaparecendo, mesmo que ainda, todas as manhãs, zelosamente, picassem o ponto. E, com os devagares do tempo, chegou a rotina, a chatice, a idiotia, a desilusão.
- E veja só, Dr. Lourenço, agora querem abrir a biblioteca durante a noite. E também à tarde, no sábado. Vamos ter de fazer turnos. Nunca foi preciso e toda a gente pesquisou o que tinha a pesquisar. E agora vai ser assim porque mandam que seja. Vai ser terrível! Sem carro, a ter de apanhar o comboio para regressar a casa, já noite feita…
E ali, em palavras despidas, desamparadas, contou a mágoa, a angústia, a dor de mansinho no peito. E, então, num alarido, os outros chegaram. Vinham a correr para alcançarem rapidamente a sombra apaziguadora do toldo, para se libertarem da areia que, àquela hora, escaldava. Chegou a excitação dos meninos, a água tão boa, quentinha mesmo, e chegou a sua salvação. A sua e a do Dr. Lourenço que, de jornal em desleixo, silenciava a sua incomodidade. Coitado! Quereria lá saber dos periódicos, das pesquisas, da hora de abertura e de fecho de uma obscura biblioteca onde, certamente, nunca tinha ido. Não sabia o que lhe acontecera. Não era seu costume. Sempre fora muito reservada. Simpática, comunicativa, mas reservada, acentuadamente reservada nas suas debilidades e problemas. Falaria de uma constipação, de uma dor nas costas, de uma fuga de gás na cozinha, nunca de solidão ou desânimo. Nunca. Contratempos, sim, todos bem explicados, com os alongados pormenores de conversa de café. Sofrimentos, não. Isso não. E ali na praia, assim, sem mais… Que embaraço. Felizmente, no dia seguinte, já não se encontrariam e as viagens do Dr. Lourenço ocupariam os verões seguintes. A meia-dúzia de horas que antecederam a despedida, no final da tarde, foram preenchidas pelo redemoinho das vozes na sua habitual vibração de férias, de praia, de mar. A despedida foi formal, ambos escudados num constrangimento cúmplice.
Na segunda-feira, entrou no seu gabinete indisposta. Tinha calor, tinha vontade de mar e sol, tinha zanga profunda a estar ali, naquele dia sem jeito nenhum para trabalho que valesse a pena. Não havia urgências. Tinha apenas de fazer uma nota de serviço. Havia uns periódicos muito antigos que queria preservar. Os microfilmes só estariam disponíveis daí a um par de meses mas entretanto não autorizaria a consulta em papel. Mimava com desvelo os seus jornais. Era assim. Achava que tinha de os proteger e estava ali para os poupar ao tempo e ao desrespeito. Livrá-los, sobretudo, de uma rapaziada que chegava no fastio de um trabalho para fazer, de prazo de entrega ao professor no dia de ontem, sem sequer suspeitar que ia ter nas mãos um milagre, um tesouro. A semana de trabalho fora, na verdade, uma semana de tédio que só não tinha sido absoluto porque, pelas tardes, havia umas quantas reuniões, tão animadas quanto inconclusivas, sobre horários e outras mudanças avulso. Na sexta-feira, no rescaldo de mais uma reunião, tinha decidido apanhar ar, andar um pouco. Normalmente apanhava o metro de Entrecampos, bem perto, portanto, mas tentara-se por uma descida, a pé, da Avenida da República. Não seria o passeio ideal mas evitaria, pelo menos, a clausura dos transportes. Morava em Paço d’Arcos e, depois do metro, ainda tomava o comboio e, por fim, uma camioneta que a deixava, então, a poucos metros de casa. Antes de sair, porém, tinha regressado ao gabinete. Queria certificar-se de que deixava tudo em ordem. Espreitou os e-mails, quem sabe, alguma novidade de última hora podia alterar os planos para a próxima semana. Mesmo de pé, foi lendo os endereços, os assuntos. Tudo desinteressante. Quase a libertar-se, um último e-mail tinha-a sobressaltado: nlourenco@gmail.com; proposta de trabalho. Sentou-se. De respiração suspensa, deu dois cliques e o texto ocupou o ecrã. Tentou sossegar-se para ler a mensagem. Os olhos corriam as frases aos saltos, na busca de um entendimento rápido, esclarecedor. No fim, respirou fundo, uma, duas, três vezes, e reiniciou a leitura. Era efectivamente do Dr. Lourenço. Oferecia-lhe trabalho como secretária de um administrador da empresa em … Budapeste. Expansão dos negócios, mercado, leste europeu… sabia da sua insatisfação actual… desafio interessante… e foi por ali abaixo somando as restantes palavras, claramente supérfluas perante a ofuscante realidade do convite. Pedia-lhe uma decisão rápida, uma semana, e deixava o contacto do colega para explicações mais detalhadas. A terminar: Os melhores cumprimentos, Nuno Lourenço. A estupefação colara-a à cadeira. Tinha até medo de acreditar mas o Dr. Lourenço não teria nem tempo, nem lembrança para partidas tolas. Tinha de ser verdade.
Depois de reler a mensagem umas sete vezes, aturdida e com receio de um entusiasmo que viesse a despenhar-se brevemente, acabou por levantar-se. Saiu do gabinete, passou por outras funcionárias, nem bom fim-de-semana nem até segunda, e, já no hall, passou maquinalmente o cartão magnético que fechava o dia de trabalho. Transpôs a porta e encarou o final de tarde, ainda muito quente. A Fernanda, que também saía, falou com ela. Apressou-se a retorquir-lhe, pouco convicta, um bom fim-de-semana para ti também e deixou-a ganhar distância. Felizmente a colega tinha carro, não tentaria acompanhá-la até ao metro. Afinal decidira regressar a casa rapidamente, dispensava o passeio ao ar livre. Queria muito sentar-se no seu sofá e, frente ao televisor, desligar-se daquela notícia que lhe parecia tão fantástica quanto perturbadora.
Esteve em suspenso todo o fim-de-semana. Não se permitiu sonhar sem antes falar com o tal administrador embora mal conseguisse fingir para si própria que tudo continuava igual. Só na quinta-feira, após três telefonemas e cinco e-mails trocados com o colega do Dr. Lourenço, se sentiu verdadeiramente esclarecida. Tinha inclusivamente falado com um amigo seu, advogado. Percebeu naquele momento que apenas faltava o que lhe parecia mais fácil: tomar a decisão. Nessa noite, já semi-adormecida, um frémito atravessou-lhe o corpo. E se estivesse a ser precipitada? E se tudo corresse mal? E se, e se …? Sentou-se na cama, ofegante, alarmada com tantos ses que voltejavam em redor da sua cabeça. Acalmou-se um pouco e arrastou-se até à secretária. Decidiu utilizar um método que já anteriormente, em situações de dúvida, se revelara muito eficaz. Um método que arrumava ideias, concretizava hipóteses, objectivava o que parecia difuso. Pegou numa folha branca e traçou uma linha na vertical. No topo esquerdo, escreveu: vantagens. No topo direito: desvantagens. Foi, então, dispondo, metodicamente, em cada uma das colunas, os dados de que dispunha. Melhor ordenado. Maiores despesas com o alojamento. E assim por diante. Preencheu duas páginas, com a sua letra redonda, bem ajustada à linha. Quando terminou, surpreendeu-se com o facto de ambas as colunas estarem ao mesmo nível. De seguida, leu o que tinha escrito: vantagem, desvantagem, vantagem, desvantagem. Alarmou-se. A cada vantagem correspondia directamente uma desvantagem. Estava verdadeiramente atónita. Como poderia ser? Tinha finalmente recebido a proposta de trabalho que a poderia fazer deixar para trás tudo aquilo que tanto a aborrecia e agora descobria que havia iguais vantagens e desvantagens. Como poderia ser? A falta de um resultado lógico, racional, de provas concludentes, deixou-a petrificada. E foi num crescendo de indecisão e angústia e indecisão que chegou à madrugada de sexta-feira.
Findava a semana que lhe tinham dado para pensar e esperavam uma resposta definitiva, clara. Combinara uma reunião com o Dr. Lourenço na sede da empresa, às Laranjeiras, ao meio-dia. O Dr. Lourenço apresentar-lhe-ia o colega, ajustariam detalhes… Que lhes poderia dizer? De manhã, por volta das nove horas, a decisão ainda pairava sob a forma de um desesperante ponto de interrogação. Não tinha dormido mas sentia-se enérgica, despachada. Tomou um duche rápido, meteu-se num vestido leve, colorido, disfarçou as olheiras da insónia com três toques de base e maquilhou-se com esmero. Estava bem. Apenas não tinha conseguido comer. Saiu apressada e enfrentou os transportes: camioneta, comboio, metro. Estava no último e continuava sem saber o que dizer. Subitamente, viu-se desacompanhada. Encaminhou-se para a porta e percebeu que chegara à estação terminal. Tinha deixado passar as Laranjeiras, não saíra, não se apercebera. Alguns passageiros impacientavam-se com a sua lentidão na saída, queriam entrar, tinham pressa e suspiravam. Olhou o relógio: meio-dia em ponto. Respirou fundo e o cansaço começou a chegar, aconchegante. Sorriu. Alargou o sorriso e seguiu os passos dos que desapareciam pelo cais, em busca do exterior. Ia tomar um bom pequeno-almoço. A fome surgia, exigente. Telefonaria depois ao Dr. Lourenço. Para pedir desculpa, para se justificar, para agradecer e, claro, para dizer que não podia aceitar. Afinal, não tinha descido na estação certa. Não tinha de ser!
Marisa B: A canção
I
Caminhando, sozinho, naquela praia desconhecida, Andhrey passava em revista a sua vida. Não sabia o que fazer. Não sabia onde estava. E mais importante ainda, não sabia como voltar a casa. Sentou-se, por fim, num dos destroços do seu navio. Olhou o mar. Estava tão calmo, tão diferente daquela noite… Aquela fatídica noite. Quanto tempo teria passado? Os dias eram tão longos naquele lugar, que simplesmente perdera o conto. Uma semana? Duas? Mais tempo ainda?
Deixou-se escorregar e deitou-se na areia branca e fina. O céu estava tão azul, a brisa tão fresca, o sol tão brilhante… Pela primeira vez na sua vida, uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto moreno. Ele só queria voltar para casa. Voltar para os braços de Johanna.
Andhrey tinha trinta e oito anos batidos pelo sol, o sal e as intempéries. Era um marinheiro experiente, capitão do Diabolo, navio que, agora, jazia em pedaços a seus pés. Cabelos cor de mel, olhos claros, rosto de traços bem definidos, com lábios grossos. Quando ainda muito pequeno, a mãe morreu-lhe devido à peste. O pai, de quem herdara o gosto pelo mar, deixou a vila onde viviam e partiu rumo à cidade, com ele nos braços. Ansiava por dar uma vida melhor ao seu filho, e fugir da doença.
Andhrey cresceu pelo cais e as docas, sempre rodeado de navios, brincando com outros filhos de marinheiros. O pai, a muito custo, arranjou emprego na Companhia Mercante Real, e raramente estava presente. Entregava-o constantemente aos cuidados de amigos seus. Andhrey entendia; enquanto o pai tivesse emprego, não passariam fome.
Uma das famílias que tomava conta de Andhrey possuía um pequeno estaleiro onde realizavam consertos aos navios. Foi lá que Andhrey aprendeu tudo sobre eles, e encontrou o seu primeiro trabalho. Foi lá também que cresceu o seu amor pela navegação.
Mais tarde, com dezassete anos completos, Andhrey foi mais uma vítima do destino. A embarcação onde o seu pai seguia desapareceu misteriosamente numa tempestade, com toda a tripulação a bordo. Nunca se chegou a encontrar nenhum corpo, nem os destroços do Navarro. Andhrey esperou. Tinha esperança de que o pai voltasse, desse notícias. Contudo, um ano mais tarde, sentiu-se cansado de esperar. Decidiu agir.
Alistou-se como marinheiro num dos barcos da Companhia, o Marianne. Embora a princípio sentisse a dureza do trabalho, rapidamente se habituou. Com esforço e dedicação, integrou-se facilmente, e despertou o interesse do capitão. Era um homem severo, mas atencioso. Ao longo do tempo, ambos passaram a respeitar-se como pai e filho. Durante vários anos, foi neste navio que Andhrey aprendeu todos os seus conhecimentos de navegação através dos ensinamentos do capitão. Inclusive aprendeu a cartografar, e desenhou os seus próprios mapas. Aprendeu sobre si mesmo e sobre os outros. Conheceu a traição e a confiança. Acalmou a necessidade de viver e amadureceu a sua sensatez. No Marianne, Andhrey cresceu.
Aquando dos seus vinte e sete anos, o capitão do Marianne morreu, e Andhrey recusou continuar a integrar a tripulação. Amealhara o suficiente para comprar uma pequena embarcação, e queria libertar-se das amarras da Companhia. Finalmente, tentaria cumprir a promessa que fizera anos mais tarde, quando o pai desaparecera: ia descobrir o que lhe acontecera.
Adquiriu o seu navio de uma pequena companhia mercante. Era semelhante ao Marianne, e tinha muitos anos de uso. Necessitava de sérias reparações. Contudo, Andhrey, com a experiência adquirida na juventude e aperfeiçoada na idade adulta e a ajuda de alguns amigos, em pouco mais de meio ano renovou completamente o barco, tornando-o mais leve e aerodinâmico, embora mantendo a resistência e robustez. Mudou-lhe o nome original – Corazón –, rebaptizando-o de Diabolo.
Depois de formar a tripulação – vinte sete homens dedicados, escolhidos a dedo – lançou-se ao mar. Contudo, não foi capaz de partir imediatamente em busca do pai. Faltou-lhe a coragem. Não sabia bem o que fazer, nem o que ia encontrar, e vacilou. Deu início ao seu próprio negócio. Começou por transportar mercadorias e passageiros para diversos destinos. Decidiu que seria melhor ganhar algum dinheiro e assegurar um futuro antes de se lançar na sua jornada.
Alguns anos depois de estabelecido o seu negócio, já ia nos trinta e três, conheceu Johanna, por quem se apaixonou. Ela trabalhava numa padaria com o pai, perto do estaleiro onde Andhrey cresceu. Era uma rapariga na casa dos vinte, ruiva, franzina e bonita, de olhos grandes, castanhos, e lábios gulosos. Contudo, foi a sua personalidade que cativou Andhrey. Era muito viva e sincera, trabalhadora e carinhosa. Com o tempo e a insistência, Johanna também se agradou dele. Começaram a namoriscar-se. Dois anos depois, e assumido o compromisso, decidiram finalmente casar. Com o dinheiro que Andhrey conseguiu amealhar, comprou uma pequena casa junto às docas, para onde se mudaram. Um ano mais tarde, pelo Natal, nasceu o primeiro filho, um rapaz gordinho a quem deram o nome de William. Andhrey estava feliz. Sentia que a sua vida estava completa.
Mas, numa tempestuosa noite de Março, Andhrey encontrava-se com os seus marujos n’O Ancorado, a taberna das docas mais popular entre os marinheiros da região. Lá, ouviu um agastado marinheiro da Companhia Mercante Real contar, por entre canecas de cerveja, que mais dois navios tinham desaparecido sem rasto, em menos de três meses, numa enigmática tempestade perto de uma pequena ilha, a alguns dias de distância da costa. Andhrey sobressaltou-se. Fora naquele mesmo local, nas mesmas condições, que o seu pai tinha desaparecido no Navarro quando ele era pequeno. Subitamente, lembrou-se da promessa que fizera e sentiu remorsos por nunca a ter cumprido. O seu pai não o perdoaria. Para ele, uma promessa tinha sempre de ser cumprida; caso não fosse possível cumpri-la, nunca deveria ser feita. Fora assim que fora educado. Teria de, mais cedo ou mais tarde, partir. Aproximou-se do homem, pagou-lhe mais uma cerveja e pediu-lhe informações sobre o sucedido com os navios.
Soube que, na zona onde os barcos desapareciam, existia uma ilha, sempre envolta em brumas, da qual muito poucos gostavam de se aproximar. Fora bem documentada em antigas lendas folclóricas locais, muito antes da implementação do Cristianismo vigente. Era sempre referida como uma espécie de ligação ou limbo, um local de diálogo entre as dimensões divina e terrena, para onde eram enviadas as entidades divinas expulsas da sua dimensão pelo Deus-Rei, chamado simplesmente de Pai. Curiosamente, da ilha nunca se soube o nome. O velho marinheiro, na sua pouco sóbria embriaguez, acreditava que todos os desaparecimentos eram obra de um Pai enfurecido por o terem atirado para o esquecimento, com a chegada dos padres.
Andhrey não acreditava em Deuses nem temia a fúria do Pai. Queria apenas perceber o que acontecera com o seu pai, e cumprir a sua promessa. Por isso, no dia seguinte, foi consultar alguns mapas de navegação da Companhia, na esperança de encontrar cartografada a dita ilha. Teve sorte. Contudo, mais perigosa do que qualquer divindade, era a própria região. A ilha era rodeada por quilómetros consideráveis de águas baixas, bancos de areia e muitos recifes de coral e rochas – um pesadelo para qualquer navio de médio-grande porte como o seu. Mas não podia desistir. Teria de ter cuidado e não se aproximar demasiado.
Preparou a viagem com cautela e tempo. Não se sentia propriamente ansioso de deixar Johanna e William, ainda bebé. Portanto, procedeu sem pressas. Quando anunciou à sua mulher que iria partir, esta entrou em choque e chorou toda a noite. Teve medo pelo marido, medo que ele não voltasse. Andhrey sossegou-a meigamente. Nada aconteceria e em poucos meses estaria de volta. “Promete-me.” Mesmo correndo o risco de falhar desta vez, Andhrey prometeu.
Depois de completar os seus trinta e oito anos zarpou, finalmente, em busca da verdade. Sentia-se apreensivo, assim como toda a tripulação. Sabiam que corriam o risco de não voltar, tal como os outros navios não tinham voltado. No entanto, a viagem correu bem nos primeiros dias, e a moral dos marinheiros manteve-se à tona.
Uma noite, porém, de mares pouco agitados e lânguidos ventos, quando já estavam perto, Andhrey despertou do seu sono leve e sentiu-a. Sentiu-a mais do que a ouviu. Uma voz feminina, doce, mas enraivecida, que cantava num idioma desconhecido. Ao sabor do seu cântico, as águas insurgiram-se num crescendo contra o navio e os ventos despertaram do seu hipnótico sono. O apelo da música aos ventos e mares subia de tom, nunca cessando, à medida que os marinheiros aterrorizados tentavam de tudo para controlar a embarcação, já de velas desfeitas. Não sabiam ao certo para onde as loucas vagas os levavam, pois pouco se conseguia ver na escuridão. Escassos momentos depois souberam – sentiram por baixo deles o casco embater em algo e desfazer-se. O navio inclinou-se tanto que quase ficou na horizontal. Os marinheiros eram atirados borda fora e levados pelas águas, para nunca mais serem vistos. O Diabolo desfez-se ao ser empurrado para as rochas. Andhrey foi brutalmente atirado à água e só conseguiu agarrar-se ao que restava de uma tábua do convés, antes de voltar a ser engolido pelas ondas. Via os seus companheiros em pânico, que tentavam agarrar-se a algo ou fugir a nado para a praia que, embora distante, já aparecia no horizonte. Já não tinha forças para lutar contra o mar, que o puxava impetuosamente para o fundo e o arrastava gradualmente em direcção à praia. Com a vista turva e a certeza de que não sobreviveria, Andhrey distinguia, por entre todo o alarido da tempestade, a voz sedutora que desencadeava aquela tormenta cada vez com mais nitidez. Embora não percebesse o que dizia nem o idioma que falava, conseguia distinguir certas palavras no meio do emaranhado de sons que se aglutinavam por entre a melodia do vento e das águas iradas. Sentia a sua voz cada vez mais perto. Pouco antes de desmaiar, viu-a. Desviara o olhar para o alto de uma escarpa que se agigantava sobre as águas, junto à praia, e observara, recortada no negrume dos céus e ladeada por fervorosos relâmpagos que começavam a despontar das nuvens, uma silhueta feminina de braços abertos ao horizonte, com leves roupas claras que pareciam iluminá-la e compridos cabelos louros dançando colericamente ao sabor do vento. Sentiu-a, mais do que a viu, desviar o olhar para o lugar onde ele, sem forças, lutava para se manter consciente e à superfície. Porém, no momento em que lhe parecera avistar um sorriso a desenhar-se nos lábios já indefinidos da mulher, desfaleceu.
II
Quando recobrou a consciência, Andhrey encontrava-se no mesmo lugar onde agora se achava deitado, juntamente com o que restava do Diabolo. Atrás de si crescia uma imensa floresta cerrada, onde o sol mal perpassava a folhagem. O mar calmo, de águas transparentes, estendia-se infinitamente até ao horizonte. Do lado esquerdo terminava a praia junto à escarpa onde vira, ou julgara ver, a mulher que cantava aos ventos. Para o seu lado direito, a praia continuava até perder de vista, numa curva que parecia penetrar na floresta. A calmaria que pairava naquele lugar desde o momento do naufrágio era insana, absurda. Andhrey sentia-se enervado. Levantou-se. A brisa fresca de Verão envolveu-o nos seus braços como a um precioso amante, afagando-lhe os cabelos e beijando-lhe o rosto. Tentava dar-lhe a inevitavelmente falsa sensação de paz e segurança que aquela maldita ilha nunca poderia salvaguardar.
Percorrera todo o comprimento da praia até esta terminar, e não encontrara nada nem ninguém. Os corpos dos seus companheiros desapareceram sem deixar rasto, e não se via ou ouvia mais nada para além do mar e do restolhar de folhas vindo da floresta. Não encontrava aves ou outras formas de vida, para além dos peixes que apanhava para comer, junto de um pequeno riacho que desaguava junto à escarpa, onde ia beber água. Mas não podia ficar ali para sempre. Já se tinha passado muito tempo – quanto, não tinha a certeza. Estava na hora de adentrar na floresta.
Dirigiu-se para junto desta, e apoiou-se numa enorme palmeira. Não sabia o que iria encontrar, e não tinha nada consigo que pudesse usar como arma para se defender. Nunca na sua vida se tinha sentido tão indefeso. Mas não podia hesitar. Avançou, a passos firmes, por entre a vegetação rasteira, desviando-se das árvores exóticas que ali, parecia, tinham nascido como cogumelos. O ar era pesado, abafado e muito húmido. A luz era metodicamente filtrada por entre as folhas e lianas, que mal lhe tocavam as mãos, tão altos estavam os ramos. Não se ouviam cantares de pássaros, nem se viam rastos de animais. Toda a floresta era reduzida apenas ao murmurar das árvores.
Continuou por ela, sem saber ao certo onde esta o levaria, ou o que iria encontrar. Talvez vivesse alguém ali. Ouvira muitas histórias sobre ilhas em que tinham sido descobertas aldeias de gente estranha, com pele escura e pintada. Quem sabe se não estaria numa ilha assim? Quem sabe se não encontraria alguém que o ajudasse a sair daquele fim de mundo? Queria tanto voltar a casa. Mas sabia que, se não conseguisse sair dali por si mesmo, ninguém o viria procurar. Não ali.
Continuou a caminhar por muito tempo, horas talvez, quantas nunca soube, até que começou a ouvir um rumorejar que parecia o de água corrente. Seria um rio? Troava demasiado alto para ser um simples riacho na floresta. Apressou o passo na direcção do som, que se tornava cada vez mais alto à medida que se aproximava. Em pouco tempo, encontrou-o. Um rio profundo, mas não muito largo, corria alegre e velozmente. Se o seguisse numa das direcções, talvez encontrasse alguém, ou alguma coisa, que o ajudasse. Decidiu seguir o rio em direcção à foz. Ainda pouco andara, já caíra a noite. Não podia continuar, principalmente não conhecendo a região. Aninhou-se debaixo de uma grande árvore e, a custo, lá adormeceu.
Acordou, ainda mal o sol começara a despontar, com a sensação de não estar sozinho. Levantou-se rapidamente e perscrutou a escuridão da floresta. Ainda foi a tempo de ver a cauda de um vestido branco e as pontas de uns cabelos louros fulgurantes esconderem-se atrás de uma árvore. Lembrou-se da rapariga na noite do naufrágio. Afinal era real. Existia mesmo alguém naquela ilha. Correu na direcção de onde ela tinha desaparecido, mas não a encontrou. Subitamente, ouviu um leve e alegre riso de mulher ecoando na floresta, por trás de si. Voltou-se, mas só teve tempo de ver um reflexo luminoso a fugir novamente por trás de outra árvore. Andhrey decidiu voltar para junto do rio e continuar a sua caminhada, receoso de penetrar demais na floresta e acabar perdido.
Ainda o sol não ia alto, já tinha chegado. Ali estava de novo o mar à sua frente, a perder de vista. Nas margens do rio formara-se uma pequena praia fluvial. Na outra margem, os juncos tinham nascido como cogumelos. Pela primeira vez, encontrou animais que não peixes – várias libélulas e outros insectos que não reconheceu pululavam nas águas paradas junto da margem. Contudo, não foi só isso que encontrou.
Diante dos seus olhos jaziam os despojos de várias embarcações. Restos de corda, tábuas, âncoras, tecido das velas, pedaços do mastro, barris desfeitos. A água e a praia estavam pejadas dos testemunhos de inúmeros naufrágios – pela degradação de alguns destroços, certos navios teriam naufragado ali há muitos anos. O estômago vazio de Andhrey deu voltas de nervosismo. Estaria ali o barco do seu pai?
Procurou pela praia, mas nenhum dos destroços correspondia ao que se lembrava do Navarro. Entrou na água, vasculhando o que encontrava. As carcaças dos navios que por ali se aninhavam eram-lhe completamente desconhecidas. Contudo, o seu olhar deteve-se em algo muito familiar. Na outra margem, sobressaía uma âncora meio enterrada na água. Andhrey nadou até lá, sem tirar o olhar dela. O seu nervosismo cresceu. Reconhecia-a. Era ela, tinha quase a certeza.
Chegou junto da âncora e começou a procurar. Já estava muito degradada e escura, mas ainda sentiria as gravações na parte cimeira, se lá estivessem. Segundos depois, encontrou-as. Libertad. Viam-se muito mal, mas ainda assim conseguiam ler-se algumas das letras. Fora o seu próprio pai que as gravara. Era sem dúvida a âncora do Navarro.
Finalmente, sabia o que acontecera ao pai. O Navarro naufragara ali, tal como naufragara o Diabolo. Não havia sinal de vida naquela ilha – provavelmente, e passados tantos anos, mesmo que o seu pai tivesse sobrevivido ao naufrágio, já estaria morto. Foi no meio destes pensamentos que notou. Junto à floresta, nessa margem, encontrava-se uma jangada. Era antiga – muitos troncos já estavam soltos e as lianas que ainda mantinham os restantes seguros uns aos outros mostravam-se quebradiças. Contudo, deu-lhe certezas. Não fora o único sobrevivente a ficar preso naquela ilha. Quem quer que lá tenha estado antes tentou, também, fugir – e não foi bem sucedido, pois a jangada estava ainda ali. Pela primeira vez, sentiu medo. Não queria apodrecer naquela ilha para sempre. Queria voltar para casa, ver Johanna, abraçar o seu filho. Teria de arranjar maneira de fugir.
Repentinamente, ouviu um cantar suave vindo da floresta. Não reconhecia as palavras, mas o tom era-lhe familiar. Imediatamente, soube. Era a mesma mulher que cantara aquando do naufrágio. Era certamente ela quem ele, por vezes, sentia segui-lo na floresta. Era certamente ela que se escondia por entre as árvores assim que ele dava conta de que estava a ser observado. Se aquela mulher morava realmente ali, sabia certamente como sair. Talvez até existisse uma qualquer aldeia na floresta. A mulher era o único sinal de civilização que dava mostras de ainda existir por aquelas paragens. Teria de a encontrar.
Entrou na floresta, seguindo o cantar da mulher. À medida que avançava por entre as árvores e penetrava mais no interior, ouvia-a cada vez mais nítida. Parecia que a mulher cantava propositadamente para ele, esperando que seguisse a sua voz até a encontrar. Serpenteou por entre as árvores durante, parecera-lhe, quase uma hora, a voz da mulher sempre cantando, num crescendo. Subitamente, as árvores acabaram. Andhrey parou, de queixo caído. Nada o teria preparado para o que estava a ver naquele momento.
Encontrava-se numa imensa clareira relvada, bordada a flores. Várias casas nasciam da relva aqui e ali, como que formando uma minúscula aldeia. Contou-as – sete no total. As paredes estavam cobertas de heras e outras plantas, e as pedras que as compunham mostravam-se escurecidas. Os telhados de grande parte delas tinham simplesmente desabado. As pequenas delimitações na frente das casas, que supôs terem sido jardins, mal se distinguiam no meio da erva e das flores. O canto da mulher tinha parado.
Andhrey entrou vagarosamente naquele povoado abandonado, demorando os seus olhos pelas casas. Várias borboletas esvoaçavam aqui e ali, e um coelho fugiu, assustado com o som dos seus passos. Junto da última casa, no final da clareira, viu finalmente a mulher. Encontrava-se sentada nos destroços de uma das paredes da casa. Era loura, de cabelos ondulados muito brilhantes e compridos. O seu rosto era belo, o mais belo que alguma vez vira. A sua pele mostrava-se branca, com lábios rosados e grossos. Um olhar verde que, ao desviar-se para ele, logo o pregou ao chão, tão intenso era. O vestido que envergava, reconheceu-o logo. Era o mesmo que se lembrava de vislumbrar na noite do naufrágio, esvoaçando ao vento. Era branco, tão branco que dava a sensação de brilhar, de um tecido leve e solto, que lhe vincava as elegantes formas do seu corpo. O carisma daquela mulher era tão avassalador, que Andhrey não conseguia deixar de olhar para ela. Ela sorriu-lhe, com um sorriso alegre e sedutor. A rapariga estava descalça, e brincava com os seus pezinhos pequenos na relva.
Não tenhas medo, sussurrava uma voz ao seu ouvido. Contudo, a mulher não falava. Limitava-se a olhar para ele e sorrir. Aquelas três palavras suaves arrepiaram-no.
- Quem és?
- Se é o meu nome que queres saber, chamo-me Ayalla. – desta vez, foi a mulher que falou. A sua voz era melodiosa. Repentinamente, lembrou-se da história que o velho marinheiro lhe contou na taberna. Não soube bem porquê.
- O que és?
- Já sabes a resposta. – a mulher riu-se suavemente, e levantou-se, ajeitando o vestido. – Não sou humana.
- Então, o velho tinha razão. És uma deusa.
- Muitas são as coisas que se dizem, ainda mais aquelas que se ouvem. Mas poucas são verdade. – aproximou-se de uma árvore e, deslizando a mão pelo tronco, desapareceu por detrás dela. Antes sequer de Andhrey poder mover-se, já ela estava atrás de si, sussurrando-lhe ao ouvido. – A verdade é que não, não sou uma deusa. Sou uma ninfa. A ninfa desta ilha.
- Então diz-me, onde estou? Existe mais alguém aqui? Como posso voltar para casa? – voltou-se para a olhar nos olhos.
- Tantas perguntas sem necessidade de resposta. – o sorriso de Ayalla esmoreceu um pouco. – O que precisas de saber é que encontraste o paraíso. Podes ficar aqui comigo, para sempre. Serás feliz, prometo-te.
- Responde-me. – a sua expressão endureceu, assim como a de Ayalla, que via inglórios os seus esforços de seduzir aquele homem.
- Esta ilha não tem nome. O Pai criou-a, assim como criou tudo o que existe. Criou-a para manter aberta uma ponte entre esta dimensão e a Dele. Pensa nesta ilha como uma espécie de limbo, onde o humano e o divino coexistem. Dantes, habitaram aqui, aqui mesmo nestas casas, mais algumas ninfas, como eu. – o seu semblante tornou-se, subitamente, assustador. – E alguns homens como tu. Marinheiros. Náufragos. Sempre tentámos protegê-los aquando de um naufrágio, trazê-los para terra sãos e salvos. Temos o poder de controlar os elementos. Contudo, quando se entra no perímetro desta ilha, já não se pode voltar a sair. Os marinheiros culparam-nos pelo sucedido, e muitas de nós morreram às suas mãos. Podemos ser ninfas e viver eternamente, mas não temos o poder de ressuscitar mortos ou curar ferimentos.
- Então, os navios naufragados na foz do rio…
- São dos homens que tentámos proteger. Dos homens que nos traíram.
- O meu pai vinha num desses navios.
- A minha última companheira morreu às mãos dos últimos homens que aqui estiveram. Tenho vivido escondida desde então. Não sei quem era o teu pai, mas não está mais ninguém vivo nesta ilha para além de mim. Todos os morreram, ou mataram-se.
- Diz-me, por favor, como posso sair daqui. Deves saber qual a saída.
- Não ouviste o que estive a dizer-te? Não há saída. Foi por isso mesmo que muitos de vós enlouqueceram.
- Mas eu não posso ficar aqui. Tenho que voltar para minha casa, para a minha mulher. – sem aviso, Ayalla beijou-o. Andhrey foi apanhado tão de surpresa que nem soube o que fazer.
- Vejo que a amas. – disse a ninfa, quando o largou. – Ela é muito bonita. Mas deixa-a. Está perdida. Não a podes ter, nunca mais. Aceita isso, e fica comigo. Se o fizeres, não mais terás de sofrer. Por favor. Sou tão solitária. Não me deixes sozinha novamente…
- Deixa-me! – Andhrey empurrou-a com tanta força, que Ayalla caiu no meio das flores. – Vou sair daqui, com a tua ajuda ou sem ela.
III
Correu de novo para a floresta, o mais rápido que pôde. Ainda ouviu a ninfa chorar e gritar de frustração, mas não podia voltar para trás. Tinha de sair dali. Inesperadamente, lembrou-se da jangada que encontrara. Ia tentar consertá-la. Não encontrava outra alternativa. Correu até não conseguir mais, desejoso de chegar. No fim de um longo tempo, que não conseguiu calcular ao certo, chegou de novo à praia, junto da jangada desfeita. Os troncos estavam em bom estado; só precisaria de corda, ou lianas novas, para os unir.
Entrou de novo na floresta, mas apenas o razoável para encontrar lianas grossas e fortes o suficiente. Voltou para junto da velha jangada e substituiu todas as lianas velhas e quebradiças pelas novas que apanhara. Apertou-as fortemente. No fim de satisfeito com o resultado, procurou um pedaço de madeira suficientemente robusto e comprido para transformar em remo. Improvisou algo com uma tábua de um dos barcos naufragados que encontrou na areia. Anoiteceria dentro de algumas horas mas, embora fosse imprudente lançar-se à água, achou ainda mais imprudente ficar em terra. Meteu a jangada na água e lançou-se à sua sorte.
Remou na direcção do horizonte, afastando-se o mais que podia da costa. No fim de um tempo, deixou de a ver. Anoiteceu. Andhrey tentou não dormir. Continuou a remar sempre que o cansaço lhe permitia, desesperado por uma saída. Nunca mudou de direcção, pelo menos conscientemente. Como não sabia para onde se dirigir, decidiu continuar em linha recta, na direcção do horizonte. Assim, pensou, não correria o risco de andar em círculos e aproximar-se de terra. Durante muitas e muitas horas, ou pelo menos isso lhe pareceram, permaneceu acordado; no entanto, o cansaço falou mais alto. Começou a cabecear de tanto sono. Deitou-se um pouco na jangada, sem intenção de adormecer, mas acabou por não conseguir evitá-lo.
Quando acordou, já o sol o saudava. Sentia-se exausto, com fome, com sede. Agora, de cabeça fria, apercebeu-se da sua imprudência. Como conseguiria sobreviver sem água ou comida, no meio do oceano? Fora demasiado precipitado. Porém, todas essas preocupações passaram rapidamente para segundo plano. Mesmo à sua frente, estava a foz do rio, o exacto local de onde partira. Ayalla tinha razão – era possível entrar naquela ilha, mas já não havia hipótese de sair. Os últimos pedaços de esperança que o seu coração conservava estilhaçaram-se. Nunca mais veria a mulher e o filho. Falhara na promessa que lhe fizera, apenas para cumprir uma promessa feita enquanto miúdo, a um homem que sabia estar morto. Nunca se perdoaria.
Remou para terra, de coração pesado. Largou a jangada à beira da água e estendeu-se na areia. Fechou os olhos. Queria adormecer, adormecer e não mais acordar. De repente, ouviu uma canção arrastar-se pelo ar à sua volta. Ayalla. O seu cantar aproximava-se por detrás de si, vindo da floresta. Não fez tenção de se mexer. Já não queria saber. Subitamente, o cantar parou. Andhrey só ouvia, agora, uma palavra na sua cabeça. Vem. Repetia-se, pausada e incessantemente, mas não era Ayalla que falava. Andhrey conhecia muito bem aquela voz. O seu coração apertou-se.
Vem.
Andhrey voltou-se, e lá estava ela. A sua mulher. Mas como? Como conseguira ela chegar ali? Olhou-a nos olhos, uns olhos verdes que nunca lhe vira. Sentiu-se zonzo; tentou levantar-se mas caiu na areia. Na sua mente rodopiava uma névoa branca. Não conseguia pensar em nada. Johanna não se mexeu do seu nicho junto à entrada da floresta mas, repentinamente, a imagem esfumou-se e, afinal, era Ayalla quem estava ali. Piscou os olhos, confuso e atordoado, com a vista turva, e rastejou na direcção dela. Continuava a ouvir o mesmo chamamento. Vem.
- Johanna… – rastejou até Ayalla e sucumbiu ao seu suave abraço. Fechou os olhos. Ouviu-a rir. Adormeceu.
De repente, serenou. Apercebeu-se, era ali que pertencia. Como se pudera ter esquecido? Nascera ali. Na pequena aldeia perdida no meio da clareira verdejante e coberta de flores. Ayalla era a mulher com quem fora destinado a casar. Se voltasse à aldeia, decerto veria de novo a sua mãe, com um sorriso rasgado no rosto rosado, no umbral da porta à sua espera, e o pai chegando a casa juntamente com os outros homens, com os peixes ou coelhos que apanhara para jantar. Encontraria a irmã que nunca teve a brincar por entre as flores, e os amigos que desconhece a brincar na orla da floresta. Tantas memórias que nunca vivera. Eram verdade? Esquecera-se. Mas como se esquecera ele delas, como? Só um nome ressoava na sua cabeça, um nome tão nostálgico, mas que já não reconhecia, embora lhe fosse terrivelmente familiar.
Johanna…
Caminhando, sozinho, naquela praia desconhecida, Andhrey passava em revista a sua vida. Não sabia o que fazer. Não sabia onde estava. E mais importante ainda, não sabia como voltar a casa. Sentou-se, por fim, num dos destroços do seu navio. Olhou o mar. Estava tão calmo, tão diferente daquela noite… Aquela fatídica noite. Quanto tempo teria passado? Os dias eram tão longos naquele lugar, que simplesmente perdera o conto. Uma semana? Duas? Mais tempo ainda?
Deixou-se escorregar e deitou-se na areia branca e fina. O céu estava tão azul, a brisa tão fresca, o sol tão brilhante… Pela primeira vez na sua vida, uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto moreno. Ele só queria voltar para casa. Voltar para os braços de Johanna.
Andhrey tinha trinta e oito anos batidos pelo sol, o sal e as intempéries. Era um marinheiro experiente, capitão do Diabolo, navio que, agora, jazia em pedaços a seus pés. Cabelos cor de mel, olhos claros, rosto de traços bem definidos, com lábios grossos. Quando ainda muito pequeno, a mãe morreu-lhe devido à peste. O pai, de quem herdara o gosto pelo mar, deixou a vila onde viviam e partiu rumo à cidade, com ele nos braços. Ansiava por dar uma vida melhor ao seu filho, e fugir da doença.
Andhrey cresceu pelo cais e as docas, sempre rodeado de navios, brincando com outros filhos de marinheiros. O pai, a muito custo, arranjou emprego na Companhia Mercante Real, e raramente estava presente. Entregava-o constantemente aos cuidados de amigos seus. Andhrey entendia; enquanto o pai tivesse emprego, não passariam fome.
Uma das famílias que tomava conta de Andhrey possuía um pequeno estaleiro onde realizavam consertos aos navios. Foi lá que Andhrey aprendeu tudo sobre eles, e encontrou o seu primeiro trabalho. Foi lá também que cresceu o seu amor pela navegação.
Mais tarde, com dezassete anos completos, Andhrey foi mais uma vítima do destino. A embarcação onde o seu pai seguia desapareceu misteriosamente numa tempestade, com toda a tripulação a bordo. Nunca se chegou a encontrar nenhum corpo, nem os destroços do Navarro. Andhrey esperou. Tinha esperança de que o pai voltasse, desse notícias. Contudo, um ano mais tarde, sentiu-se cansado de esperar. Decidiu agir.
Alistou-se como marinheiro num dos barcos da Companhia, o Marianne. Embora a princípio sentisse a dureza do trabalho, rapidamente se habituou. Com esforço e dedicação, integrou-se facilmente, e despertou o interesse do capitão. Era um homem severo, mas atencioso. Ao longo do tempo, ambos passaram a respeitar-se como pai e filho. Durante vários anos, foi neste navio que Andhrey aprendeu todos os seus conhecimentos de navegação através dos ensinamentos do capitão. Inclusive aprendeu a cartografar, e desenhou os seus próprios mapas. Aprendeu sobre si mesmo e sobre os outros. Conheceu a traição e a confiança. Acalmou a necessidade de viver e amadureceu a sua sensatez. No Marianne, Andhrey cresceu.
Aquando dos seus vinte e sete anos, o capitão do Marianne morreu, e Andhrey recusou continuar a integrar a tripulação. Amealhara o suficiente para comprar uma pequena embarcação, e queria libertar-se das amarras da Companhia. Finalmente, tentaria cumprir a promessa que fizera anos mais tarde, quando o pai desaparecera: ia descobrir o que lhe acontecera.
Adquiriu o seu navio de uma pequena companhia mercante. Era semelhante ao Marianne, e tinha muitos anos de uso. Necessitava de sérias reparações. Contudo, Andhrey, com a experiência adquirida na juventude e aperfeiçoada na idade adulta e a ajuda de alguns amigos, em pouco mais de meio ano renovou completamente o barco, tornando-o mais leve e aerodinâmico, embora mantendo a resistência e robustez. Mudou-lhe o nome original – Corazón –, rebaptizando-o de Diabolo.
Depois de formar a tripulação – vinte sete homens dedicados, escolhidos a dedo – lançou-se ao mar. Contudo, não foi capaz de partir imediatamente em busca do pai. Faltou-lhe a coragem. Não sabia bem o que fazer, nem o que ia encontrar, e vacilou. Deu início ao seu próprio negócio. Começou por transportar mercadorias e passageiros para diversos destinos. Decidiu que seria melhor ganhar algum dinheiro e assegurar um futuro antes de se lançar na sua jornada.
Alguns anos depois de estabelecido o seu negócio, já ia nos trinta e três, conheceu Johanna, por quem se apaixonou. Ela trabalhava numa padaria com o pai, perto do estaleiro onde Andhrey cresceu. Era uma rapariga na casa dos vinte, ruiva, franzina e bonita, de olhos grandes, castanhos, e lábios gulosos. Contudo, foi a sua personalidade que cativou Andhrey. Era muito viva e sincera, trabalhadora e carinhosa. Com o tempo e a insistência, Johanna também se agradou dele. Começaram a namoriscar-se. Dois anos depois, e assumido o compromisso, decidiram finalmente casar. Com o dinheiro que Andhrey conseguiu amealhar, comprou uma pequena casa junto às docas, para onde se mudaram. Um ano mais tarde, pelo Natal, nasceu o primeiro filho, um rapaz gordinho a quem deram o nome de William. Andhrey estava feliz. Sentia que a sua vida estava completa.
Mas, numa tempestuosa noite de Março, Andhrey encontrava-se com os seus marujos n’O Ancorado, a taberna das docas mais popular entre os marinheiros da região. Lá, ouviu um agastado marinheiro da Companhia Mercante Real contar, por entre canecas de cerveja, que mais dois navios tinham desaparecido sem rasto, em menos de três meses, numa enigmática tempestade perto de uma pequena ilha, a alguns dias de distância da costa. Andhrey sobressaltou-se. Fora naquele mesmo local, nas mesmas condições, que o seu pai tinha desaparecido no Navarro quando ele era pequeno. Subitamente, lembrou-se da promessa que fizera e sentiu remorsos por nunca a ter cumprido. O seu pai não o perdoaria. Para ele, uma promessa tinha sempre de ser cumprida; caso não fosse possível cumpri-la, nunca deveria ser feita. Fora assim que fora educado. Teria de, mais cedo ou mais tarde, partir. Aproximou-se do homem, pagou-lhe mais uma cerveja e pediu-lhe informações sobre o sucedido com os navios.
Soube que, na zona onde os barcos desapareciam, existia uma ilha, sempre envolta em brumas, da qual muito poucos gostavam de se aproximar. Fora bem documentada em antigas lendas folclóricas locais, muito antes da implementação do Cristianismo vigente. Era sempre referida como uma espécie de ligação ou limbo, um local de diálogo entre as dimensões divina e terrena, para onde eram enviadas as entidades divinas expulsas da sua dimensão pelo Deus-Rei, chamado simplesmente de Pai. Curiosamente, da ilha nunca se soube o nome. O velho marinheiro, na sua pouco sóbria embriaguez, acreditava que todos os desaparecimentos eram obra de um Pai enfurecido por o terem atirado para o esquecimento, com a chegada dos padres.
Andhrey não acreditava em Deuses nem temia a fúria do Pai. Queria apenas perceber o que acontecera com o seu pai, e cumprir a sua promessa. Por isso, no dia seguinte, foi consultar alguns mapas de navegação da Companhia, na esperança de encontrar cartografada a dita ilha. Teve sorte. Contudo, mais perigosa do que qualquer divindade, era a própria região. A ilha era rodeada por quilómetros consideráveis de águas baixas, bancos de areia e muitos recifes de coral e rochas – um pesadelo para qualquer navio de médio-grande porte como o seu. Mas não podia desistir. Teria de ter cuidado e não se aproximar demasiado.
Preparou a viagem com cautela e tempo. Não se sentia propriamente ansioso de deixar Johanna e William, ainda bebé. Portanto, procedeu sem pressas. Quando anunciou à sua mulher que iria partir, esta entrou em choque e chorou toda a noite. Teve medo pelo marido, medo que ele não voltasse. Andhrey sossegou-a meigamente. Nada aconteceria e em poucos meses estaria de volta. “Promete-me.” Mesmo correndo o risco de falhar desta vez, Andhrey prometeu.
Depois de completar os seus trinta e oito anos zarpou, finalmente, em busca da verdade. Sentia-se apreensivo, assim como toda a tripulação. Sabiam que corriam o risco de não voltar, tal como os outros navios não tinham voltado. No entanto, a viagem correu bem nos primeiros dias, e a moral dos marinheiros manteve-se à tona.
Uma noite, porém, de mares pouco agitados e lânguidos ventos, quando já estavam perto, Andhrey despertou do seu sono leve e sentiu-a. Sentiu-a mais do que a ouviu. Uma voz feminina, doce, mas enraivecida, que cantava num idioma desconhecido. Ao sabor do seu cântico, as águas insurgiram-se num crescendo contra o navio e os ventos despertaram do seu hipnótico sono. O apelo da música aos ventos e mares subia de tom, nunca cessando, à medida que os marinheiros aterrorizados tentavam de tudo para controlar a embarcação, já de velas desfeitas. Não sabiam ao certo para onde as loucas vagas os levavam, pois pouco se conseguia ver na escuridão. Escassos momentos depois souberam – sentiram por baixo deles o casco embater em algo e desfazer-se. O navio inclinou-se tanto que quase ficou na horizontal. Os marinheiros eram atirados borda fora e levados pelas águas, para nunca mais serem vistos. O Diabolo desfez-se ao ser empurrado para as rochas. Andhrey foi brutalmente atirado à água e só conseguiu agarrar-se ao que restava de uma tábua do convés, antes de voltar a ser engolido pelas ondas. Via os seus companheiros em pânico, que tentavam agarrar-se a algo ou fugir a nado para a praia que, embora distante, já aparecia no horizonte. Já não tinha forças para lutar contra o mar, que o puxava impetuosamente para o fundo e o arrastava gradualmente em direcção à praia. Com a vista turva e a certeza de que não sobreviveria, Andhrey distinguia, por entre todo o alarido da tempestade, a voz sedutora que desencadeava aquela tormenta cada vez com mais nitidez. Embora não percebesse o que dizia nem o idioma que falava, conseguia distinguir certas palavras no meio do emaranhado de sons que se aglutinavam por entre a melodia do vento e das águas iradas. Sentia a sua voz cada vez mais perto. Pouco antes de desmaiar, viu-a. Desviara o olhar para o alto de uma escarpa que se agigantava sobre as águas, junto à praia, e observara, recortada no negrume dos céus e ladeada por fervorosos relâmpagos que começavam a despontar das nuvens, uma silhueta feminina de braços abertos ao horizonte, com leves roupas claras que pareciam iluminá-la e compridos cabelos louros dançando colericamente ao sabor do vento. Sentiu-a, mais do que a viu, desviar o olhar para o lugar onde ele, sem forças, lutava para se manter consciente e à superfície. Porém, no momento em que lhe parecera avistar um sorriso a desenhar-se nos lábios já indefinidos da mulher, desfaleceu.
II
Quando recobrou a consciência, Andhrey encontrava-se no mesmo lugar onde agora se achava deitado, juntamente com o que restava do Diabolo. Atrás de si crescia uma imensa floresta cerrada, onde o sol mal perpassava a folhagem. O mar calmo, de águas transparentes, estendia-se infinitamente até ao horizonte. Do lado esquerdo terminava a praia junto à escarpa onde vira, ou julgara ver, a mulher que cantava aos ventos. Para o seu lado direito, a praia continuava até perder de vista, numa curva que parecia penetrar na floresta. A calmaria que pairava naquele lugar desde o momento do naufrágio era insana, absurda. Andhrey sentia-se enervado. Levantou-se. A brisa fresca de Verão envolveu-o nos seus braços como a um precioso amante, afagando-lhe os cabelos e beijando-lhe o rosto. Tentava dar-lhe a inevitavelmente falsa sensação de paz e segurança que aquela maldita ilha nunca poderia salvaguardar.
Percorrera todo o comprimento da praia até esta terminar, e não encontrara nada nem ninguém. Os corpos dos seus companheiros desapareceram sem deixar rasto, e não se via ou ouvia mais nada para além do mar e do restolhar de folhas vindo da floresta. Não encontrava aves ou outras formas de vida, para além dos peixes que apanhava para comer, junto de um pequeno riacho que desaguava junto à escarpa, onde ia beber água. Mas não podia ficar ali para sempre. Já se tinha passado muito tempo – quanto, não tinha a certeza. Estava na hora de adentrar na floresta.
Dirigiu-se para junto desta, e apoiou-se numa enorme palmeira. Não sabia o que iria encontrar, e não tinha nada consigo que pudesse usar como arma para se defender. Nunca na sua vida se tinha sentido tão indefeso. Mas não podia hesitar. Avançou, a passos firmes, por entre a vegetação rasteira, desviando-se das árvores exóticas que ali, parecia, tinham nascido como cogumelos. O ar era pesado, abafado e muito húmido. A luz era metodicamente filtrada por entre as folhas e lianas, que mal lhe tocavam as mãos, tão altos estavam os ramos. Não se ouviam cantares de pássaros, nem se viam rastos de animais. Toda a floresta era reduzida apenas ao murmurar das árvores.
Continuou por ela, sem saber ao certo onde esta o levaria, ou o que iria encontrar. Talvez vivesse alguém ali. Ouvira muitas histórias sobre ilhas em que tinham sido descobertas aldeias de gente estranha, com pele escura e pintada. Quem sabe se não estaria numa ilha assim? Quem sabe se não encontraria alguém que o ajudasse a sair daquele fim de mundo? Queria tanto voltar a casa. Mas sabia que, se não conseguisse sair dali por si mesmo, ninguém o viria procurar. Não ali.
Continuou a caminhar por muito tempo, horas talvez, quantas nunca soube, até que começou a ouvir um rumorejar que parecia o de água corrente. Seria um rio? Troava demasiado alto para ser um simples riacho na floresta. Apressou o passo na direcção do som, que se tornava cada vez mais alto à medida que se aproximava. Em pouco tempo, encontrou-o. Um rio profundo, mas não muito largo, corria alegre e velozmente. Se o seguisse numa das direcções, talvez encontrasse alguém, ou alguma coisa, que o ajudasse. Decidiu seguir o rio em direcção à foz. Ainda pouco andara, já caíra a noite. Não podia continuar, principalmente não conhecendo a região. Aninhou-se debaixo de uma grande árvore e, a custo, lá adormeceu.
Acordou, ainda mal o sol começara a despontar, com a sensação de não estar sozinho. Levantou-se rapidamente e perscrutou a escuridão da floresta. Ainda foi a tempo de ver a cauda de um vestido branco e as pontas de uns cabelos louros fulgurantes esconderem-se atrás de uma árvore. Lembrou-se da rapariga na noite do naufrágio. Afinal era real. Existia mesmo alguém naquela ilha. Correu na direcção de onde ela tinha desaparecido, mas não a encontrou. Subitamente, ouviu um leve e alegre riso de mulher ecoando na floresta, por trás de si. Voltou-se, mas só teve tempo de ver um reflexo luminoso a fugir novamente por trás de outra árvore. Andhrey decidiu voltar para junto do rio e continuar a sua caminhada, receoso de penetrar demais na floresta e acabar perdido.
Ainda o sol não ia alto, já tinha chegado. Ali estava de novo o mar à sua frente, a perder de vista. Nas margens do rio formara-se uma pequena praia fluvial. Na outra margem, os juncos tinham nascido como cogumelos. Pela primeira vez, encontrou animais que não peixes – várias libélulas e outros insectos que não reconheceu pululavam nas águas paradas junto da margem. Contudo, não foi só isso que encontrou.
Diante dos seus olhos jaziam os despojos de várias embarcações. Restos de corda, tábuas, âncoras, tecido das velas, pedaços do mastro, barris desfeitos. A água e a praia estavam pejadas dos testemunhos de inúmeros naufrágios – pela degradação de alguns destroços, certos navios teriam naufragado ali há muitos anos. O estômago vazio de Andhrey deu voltas de nervosismo. Estaria ali o barco do seu pai?
Procurou pela praia, mas nenhum dos destroços correspondia ao que se lembrava do Navarro. Entrou na água, vasculhando o que encontrava. As carcaças dos navios que por ali se aninhavam eram-lhe completamente desconhecidas. Contudo, o seu olhar deteve-se em algo muito familiar. Na outra margem, sobressaía uma âncora meio enterrada na água. Andhrey nadou até lá, sem tirar o olhar dela. O seu nervosismo cresceu. Reconhecia-a. Era ela, tinha quase a certeza.
Chegou junto da âncora e começou a procurar. Já estava muito degradada e escura, mas ainda sentiria as gravações na parte cimeira, se lá estivessem. Segundos depois, encontrou-as. Libertad. Viam-se muito mal, mas ainda assim conseguiam ler-se algumas das letras. Fora o seu próprio pai que as gravara. Era sem dúvida a âncora do Navarro.
Finalmente, sabia o que acontecera ao pai. O Navarro naufragara ali, tal como naufragara o Diabolo. Não havia sinal de vida naquela ilha – provavelmente, e passados tantos anos, mesmo que o seu pai tivesse sobrevivido ao naufrágio, já estaria morto. Foi no meio destes pensamentos que notou. Junto à floresta, nessa margem, encontrava-se uma jangada. Era antiga – muitos troncos já estavam soltos e as lianas que ainda mantinham os restantes seguros uns aos outros mostravam-se quebradiças. Contudo, deu-lhe certezas. Não fora o único sobrevivente a ficar preso naquela ilha. Quem quer que lá tenha estado antes tentou, também, fugir – e não foi bem sucedido, pois a jangada estava ainda ali. Pela primeira vez, sentiu medo. Não queria apodrecer naquela ilha para sempre. Queria voltar para casa, ver Johanna, abraçar o seu filho. Teria de arranjar maneira de fugir.
Repentinamente, ouviu um cantar suave vindo da floresta. Não reconhecia as palavras, mas o tom era-lhe familiar. Imediatamente, soube. Era a mesma mulher que cantara aquando do naufrágio. Era certamente ela quem ele, por vezes, sentia segui-lo na floresta. Era certamente ela que se escondia por entre as árvores assim que ele dava conta de que estava a ser observado. Se aquela mulher morava realmente ali, sabia certamente como sair. Talvez até existisse uma qualquer aldeia na floresta. A mulher era o único sinal de civilização que dava mostras de ainda existir por aquelas paragens. Teria de a encontrar.
Entrou na floresta, seguindo o cantar da mulher. À medida que avançava por entre as árvores e penetrava mais no interior, ouvia-a cada vez mais nítida. Parecia que a mulher cantava propositadamente para ele, esperando que seguisse a sua voz até a encontrar. Serpenteou por entre as árvores durante, parecera-lhe, quase uma hora, a voz da mulher sempre cantando, num crescendo. Subitamente, as árvores acabaram. Andhrey parou, de queixo caído. Nada o teria preparado para o que estava a ver naquele momento.
Encontrava-se numa imensa clareira relvada, bordada a flores. Várias casas nasciam da relva aqui e ali, como que formando uma minúscula aldeia. Contou-as – sete no total. As paredes estavam cobertas de heras e outras plantas, e as pedras que as compunham mostravam-se escurecidas. Os telhados de grande parte delas tinham simplesmente desabado. As pequenas delimitações na frente das casas, que supôs terem sido jardins, mal se distinguiam no meio da erva e das flores. O canto da mulher tinha parado.
Andhrey entrou vagarosamente naquele povoado abandonado, demorando os seus olhos pelas casas. Várias borboletas esvoaçavam aqui e ali, e um coelho fugiu, assustado com o som dos seus passos. Junto da última casa, no final da clareira, viu finalmente a mulher. Encontrava-se sentada nos destroços de uma das paredes da casa. Era loura, de cabelos ondulados muito brilhantes e compridos. O seu rosto era belo, o mais belo que alguma vez vira. A sua pele mostrava-se branca, com lábios rosados e grossos. Um olhar verde que, ao desviar-se para ele, logo o pregou ao chão, tão intenso era. O vestido que envergava, reconheceu-o logo. Era o mesmo que se lembrava de vislumbrar na noite do naufrágio, esvoaçando ao vento. Era branco, tão branco que dava a sensação de brilhar, de um tecido leve e solto, que lhe vincava as elegantes formas do seu corpo. O carisma daquela mulher era tão avassalador, que Andhrey não conseguia deixar de olhar para ela. Ela sorriu-lhe, com um sorriso alegre e sedutor. A rapariga estava descalça, e brincava com os seus pezinhos pequenos na relva.
Não tenhas medo, sussurrava uma voz ao seu ouvido. Contudo, a mulher não falava. Limitava-se a olhar para ele e sorrir. Aquelas três palavras suaves arrepiaram-no.
- Quem és?
- Se é o meu nome que queres saber, chamo-me Ayalla. – desta vez, foi a mulher que falou. A sua voz era melodiosa. Repentinamente, lembrou-se da história que o velho marinheiro lhe contou na taberna. Não soube bem porquê.
- O que és?
- Já sabes a resposta. – a mulher riu-se suavemente, e levantou-se, ajeitando o vestido. – Não sou humana.
- Então, o velho tinha razão. És uma deusa.
- Muitas são as coisas que se dizem, ainda mais aquelas que se ouvem. Mas poucas são verdade. – aproximou-se de uma árvore e, deslizando a mão pelo tronco, desapareceu por detrás dela. Antes sequer de Andhrey poder mover-se, já ela estava atrás de si, sussurrando-lhe ao ouvido. – A verdade é que não, não sou uma deusa. Sou uma ninfa. A ninfa desta ilha.
- Então diz-me, onde estou? Existe mais alguém aqui? Como posso voltar para casa? – voltou-se para a olhar nos olhos.
- Tantas perguntas sem necessidade de resposta. – o sorriso de Ayalla esmoreceu um pouco. – O que precisas de saber é que encontraste o paraíso. Podes ficar aqui comigo, para sempre. Serás feliz, prometo-te.
- Responde-me. – a sua expressão endureceu, assim como a de Ayalla, que via inglórios os seus esforços de seduzir aquele homem.
- Esta ilha não tem nome. O Pai criou-a, assim como criou tudo o que existe. Criou-a para manter aberta uma ponte entre esta dimensão e a Dele. Pensa nesta ilha como uma espécie de limbo, onde o humano e o divino coexistem. Dantes, habitaram aqui, aqui mesmo nestas casas, mais algumas ninfas, como eu. – o seu semblante tornou-se, subitamente, assustador. – E alguns homens como tu. Marinheiros. Náufragos. Sempre tentámos protegê-los aquando de um naufrágio, trazê-los para terra sãos e salvos. Temos o poder de controlar os elementos. Contudo, quando se entra no perímetro desta ilha, já não se pode voltar a sair. Os marinheiros culparam-nos pelo sucedido, e muitas de nós morreram às suas mãos. Podemos ser ninfas e viver eternamente, mas não temos o poder de ressuscitar mortos ou curar ferimentos.
- Então, os navios naufragados na foz do rio…
- São dos homens que tentámos proteger. Dos homens que nos traíram.
- O meu pai vinha num desses navios.
- A minha última companheira morreu às mãos dos últimos homens que aqui estiveram. Tenho vivido escondida desde então. Não sei quem era o teu pai, mas não está mais ninguém vivo nesta ilha para além de mim. Todos os morreram, ou mataram-se.
- Diz-me, por favor, como posso sair daqui. Deves saber qual a saída.
- Não ouviste o que estive a dizer-te? Não há saída. Foi por isso mesmo que muitos de vós enlouqueceram.
- Mas eu não posso ficar aqui. Tenho que voltar para minha casa, para a minha mulher. – sem aviso, Ayalla beijou-o. Andhrey foi apanhado tão de surpresa que nem soube o que fazer.
- Vejo que a amas. – disse a ninfa, quando o largou. – Ela é muito bonita. Mas deixa-a. Está perdida. Não a podes ter, nunca mais. Aceita isso, e fica comigo. Se o fizeres, não mais terás de sofrer. Por favor. Sou tão solitária. Não me deixes sozinha novamente…
- Deixa-me! – Andhrey empurrou-a com tanta força, que Ayalla caiu no meio das flores. – Vou sair daqui, com a tua ajuda ou sem ela.
III
Correu de novo para a floresta, o mais rápido que pôde. Ainda ouviu a ninfa chorar e gritar de frustração, mas não podia voltar para trás. Tinha de sair dali. Inesperadamente, lembrou-se da jangada que encontrara. Ia tentar consertá-la. Não encontrava outra alternativa. Correu até não conseguir mais, desejoso de chegar. No fim de um longo tempo, que não conseguiu calcular ao certo, chegou de novo à praia, junto da jangada desfeita. Os troncos estavam em bom estado; só precisaria de corda, ou lianas novas, para os unir.
Entrou de novo na floresta, mas apenas o razoável para encontrar lianas grossas e fortes o suficiente. Voltou para junto da velha jangada e substituiu todas as lianas velhas e quebradiças pelas novas que apanhara. Apertou-as fortemente. No fim de satisfeito com o resultado, procurou um pedaço de madeira suficientemente robusto e comprido para transformar em remo. Improvisou algo com uma tábua de um dos barcos naufragados que encontrou na areia. Anoiteceria dentro de algumas horas mas, embora fosse imprudente lançar-se à água, achou ainda mais imprudente ficar em terra. Meteu a jangada na água e lançou-se à sua sorte.
Remou na direcção do horizonte, afastando-se o mais que podia da costa. No fim de um tempo, deixou de a ver. Anoiteceu. Andhrey tentou não dormir. Continuou a remar sempre que o cansaço lhe permitia, desesperado por uma saída. Nunca mudou de direcção, pelo menos conscientemente. Como não sabia para onde se dirigir, decidiu continuar em linha recta, na direcção do horizonte. Assim, pensou, não correria o risco de andar em círculos e aproximar-se de terra. Durante muitas e muitas horas, ou pelo menos isso lhe pareceram, permaneceu acordado; no entanto, o cansaço falou mais alto. Começou a cabecear de tanto sono. Deitou-se um pouco na jangada, sem intenção de adormecer, mas acabou por não conseguir evitá-lo.
Quando acordou, já o sol o saudava. Sentia-se exausto, com fome, com sede. Agora, de cabeça fria, apercebeu-se da sua imprudência. Como conseguiria sobreviver sem água ou comida, no meio do oceano? Fora demasiado precipitado. Porém, todas essas preocupações passaram rapidamente para segundo plano. Mesmo à sua frente, estava a foz do rio, o exacto local de onde partira. Ayalla tinha razão – era possível entrar naquela ilha, mas já não havia hipótese de sair. Os últimos pedaços de esperança que o seu coração conservava estilhaçaram-se. Nunca mais veria a mulher e o filho. Falhara na promessa que lhe fizera, apenas para cumprir uma promessa feita enquanto miúdo, a um homem que sabia estar morto. Nunca se perdoaria.
Remou para terra, de coração pesado. Largou a jangada à beira da água e estendeu-se na areia. Fechou os olhos. Queria adormecer, adormecer e não mais acordar. De repente, ouviu uma canção arrastar-se pelo ar à sua volta. Ayalla. O seu cantar aproximava-se por detrás de si, vindo da floresta. Não fez tenção de se mexer. Já não queria saber. Subitamente, o cantar parou. Andhrey só ouvia, agora, uma palavra na sua cabeça. Vem. Repetia-se, pausada e incessantemente, mas não era Ayalla que falava. Andhrey conhecia muito bem aquela voz. O seu coração apertou-se.
Vem.
Andhrey voltou-se, e lá estava ela. A sua mulher. Mas como? Como conseguira ela chegar ali? Olhou-a nos olhos, uns olhos verdes que nunca lhe vira. Sentiu-se zonzo; tentou levantar-se mas caiu na areia. Na sua mente rodopiava uma névoa branca. Não conseguia pensar em nada. Johanna não se mexeu do seu nicho junto à entrada da floresta mas, repentinamente, a imagem esfumou-se e, afinal, era Ayalla quem estava ali. Piscou os olhos, confuso e atordoado, com a vista turva, e rastejou na direcção dela. Continuava a ouvir o mesmo chamamento. Vem.
- Johanna… – rastejou até Ayalla e sucumbiu ao seu suave abraço. Fechou os olhos. Ouviu-a rir. Adormeceu.
De repente, serenou. Apercebeu-se, era ali que pertencia. Como se pudera ter esquecido? Nascera ali. Na pequena aldeia perdida no meio da clareira verdejante e coberta de flores. Ayalla era a mulher com quem fora destinado a casar. Se voltasse à aldeia, decerto veria de novo a sua mãe, com um sorriso rasgado no rosto rosado, no umbral da porta à sua espera, e o pai chegando a casa juntamente com os outros homens, com os peixes ou coelhos que apanhara para jantar. Encontraria a irmã que nunca teve a brincar por entre as flores, e os amigos que desconhece a brincar na orla da floresta. Tantas memórias que nunca vivera. Eram verdade? Esquecera-se. Mas como se esquecera ele delas, como? Só um nome ressoava na sua cabeça, um nome tão nostálgico, mas que já não reconhecia, embora lhe fosse terrivelmente familiar.
Johanna…
Manuel C: Consciência amnésica
1. Maldito, vou me vingar de ti! Vou te matar! Odeio-te!
Mas de quem? A quem queres tu matar e odiar?
Ele.
Ele quem? De quem falas tu?
Dele, tu sabes quem.
Que te leva a pensar que sei? Eu sou a tua consciência e não faço ideia de quem estás tu a falar!
Cala-te consciência, estou a tentar perceber quem sou!
Certo…
Quem sou? Onde estou?
…
Serei eu apenas um pedaço de carne num espaço infinito?
…
Ou serei eu uma personalidade crescente, um herói para o mundo?
...
Ou talvez, eu seja…um sonho, uma memória ardente de um amor à muito perdido. Quem sou eu consciência?
Sei tanto quanto tu. Eu não passo da tua consciência.
Bah, de que me vales tu, se só sabes o que eu já sei.
Mas o que sabes tu?
Eu…sei falar. Sei onde estou. Conheço como sou. Será que me conheço?
Estás a dormir. E num sonho é difícil distinguir a realidade da imaginação. Não passas de um corpo dormente que aguarda pela sua hora de se libertar do feitiço de Salomão. Acorda que o teu tempo chegou.
Onde raio estou? Espera, ainda não abri os olhos. Já está. Que sitio é este? Parece um cubo… O que é um cubo?
È um sólido limitado por seis faces quadradas e iguais entre si, meu caro.
Ah, certo. Caro? Que é isso? É o meu nome?
Não, é uma expressão que escolhi para te poder chamar. Faço-o, pois não sei o teu nome. E antes que perguntes, nome é a palavra que designa pessoa, coisa ou animal.
E qual delas sou eu?
Uma pessoa, se não me engano.
As consciências enganam-se? O que é uma consciência? Para que serves?
Eu sou a moral em ti. Eu sou o que sabes. Eu distingo o bem do mal, o certo do errado.
Errado para quem?
Tudo o que digo serve para preservar a tua vida. Estou assim, sempre certo e correcto.
Estou a ver...Vou-me esforçar por abrir os olhos. Uma luz passa por mim. Demoro a abrir os olhos. Abri. Continuo no mesmo cubo. Sinto algo que me faz doer o corpo. Será esta dor normal?
Eu não sinto a dor, eu simplesmente faço tudo para impedir que a tenhas. Mas não é normal que tremas o corpo por culpa da dor que sentes. É sem dúvida estranho. Caíste.
Como sabes?
Estás a sangrar. Caíste. Ou foste espancado. Tens algumas feridas profundas e graves.
Que interessa... Não sei o que é isso de sangrar. Oiço vozes. Alguém vem ai.
Dorme.
Porquê?
Porque podes compreender quem és pela voz de outros.
O quê?
Dorme...
2. Acordei, mais uma vez
Sim, acordaste.
Porque estou preso? Sinto-me bloqueado, por algo que me prende o corpo.
São cintos de segurança.
Para que servem?
Para te manter seguro.
Se me querem manter seguro, porque me prendem?
Estás num transporte, num veículo que te leva para algum lado. E os transportes precisam de cintos de segurança. Para te protegerem, se por acaso sofreres algum acidente.
É possível termos um acidente?
São muitas as probabilidades de tal acontecer, sim.
Então, porque andamos neste transporte? Não seria melhor andarmos a pé?
Estás magoado, querem-te levar o mais depressa para um sítio onde te possam curar.
Mesmo correndo o risco de me magoar ainda mais, se ocorrer um acidente?
Sim.
Ah.
...
Não parece ter muita lógica o transporte... E porque estou magoado? Quem me magoou?
Talvez tu mesmo. Talvez sejas masoquista e tenhas prazer em sofrer. Ou talvez não.
Ser masoquista, é normal?
Não. Mas não é anormal. É apenas…diferente.
Não sou diferente. Sou normal.
Acredito que o sejas.
Não gosto de estar preso. Não quero estar preso.
Estás preso para tua segurança. Não estás numa prisão.
O que é uma prisão?
È um lugar, onde aqueles que são considerados perigosos para a humanidade, são postos.
Ah. E quem decide quem lá fica?
A justiça. A justiça decide quem vai para a prisão. Os que não cumprem são presos.
Estou a ver… E quem fez a justiça?
A humanidade, há muitos anos atrás. E adapta-se constantemente aos novos tempos.
Mas quem vai para a prisão não são homens?
Sim.
Quem nos diz, que os homens que criaram a justiça tinham razão? Quem nos diz que eles criaram algo correcto? Quem foram eles para julgar os maus e os bons? Errado e certo?
Alguém tem de julgar, se não o mundo seria selvagem, violento, assassino. Uma anarquia.
Portanto a justiça impede a violência e a morte?
A morte é inevitável. Mas a justiça tenta acabar com a violência desnecessária, sim.
Desnecessária?
Sim, existe violência necessária e desnecessária.
E quem pratica a violência necessária?
As forças da lei.
Quem controla as forças da lei?
A justiça.
...
...
Não é um pouco contraditório?
Não.
Se o dizes...
3. Qual é o seu nome? Onde vive?
Quem está a falar? Não és tu consciência? Quem é?
É uma enfermeira.
Para que serve uma enfermeira?
As enfermeiras cuidam dos doentes, mental e fisicamente. Trabalham em hospitais.
Porque estou num hospital?
Estás doente. Já não te lembras do transporte e dos cintos de segurança?
Ah, sim tens razão. E qual é o meu nome, e onde vivo?
Não te recordas?
Não. Era suposto eu saber?
Claro que era! Todas as pessoas têm um nome. Já algumas não têm onde viver, coitadas.
Coitadas? Porque são coitadas?
Acho que isso não interessa agora. Apenas o teu nome e morada.
Que eu não sei.
O seu nome, senhor? E a sua morada?
Não me recordo do nome.
Não se lembra do seu nome...? Não tem algum cartão, foto? Traz algo consigo?
Receio que não. Não me lembro de nada.
Como me chamo e onde vivo? Estás-me a esconder alguma coisa?
Não ganharia nada em te esconder alguma coisa. Não te sei responder.
Não sabes? Para que serves tu então? Sabes tanto como eu: nada!
Eu sou a tua moral, não sei coisas da tua vida, apenas o mais certo a fazer. Definições e…
Diz-me o que é mais correcto a fazer então?
Diz-lhe que não estás bem, talvez com o tempo te recordes. Precisamos de tempo.
Precisamos? Para quê?
Diz-lhe apenas isso.
Desculpe, está a falar comigo? Disse algo e não percebi o que era.
Não, não. Ah, eu não me estou a sentir bem. Pode ser que me recorde depois.
Ah. Está certo então, é melhor descansar. Não se sente bem? O que lhe dói?
A barriga e a cabeça está um pouco nublada.
Bom, vamos lá ver essa barriga.
Ela não sai daqui?
Devias ter apenas dito que te doía a cabeça!
Não me lembrei. Estou nervoso.
Tem calma, deixa ela acabar de fazer, o que quer que ela esteja a fazer.
Certo.
Dói-te mesmo a barriga?
Não.
Então porque disseste que te doía?
Senti uma vontade, dentro de mim, de ela me tocar na barriga. Não sei bem porquê…
O quê? Isso não tem lógica! Lógica nenhuma mesmo…
Bem, não consigo perceber qual é o seu problema. Talvez...
Eu se calhar só preciso de descansar, dói-me um pouco a cabeça.
Bom, vou ver se lhe arranjo algo então. Descanse.
Sim, obrigado.
Pronto, despachado.
Sim, por enquanto.
Preciso mesmo de fechar os olhos. Preciso de fechar os olhos e adormecer e...
Descansa então, depois tentamos perceber o que se passa com as tuas recordações.
4. As minhas quê? Que falavas antes de eu adormecer?
Já acordaste?
Sim, sim. Porquê, não dormiste?
A consciência não dorme, está sempre a pensar.
A pensar no quê?
Em resolver problemas, dúvidas, medos, perguntas, quebra-cabeças, adivinhas, dilemas…
Como o facto de não me lembrar de nada?
Exacto. A tua falta de recordações. Mas não descobri nada. Não percebo.
A minha falta de quê? Recordações?
Sim, noções da vida que tens. Memórias de momentos bons, pessoas a recordar, lugares em que já estiveste. A tua vida. A experiência que adquiriste dos erros que cometeste.
Eu errei?
Sim, inevitavelmente erraste. Todos erram. Ninguém é perfeito.
Tu também erras?
Eu apenas penso no mais correcto a fazer, independentemente das consequências gerais.
Se ninguém é perfeito, porquê a definição do perfeito?
O perfeito é muitas vezes visto como uma meta a atingir, um objectivo a cumprir.
Mas disseste que não era possível.
A luta pelo impossível ou pouco provável, alimenta a evolução humana há milénios.
Tudo isto me parece um pouco confuso… E quanto às minhas recordações?
Não te lembras de nada? Nada que te possa indicar algo? Uma visão vaga do passado?
Nada, a minha mente está apenas encalhada contigo.
Procura no teu corpo. Uma marca, uma tatuagem, uma cicatriz, uma deformação. Algo.
Marca, tatuagem, cicatriz, deformação? Que é isso?
Com a idade deixamos algumas marcas no corpo. Nascemos com elas ou fazemo-las ao magoarmo-nos. Alguns até pintam o seu corpo para recordar alguém, mostrar um estado de espirito, honrar uma época ou apenas algo que querem marcar no corpo para sempre.
Estou a olhar para mim. Noto que tenho umas cicatrizes nos joelhos. Mas parecem dema-siado pequenas para indicar-nos o que quer que seja. E vejo um corte no polegar direito.
As cicatrizes são antigas. O corte foi uma queimadura.
Tu lembras-te?
Não, mas parece ser de uma queimadura. Consegues-te levantar? Vai à casa de banho.
Vou para onde?
À casa de banho, é a primeira porta ao lado esquerdo.
Vou para lá. Entro. Vejo uma pessoa.
És tu, no espelho. O que consegues ver mais no teu corpo?
Tenho uma bata longa. Sou ligeiramente bronzeado. Olhos castanhos.
A bata, deu o hospital. Tira-a e diz o resto do teu físico.
Tenho um corpo largo. Músculos. Um corte pequeno no lado esquerdo, perto da cintura.
No lado esquerdo? Estranho, poderia ser o corte do apêndice, mas esse é no lado direito.
Apêndice? Dizes tanta coisa que não sei o que é!
Eu sou a definição das coisas, é apenas normal que eu saiba muito. Talvez tenhas os órgãos trocados de lado, é uma hipótese. Uma minoria mundial tem os órgãos trocados.
De qualquer modo, isso não me ajuda, não é? Não consigo perceber quem sou!
Calma. Nada está perdido. O tempo está do nosso lado.
Está?
Sim! Ninguém te persegue. Ninguém te procura. Ninguém te deu por desaparecido.
Mas como é que tu sabes? E isso é bom para mim em que sentido?
Seria pior se ainda estivesses no chão, a sangrar feito morto, sem te mexeres.
Sim, tens razão. Mas não sei quem sou. Sinto-me vazio. Como se estivesse morto.
5. Como se sente?
Melhor que quando cheguei, sem dúvida.
Óptimo. Ao que parece sofre de um problema nas pernas.
É muito mau?
Está incapacitado de andar e poderá sofrer nos braços. Mas não é permanente.
Ah...
O que é óptimo!
Sim, claro que é.
Teremos de marcar uma operação.
Está certo.
Portanto, entretanto eu irei ajuda-lo no que precisa, sim?
Sim. E como faço para a chamar? Devo gritar por si?
Apenas clique nesse botão á sua direita.
Ah, muito obrigado.
Não lhe perguntaste em que cidade estamos! Nem o dia ou o ano!
Temos tempo.
Ah, agora és tu a dizer que temos tempo?
Que se passa consciência? Pareces irritada comigo.
E estou.
Mas nunca te tinha visto irritada, o que se passa?
Estás a ficar ilógico, logo eu não aprovo.
Estou o quê?
Já não ages de acordo com a lógica. Perdes-te a razão, a sabedoria e a inteligência.
Ah sim, e porque dizes isso? Em que te baseias?
Qualquer outra pessoa sendo amnésica ficaria triste, revoltada. Mas tu não. Estás normal.
Qualquer pessoa seria assim? As pessoas amnésicas? Sou diferente do diferente, então.
És. Estás apaixonado.
Isso é o quê?
É tomar o gosto por alguém, sentir que a vida seria perfeita com esse alguém. Amar.
Mas dizias, antes, que nada é perfeito! E o que é amar?
E não é. Muitas vezes as relações não correm como previsto. E amar… é complicado.
E dizes então que eu quero uma relação? Que eu estou apaixonado?
Estás.
Por quem?
Pela enfermeira.
Não! Não estou… Ou estou?
Estás.
Hum… Bom, e que podes tu fazer, consciência? Podes impedir-me de me apaixonar?
Não. Eu apenas sei que estás apaixonado. Mas não controlo o que fazes. Eu aconselho.
Estou a ver. Eu não deveria sentir algo, já que estou apaixonado? Algo tipo...
Borboletas na barriga, um calor interior, um sorriso constante, uma felicidade enorme?
Exacto, algo assim!
Não. Cada pessoa reage à sua maneira. Não há um estado de espírito apaixonado comum.
Ah... E tu, queres que eu deixe de estar apaixonado?
Eu não te posso pedir para não te apaixonares, apenas não quero que cometas erros.
Apaixonar-me por ela é um erro?
Para ti não. Não tens nada a perder. Mas para ela talvez seja.
Porquê?
Olha para ti, não tens memória, estás incapacitado. Ela tem um trabalho, e a vossa relação, sendo tu um doente amnésico, não resultaria. Mas não faz mal ter esperança.
6. Estamos combinados?
Sim. Quando ela voltar, pergunto se posso almoçar com ela. Assim vou estar com ela fora do recinto do hospital. E aí a lógica de paciente doente não se aplica.
Exactamente.
E lá fora ela não terá problemas em reagir como uma pessoa normal e não como a minha enfermeira. Perde o estatuto e passa a ser uma pessoa comum.
Correcto.
Certo, vou chama-la.
Diga, que se passa?
Olá. Gostaria de saber se é possível eu almoçar com...
A hora do almoço já passou. Mas naturalmente que deve ter fome. Vou já às cozinhas ver o que consigo lhe arranjar. Se calhar restou algo do almoço.
Não, desculpe mas...
Já volto, não se preocupe. Não precisa de se desculpar, volto já.
Que raio. Não resultou.
Não disseste nada! Envergonhaste-te. E mesmo que digas, duvido que resulte.
Ah, porquê?
Não sabes se ela já tem um parceiro. Nem sabes se fazes o género dela.
O género dela?
Claro, ela pode preferir homens menos musculados. Talvez mais brancos. Ou pretos.
Mas o género tem tudo a ver com a aparência? A personalidade não conta?
Claro que conta! Mas olha para ti, és amnésico! Não sabes nada de nada. O que te garante que ela está disposta a arriscar perder o seu tempo contigo?
Nada.
Exacto.
Mesmo assim, vou arriscar. Quero que ela me negue, para ter a certeza.
Porquê?
Porque assim, contento-me por saber que ao menos tentei.
Mas se ela te recusar, talvez te arrependas. Tens a certeza que queres lidar com isso?
Não. Mas também não quero ter de lidar com uma vida cheia de remorsos. Entendes?
Entendo. Penso no que é certo para ti no imediato e no futuro. Mas ambas as hipóteses podem-te fazer sofrer. Portanto, não é fácil perceber qual a mais correcta a seguir.
Tenho a certeza que é a que vou tomar. Essa, pelo menos pode resultar bem. Se não lhe disser nada, nunca vou saber se podia ter corrido bem ou mal. Vou-lhe pedir.
Tens razão. Começo a achar que...
O quê?
Nada, já te digo.
Aqui tem.
Olhe, gostaria de saber se…é possível almoçar comigo.
Ah, eu... Eu tenho que trabalhar. Posso ficar um pouco, mas depois tenho que ir.
Ah. Mas não há nenhuma hipótese de almoçarmos lá fora? Fora do seu trabalho?
Enquanto não tiver alta, não é possível. E depois eu sou enfermeira. Tem que perceber que não pode haver uma relação enfermeira paciente desse cariz.
Qual cariz?
Ah… Assim como diz. Estou aqui para tratar de si, acima de tudo.
Estou a ficar sem ideias…
Diz-lhe que não procuras algo mais que uma amiga. Já que estás tão sozinho.
Pois. É que sinto-me um pouco sozinho. Não me lembro de nada e você é a única pessoa que me conhece. Penso que, me ajudaria conversar com alguém.
Entendo. Mas vou chamar-lhe um psicólogo do hospital para falar consigo.
7. Psicólogo? Isso é o quê?
Um especialista da mente que vai tratar de ti.
E resulta?
É discutível. Eu como tua consciência, desconfio. Ele não é nenhum mágico.
Mágico?
Ele não faz milagres.
Milagres?
Tu cansas-me. Enfim, o que interessa é que ele vem cá. Não tentes parecer um maluco.
O que é um maluco?
Alguém que não é considerado normal. Que cria um mundo imaginário na sua mente. Que não age normalmente como todos os outros indivíduos. Que vê o mundo de uma maneira diferente. De uma maneira que a sociedade em comum não tolera ou aceita.
E os malucos, também vão para a prisão?
Alguns. Outros vão para o Hospício onde procuram tratamento.
Portanto são malucos e admitem que são malucos. Vão para o hospício tratarem-se.
Não, na maioria dos casos eles não admitem estar malucos. São postos de lado porque são considerados perigosos para resto da sociedade ou apenas não se enquadram nos parâmetros necessários de cada cidadão. No hospício, os médicos procuram tratar deles.
Ah. Porque eles são malucos.
Exacto.
Mas a sociedade exige parâmetros? Exige regras e leis para os cidadãos normais?
Sim. Existe um documento que intitula os direitos e deveres de todos os cidadãos. Muitos dos prisioneiros são colocados na prisão porque as suas atitudes limitam ou retiram a liberdade de outros, cometendo crimes. E isso é um desrespeito perante a lei.
Hum… E os malucos também retiram ou maltratam a liberdade de outros?
Alguns. Outros simplesmente regem-se por um código moral que a sociedade não tolera.
Estou a ver. Portanto são postos de lado, porque não aceitam pactuar com quem ordena.
Correcto.
Se são postos de lado, porque são diferentes, então a humanidade é toda igual. Não?
Não é toda igual. Mas todos respeitam o mesmo. Todos caminham para o mesmo. O que se procura é a igualdade universal, mantendo a liberdade de escolha de cada um.
Bem, parece-me que não é justo por alguém no hospício. Quem nos diz que nos temos de ser todos iguais? Talvez quem tenha razão sejam os malucos e não quem os põe lá.
Vê lá se não dizes isso ao psicólogo...
Porquê? Que queres que lhe diga?
Nada que te possa fazer parecer maluco, fora do comum ou qualquer coisa anormal.
Está bem.
Ora, boa tarde. Sou o seu psicólogo. Venho ver como está.
Olá.
Bom, já sei que não se lembra do nome nem de onde vem. Diga-me, o que sabe?
Neste momento?
Sim.
Neste momento eu sei que tenho uma voz na cabeça, que se chama consciência e que me ajuda a me orientar. Ela disse-me há pouco para eu não lhe dizer nada de estranho ou diferente se não você ponha-me no hospício junto dos malucos.
Ah… Eu… estou a ver...
Achas que me safei bem consciência?
...
Consciência, estás aí?
Tu... Raios, eu não acredito...
8. Eu disse para não pareces maluco! Porque não mentiste?
Eu disse apenas a verdade! E o que é isso da mentira?
Mas… É o acto de ocultar a verdade ou de atenuar a realidade encobrindo alguns factos.
Eu não fiz isso!
Pois não! Mas devias ter feito! É o que as pessoas normais fazem em caso de necessidade!
Porquê? Não me parece correcto isso que chamas de mentir. Porque mentem as pessoas?
Porque precisam de esconder algo. Ele agora vai-te por num hospício junto dos malucos!
Começo a gostar mais dos malucos do que dos que estão cá fora. Ao menos não mentem!
O quê? Como podes dizer algo assim? Os que estão cá fora são os saudáveis e normais!
Os que estão cá fora, vivem as suas realidades e não aceitam a realidade dos que estão no hospício. Que raio de pessoas são estas? Ao menos os loucos admitem que vivem numa realidade diferente, segundo as suas normas e feitios. Não mentem. São reais.
Mas eles... eles são os marginais! Os diferentes. Os anormais. Os loucos!
Não me interessa.
Os normais são os que vivem cá fora. Em sociedade. Em união. Em grupo.
Se esses são os normais então eu prefiro ser anormal. Recuso-me a pactuar com uma sociedade que põe de lado os diferentes. Pensei que a ideia da sociedade era viver-se em união. Em liberdade. E contudo falas-me da vontade de toda a gente parecer igual, semelhante uns aos outros. Presos por regras. Isso não. Prefiro admitir que sou diferente.
Bem, eu não posso dizer que te entendo… E na verdade gostava de te poder convencer do contrário. Não me pareces muito lógico e contudo não sei o que te dizer.
Não digas mais nada. Fiz a minha escolha. Se ter-te na minha mente faz de mim um ser anormal, então chamem-me de louco… Como é a vida num hospício?
Estranha. Assustadora. Acordada. Violenta. Diferente.
Como é a vida na cidade? Que promessas me dá, que realidades me aguarda?
A cidade promete direitos. Hipóteses e garantias de trabalho e dinheiro. Mas nem todos se safam. Alguns vivem na rua. Outros trabalham muito, para um mísero quarto. Infestado de doenças e parasitas. Outros sobem na vida e vivem o sonho. Mas mesmo aí são alvos de inveja, medo e violência. Alguns passam fome e vivem uma vida sem objectivos.
Como vês, não estou seguro em lado algum. Consciência, de que me procuras defender, se em nenhum lado estou em segurança?
Procuro-te defender de qualquer coisa que te possa magoar. Ferir. Mas hoje em dia é difícil viver-se em paz. E nem todos fomos feitos para sermos monges, isolados na nossa montanha. A rezar e a orar.
Rezar e orar? Monges?
São pessoas comuns que seguem uma religião ou um ideal de paz. Vivem o que defendem no seu dia-a-dia. Procuram a paz interior e têm uma vida de meditação e dedicação.
Paz interior... Agrada-me a ideia. Será possível viver uma vida assim, num hospício?
Quem sabe. Foi uma escolha que tomaste. Espero que tudo corra bem.
Vais-te embora?
Não. Fico aqui na altura em que te levarem para o hospício. E daí para frente, fico contigo até ao fim. Eu faço parte das tuas escolhas, quer sejam erradas ou boas.
Obrigado. Já agora, eu serei internado, porque me vêm como uma pessoa louca?
Sim. Segundo as normas e os conhecimentos médicos, consideram-te um louco.
E quem criou as normas e os conhecimentos médicos?
O homem.
Mas o homem é imperfeito, logo todo o conhecimento médico e da justiça é falível…
...
O mundo é mesmo um lugar estranho…
Pois é.
Mas de quem? A quem queres tu matar e odiar?
Ele.
Ele quem? De quem falas tu?
Dele, tu sabes quem.
Que te leva a pensar que sei? Eu sou a tua consciência e não faço ideia de quem estás tu a falar!
Cala-te consciência, estou a tentar perceber quem sou!
Certo…
Quem sou? Onde estou?
…
Serei eu apenas um pedaço de carne num espaço infinito?
…
Ou serei eu uma personalidade crescente, um herói para o mundo?
...
Ou talvez, eu seja…um sonho, uma memória ardente de um amor à muito perdido. Quem sou eu consciência?
Sei tanto quanto tu. Eu não passo da tua consciência.
Bah, de que me vales tu, se só sabes o que eu já sei.
Mas o que sabes tu?
Eu…sei falar. Sei onde estou. Conheço como sou. Será que me conheço?
Estás a dormir. E num sonho é difícil distinguir a realidade da imaginação. Não passas de um corpo dormente que aguarda pela sua hora de se libertar do feitiço de Salomão. Acorda que o teu tempo chegou.
Onde raio estou? Espera, ainda não abri os olhos. Já está. Que sitio é este? Parece um cubo… O que é um cubo?
È um sólido limitado por seis faces quadradas e iguais entre si, meu caro.
Ah, certo. Caro? Que é isso? É o meu nome?
Não, é uma expressão que escolhi para te poder chamar. Faço-o, pois não sei o teu nome. E antes que perguntes, nome é a palavra que designa pessoa, coisa ou animal.
E qual delas sou eu?
Uma pessoa, se não me engano.
As consciências enganam-se? O que é uma consciência? Para que serves?
Eu sou a moral em ti. Eu sou o que sabes. Eu distingo o bem do mal, o certo do errado.
Errado para quem?
Tudo o que digo serve para preservar a tua vida. Estou assim, sempre certo e correcto.
Estou a ver...Vou-me esforçar por abrir os olhos. Uma luz passa por mim. Demoro a abrir os olhos. Abri. Continuo no mesmo cubo. Sinto algo que me faz doer o corpo. Será esta dor normal?
Eu não sinto a dor, eu simplesmente faço tudo para impedir que a tenhas. Mas não é normal que tremas o corpo por culpa da dor que sentes. É sem dúvida estranho. Caíste.
Como sabes?
Estás a sangrar. Caíste. Ou foste espancado. Tens algumas feridas profundas e graves.
Que interessa... Não sei o que é isso de sangrar. Oiço vozes. Alguém vem ai.
Dorme.
Porquê?
Porque podes compreender quem és pela voz de outros.
O quê?
Dorme...
2. Acordei, mais uma vez
Sim, acordaste.
Porque estou preso? Sinto-me bloqueado, por algo que me prende o corpo.
São cintos de segurança.
Para que servem?
Para te manter seguro.
Se me querem manter seguro, porque me prendem?
Estás num transporte, num veículo que te leva para algum lado. E os transportes precisam de cintos de segurança. Para te protegerem, se por acaso sofreres algum acidente.
É possível termos um acidente?
São muitas as probabilidades de tal acontecer, sim.
Então, porque andamos neste transporte? Não seria melhor andarmos a pé?
Estás magoado, querem-te levar o mais depressa para um sítio onde te possam curar.
Mesmo correndo o risco de me magoar ainda mais, se ocorrer um acidente?
Sim.
Ah.
...
Não parece ter muita lógica o transporte... E porque estou magoado? Quem me magoou?
Talvez tu mesmo. Talvez sejas masoquista e tenhas prazer em sofrer. Ou talvez não.
Ser masoquista, é normal?
Não. Mas não é anormal. É apenas…diferente.
Não sou diferente. Sou normal.
Acredito que o sejas.
Não gosto de estar preso. Não quero estar preso.
Estás preso para tua segurança. Não estás numa prisão.
O que é uma prisão?
È um lugar, onde aqueles que são considerados perigosos para a humanidade, são postos.
Ah. E quem decide quem lá fica?
A justiça. A justiça decide quem vai para a prisão. Os que não cumprem são presos.
Estou a ver… E quem fez a justiça?
A humanidade, há muitos anos atrás. E adapta-se constantemente aos novos tempos.
Mas quem vai para a prisão não são homens?
Sim.
Quem nos diz, que os homens que criaram a justiça tinham razão? Quem nos diz que eles criaram algo correcto? Quem foram eles para julgar os maus e os bons? Errado e certo?
Alguém tem de julgar, se não o mundo seria selvagem, violento, assassino. Uma anarquia.
Portanto a justiça impede a violência e a morte?
A morte é inevitável. Mas a justiça tenta acabar com a violência desnecessária, sim.
Desnecessária?
Sim, existe violência necessária e desnecessária.
E quem pratica a violência necessária?
As forças da lei.
Quem controla as forças da lei?
A justiça.
...
...
Não é um pouco contraditório?
Não.
Se o dizes...
3. Qual é o seu nome? Onde vive?
Quem está a falar? Não és tu consciência? Quem é?
É uma enfermeira.
Para que serve uma enfermeira?
As enfermeiras cuidam dos doentes, mental e fisicamente. Trabalham em hospitais.
Porque estou num hospital?
Estás doente. Já não te lembras do transporte e dos cintos de segurança?
Ah, sim tens razão. E qual é o meu nome, e onde vivo?
Não te recordas?
Não. Era suposto eu saber?
Claro que era! Todas as pessoas têm um nome. Já algumas não têm onde viver, coitadas.
Coitadas? Porque são coitadas?
Acho que isso não interessa agora. Apenas o teu nome e morada.
Que eu não sei.
O seu nome, senhor? E a sua morada?
Não me recordo do nome.
Não se lembra do seu nome...? Não tem algum cartão, foto? Traz algo consigo?
Receio que não. Não me lembro de nada.
Como me chamo e onde vivo? Estás-me a esconder alguma coisa?
Não ganharia nada em te esconder alguma coisa. Não te sei responder.
Não sabes? Para que serves tu então? Sabes tanto como eu: nada!
Eu sou a tua moral, não sei coisas da tua vida, apenas o mais certo a fazer. Definições e…
Diz-me o que é mais correcto a fazer então?
Diz-lhe que não estás bem, talvez com o tempo te recordes. Precisamos de tempo.
Precisamos? Para quê?
Diz-lhe apenas isso.
Desculpe, está a falar comigo? Disse algo e não percebi o que era.
Não, não. Ah, eu não me estou a sentir bem. Pode ser que me recorde depois.
Ah. Está certo então, é melhor descansar. Não se sente bem? O que lhe dói?
A barriga e a cabeça está um pouco nublada.
Bom, vamos lá ver essa barriga.
Ela não sai daqui?
Devias ter apenas dito que te doía a cabeça!
Não me lembrei. Estou nervoso.
Tem calma, deixa ela acabar de fazer, o que quer que ela esteja a fazer.
Certo.
Dói-te mesmo a barriga?
Não.
Então porque disseste que te doía?
Senti uma vontade, dentro de mim, de ela me tocar na barriga. Não sei bem porquê…
O quê? Isso não tem lógica! Lógica nenhuma mesmo…
Bem, não consigo perceber qual é o seu problema. Talvez...
Eu se calhar só preciso de descansar, dói-me um pouco a cabeça.
Bom, vou ver se lhe arranjo algo então. Descanse.
Sim, obrigado.
Pronto, despachado.
Sim, por enquanto.
Preciso mesmo de fechar os olhos. Preciso de fechar os olhos e adormecer e...
Descansa então, depois tentamos perceber o que se passa com as tuas recordações.
4. As minhas quê? Que falavas antes de eu adormecer?
Já acordaste?
Sim, sim. Porquê, não dormiste?
A consciência não dorme, está sempre a pensar.
A pensar no quê?
Em resolver problemas, dúvidas, medos, perguntas, quebra-cabeças, adivinhas, dilemas…
Como o facto de não me lembrar de nada?
Exacto. A tua falta de recordações. Mas não descobri nada. Não percebo.
A minha falta de quê? Recordações?
Sim, noções da vida que tens. Memórias de momentos bons, pessoas a recordar, lugares em que já estiveste. A tua vida. A experiência que adquiriste dos erros que cometeste.
Eu errei?
Sim, inevitavelmente erraste. Todos erram. Ninguém é perfeito.
Tu também erras?
Eu apenas penso no mais correcto a fazer, independentemente das consequências gerais.
Se ninguém é perfeito, porquê a definição do perfeito?
O perfeito é muitas vezes visto como uma meta a atingir, um objectivo a cumprir.
Mas disseste que não era possível.
A luta pelo impossível ou pouco provável, alimenta a evolução humana há milénios.
Tudo isto me parece um pouco confuso… E quanto às minhas recordações?
Não te lembras de nada? Nada que te possa indicar algo? Uma visão vaga do passado?
Nada, a minha mente está apenas encalhada contigo.
Procura no teu corpo. Uma marca, uma tatuagem, uma cicatriz, uma deformação. Algo.
Marca, tatuagem, cicatriz, deformação? Que é isso?
Com a idade deixamos algumas marcas no corpo. Nascemos com elas ou fazemo-las ao magoarmo-nos. Alguns até pintam o seu corpo para recordar alguém, mostrar um estado de espirito, honrar uma época ou apenas algo que querem marcar no corpo para sempre.
Estou a olhar para mim. Noto que tenho umas cicatrizes nos joelhos. Mas parecem dema-siado pequenas para indicar-nos o que quer que seja. E vejo um corte no polegar direito.
As cicatrizes são antigas. O corte foi uma queimadura.
Tu lembras-te?
Não, mas parece ser de uma queimadura. Consegues-te levantar? Vai à casa de banho.
Vou para onde?
À casa de banho, é a primeira porta ao lado esquerdo.
Vou para lá. Entro. Vejo uma pessoa.
És tu, no espelho. O que consegues ver mais no teu corpo?
Tenho uma bata longa. Sou ligeiramente bronzeado. Olhos castanhos.
A bata, deu o hospital. Tira-a e diz o resto do teu físico.
Tenho um corpo largo. Músculos. Um corte pequeno no lado esquerdo, perto da cintura.
No lado esquerdo? Estranho, poderia ser o corte do apêndice, mas esse é no lado direito.
Apêndice? Dizes tanta coisa que não sei o que é!
Eu sou a definição das coisas, é apenas normal que eu saiba muito. Talvez tenhas os órgãos trocados de lado, é uma hipótese. Uma minoria mundial tem os órgãos trocados.
De qualquer modo, isso não me ajuda, não é? Não consigo perceber quem sou!
Calma. Nada está perdido. O tempo está do nosso lado.
Está?
Sim! Ninguém te persegue. Ninguém te procura. Ninguém te deu por desaparecido.
Mas como é que tu sabes? E isso é bom para mim em que sentido?
Seria pior se ainda estivesses no chão, a sangrar feito morto, sem te mexeres.
Sim, tens razão. Mas não sei quem sou. Sinto-me vazio. Como se estivesse morto.
5. Como se sente?
Melhor que quando cheguei, sem dúvida.
Óptimo. Ao que parece sofre de um problema nas pernas.
É muito mau?
Está incapacitado de andar e poderá sofrer nos braços. Mas não é permanente.
Ah...
O que é óptimo!
Sim, claro que é.
Teremos de marcar uma operação.
Está certo.
Portanto, entretanto eu irei ajuda-lo no que precisa, sim?
Sim. E como faço para a chamar? Devo gritar por si?
Apenas clique nesse botão á sua direita.
Ah, muito obrigado.
Não lhe perguntaste em que cidade estamos! Nem o dia ou o ano!
Temos tempo.
Ah, agora és tu a dizer que temos tempo?
Que se passa consciência? Pareces irritada comigo.
E estou.
Mas nunca te tinha visto irritada, o que se passa?
Estás a ficar ilógico, logo eu não aprovo.
Estou o quê?
Já não ages de acordo com a lógica. Perdes-te a razão, a sabedoria e a inteligência.
Ah sim, e porque dizes isso? Em que te baseias?
Qualquer outra pessoa sendo amnésica ficaria triste, revoltada. Mas tu não. Estás normal.
Qualquer pessoa seria assim? As pessoas amnésicas? Sou diferente do diferente, então.
És. Estás apaixonado.
Isso é o quê?
É tomar o gosto por alguém, sentir que a vida seria perfeita com esse alguém. Amar.
Mas dizias, antes, que nada é perfeito! E o que é amar?
E não é. Muitas vezes as relações não correm como previsto. E amar… é complicado.
E dizes então que eu quero uma relação? Que eu estou apaixonado?
Estás.
Por quem?
Pela enfermeira.
Não! Não estou… Ou estou?
Estás.
Hum… Bom, e que podes tu fazer, consciência? Podes impedir-me de me apaixonar?
Não. Eu apenas sei que estás apaixonado. Mas não controlo o que fazes. Eu aconselho.
Estou a ver. Eu não deveria sentir algo, já que estou apaixonado? Algo tipo...
Borboletas na barriga, um calor interior, um sorriso constante, uma felicidade enorme?
Exacto, algo assim!
Não. Cada pessoa reage à sua maneira. Não há um estado de espírito apaixonado comum.
Ah... E tu, queres que eu deixe de estar apaixonado?
Eu não te posso pedir para não te apaixonares, apenas não quero que cometas erros.
Apaixonar-me por ela é um erro?
Para ti não. Não tens nada a perder. Mas para ela talvez seja.
Porquê?
Olha para ti, não tens memória, estás incapacitado. Ela tem um trabalho, e a vossa relação, sendo tu um doente amnésico, não resultaria. Mas não faz mal ter esperança.
6. Estamos combinados?
Sim. Quando ela voltar, pergunto se posso almoçar com ela. Assim vou estar com ela fora do recinto do hospital. E aí a lógica de paciente doente não se aplica.
Exactamente.
E lá fora ela não terá problemas em reagir como uma pessoa normal e não como a minha enfermeira. Perde o estatuto e passa a ser uma pessoa comum.
Correcto.
Certo, vou chama-la.
Diga, que se passa?
Olá. Gostaria de saber se é possível eu almoçar com...
A hora do almoço já passou. Mas naturalmente que deve ter fome. Vou já às cozinhas ver o que consigo lhe arranjar. Se calhar restou algo do almoço.
Não, desculpe mas...
Já volto, não se preocupe. Não precisa de se desculpar, volto já.
Que raio. Não resultou.
Não disseste nada! Envergonhaste-te. E mesmo que digas, duvido que resulte.
Ah, porquê?
Não sabes se ela já tem um parceiro. Nem sabes se fazes o género dela.
O género dela?
Claro, ela pode preferir homens menos musculados. Talvez mais brancos. Ou pretos.
Mas o género tem tudo a ver com a aparência? A personalidade não conta?
Claro que conta! Mas olha para ti, és amnésico! Não sabes nada de nada. O que te garante que ela está disposta a arriscar perder o seu tempo contigo?
Nada.
Exacto.
Mesmo assim, vou arriscar. Quero que ela me negue, para ter a certeza.
Porquê?
Porque assim, contento-me por saber que ao menos tentei.
Mas se ela te recusar, talvez te arrependas. Tens a certeza que queres lidar com isso?
Não. Mas também não quero ter de lidar com uma vida cheia de remorsos. Entendes?
Entendo. Penso no que é certo para ti no imediato e no futuro. Mas ambas as hipóteses podem-te fazer sofrer. Portanto, não é fácil perceber qual a mais correcta a seguir.
Tenho a certeza que é a que vou tomar. Essa, pelo menos pode resultar bem. Se não lhe disser nada, nunca vou saber se podia ter corrido bem ou mal. Vou-lhe pedir.
Tens razão. Começo a achar que...
O quê?
Nada, já te digo.
Aqui tem.
Olhe, gostaria de saber se…é possível almoçar comigo.
Ah, eu... Eu tenho que trabalhar. Posso ficar um pouco, mas depois tenho que ir.
Ah. Mas não há nenhuma hipótese de almoçarmos lá fora? Fora do seu trabalho?
Enquanto não tiver alta, não é possível. E depois eu sou enfermeira. Tem que perceber que não pode haver uma relação enfermeira paciente desse cariz.
Qual cariz?
Ah… Assim como diz. Estou aqui para tratar de si, acima de tudo.
Estou a ficar sem ideias…
Diz-lhe que não procuras algo mais que uma amiga. Já que estás tão sozinho.
Pois. É que sinto-me um pouco sozinho. Não me lembro de nada e você é a única pessoa que me conhece. Penso que, me ajudaria conversar com alguém.
Entendo. Mas vou chamar-lhe um psicólogo do hospital para falar consigo.
7. Psicólogo? Isso é o quê?
Um especialista da mente que vai tratar de ti.
E resulta?
É discutível. Eu como tua consciência, desconfio. Ele não é nenhum mágico.
Mágico?
Ele não faz milagres.
Milagres?
Tu cansas-me. Enfim, o que interessa é que ele vem cá. Não tentes parecer um maluco.
O que é um maluco?
Alguém que não é considerado normal. Que cria um mundo imaginário na sua mente. Que não age normalmente como todos os outros indivíduos. Que vê o mundo de uma maneira diferente. De uma maneira que a sociedade em comum não tolera ou aceita.
E os malucos, também vão para a prisão?
Alguns. Outros vão para o Hospício onde procuram tratamento.
Portanto são malucos e admitem que são malucos. Vão para o hospício tratarem-se.
Não, na maioria dos casos eles não admitem estar malucos. São postos de lado porque são considerados perigosos para resto da sociedade ou apenas não se enquadram nos parâmetros necessários de cada cidadão. No hospício, os médicos procuram tratar deles.
Ah. Porque eles são malucos.
Exacto.
Mas a sociedade exige parâmetros? Exige regras e leis para os cidadãos normais?
Sim. Existe um documento que intitula os direitos e deveres de todos os cidadãos. Muitos dos prisioneiros são colocados na prisão porque as suas atitudes limitam ou retiram a liberdade de outros, cometendo crimes. E isso é um desrespeito perante a lei.
Hum… E os malucos também retiram ou maltratam a liberdade de outros?
Alguns. Outros simplesmente regem-se por um código moral que a sociedade não tolera.
Estou a ver. Portanto são postos de lado, porque não aceitam pactuar com quem ordena.
Correcto.
Se são postos de lado, porque são diferentes, então a humanidade é toda igual. Não?
Não é toda igual. Mas todos respeitam o mesmo. Todos caminham para o mesmo. O que se procura é a igualdade universal, mantendo a liberdade de escolha de cada um.
Bem, parece-me que não é justo por alguém no hospício. Quem nos diz que nos temos de ser todos iguais? Talvez quem tenha razão sejam os malucos e não quem os põe lá.
Vê lá se não dizes isso ao psicólogo...
Porquê? Que queres que lhe diga?
Nada que te possa fazer parecer maluco, fora do comum ou qualquer coisa anormal.
Está bem.
Ora, boa tarde. Sou o seu psicólogo. Venho ver como está.
Olá.
Bom, já sei que não se lembra do nome nem de onde vem. Diga-me, o que sabe?
Neste momento?
Sim.
Neste momento eu sei que tenho uma voz na cabeça, que se chama consciência e que me ajuda a me orientar. Ela disse-me há pouco para eu não lhe dizer nada de estranho ou diferente se não você ponha-me no hospício junto dos malucos.
Ah… Eu… estou a ver...
Achas que me safei bem consciência?
...
Consciência, estás aí?
Tu... Raios, eu não acredito...
8. Eu disse para não pareces maluco! Porque não mentiste?
Eu disse apenas a verdade! E o que é isso da mentira?
Mas… É o acto de ocultar a verdade ou de atenuar a realidade encobrindo alguns factos.
Eu não fiz isso!
Pois não! Mas devias ter feito! É o que as pessoas normais fazem em caso de necessidade!
Porquê? Não me parece correcto isso que chamas de mentir. Porque mentem as pessoas?
Porque precisam de esconder algo. Ele agora vai-te por num hospício junto dos malucos!
Começo a gostar mais dos malucos do que dos que estão cá fora. Ao menos não mentem!
O quê? Como podes dizer algo assim? Os que estão cá fora são os saudáveis e normais!
Os que estão cá fora, vivem as suas realidades e não aceitam a realidade dos que estão no hospício. Que raio de pessoas são estas? Ao menos os loucos admitem que vivem numa realidade diferente, segundo as suas normas e feitios. Não mentem. São reais.
Mas eles... eles são os marginais! Os diferentes. Os anormais. Os loucos!
Não me interessa.
Os normais são os que vivem cá fora. Em sociedade. Em união. Em grupo.
Se esses são os normais então eu prefiro ser anormal. Recuso-me a pactuar com uma sociedade que põe de lado os diferentes. Pensei que a ideia da sociedade era viver-se em união. Em liberdade. E contudo falas-me da vontade de toda a gente parecer igual, semelhante uns aos outros. Presos por regras. Isso não. Prefiro admitir que sou diferente.
Bem, eu não posso dizer que te entendo… E na verdade gostava de te poder convencer do contrário. Não me pareces muito lógico e contudo não sei o que te dizer.
Não digas mais nada. Fiz a minha escolha. Se ter-te na minha mente faz de mim um ser anormal, então chamem-me de louco… Como é a vida num hospício?
Estranha. Assustadora. Acordada. Violenta. Diferente.
Como é a vida na cidade? Que promessas me dá, que realidades me aguarda?
A cidade promete direitos. Hipóteses e garantias de trabalho e dinheiro. Mas nem todos se safam. Alguns vivem na rua. Outros trabalham muito, para um mísero quarto. Infestado de doenças e parasitas. Outros sobem na vida e vivem o sonho. Mas mesmo aí são alvos de inveja, medo e violência. Alguns passam fome e vivem uma vida sem objectivos.
Como vês, não estou seguro em lado algum. Consciência, de que me procuras defender, se em nenhum lado estou em segurança?
Procuro-te defender de qualquer coisa que te possa magoar. Ferir. Mas hoje em dia é difícil viver-se em paz. E nem todos fomos feitos para sermos monges, isolados na nossa montanha. A rezar e a orar.
Rezar e orar? Monges?
São pessoas comuns que seguem uma religião ou um ideal de paz. Vivem o que defendem no seu dia-a-dia. Procuram a paz interior e têm uma vida de meditação e dedicação.
Paz interior... Agrada-me a ideia. Será possível viver uma vida assim, num hospício?
Quem sabe. Foi uma escolha que tomaste. Espero que tudo corra bem.
Vais-te embora?
Não. Fico aqui na altura em que te levarem para o hospício. E daí para frente, fico contigo até ao fim. Eu faço parte das tuas escolhas, quer sejam erradas ou boas.
Obrigado. Já agora, eu serei internado, porque me vêm como uma pessoa louca?
Sim. Segundo as normas e os conhecimentos médicos, consideram-te um louco.
E quem criou as normas e os conhecimentos médicos?
O homem.
Mas o homem é imperfeito, logo todo o conhecimento médico e da justiça é falível…
...
O mundo é mesmo um lugar estranho…
Pois é.
Rita B: Conto de uma noite de Santo António
Quando entrou no carro, decidiu respirar fundo antes de arrancar; apoiou a cabeça e as duas mãos no volante e assim permaneceu durante alguns segundos.
Tinha acabado de sair do trabalho e não tinha a mínima vontade de ir festejar… Hoje tinha sido um dia complicado. Mais uma vez contivera-se o suficiente para não virar costas a tudo e sair porta fora. Odiava aquilo que fazia, e as pessoas que trabalhavam consigo não ajudavam a minimizar a situação. Ligou o rádio…”Toda a cidade flutua, no mar da minha canção, passeiam na rua pedaços de lua, que caem no meu balão (…)”
A música que estava a tocar alterou-lhe por completo o estado de espírito, pois começou gradualmente a sorrir, abanando os ombros como que a dançar; lembrou-se novamente da noite que se aproximava e arrancou…
Maria tinha combinado jantar com uns amigos, ou seja, aceitara o convite de um amigo para jantar com amigos dele; e andava bastante entusiasmada, tendo já inclusive escolhido roupa para a ocasião, mas o dia já tinha sido bastante comprido para si… e toda aquela enorme vontade diminuíra; conduzia depressa, mas os acessos condicionados das ruas, dificultaram a simples tarefa de chegar a casa. Morava numas águas-furtadas, num beco de Alfama, e demorava aproximadamente quinze minutos de sua casa ao local de trabalho; naquela noite demorou uma hora e vinte minutos…
Ao entrar em casa, poisou a mala no cabide que estava no corredor e dirigiu-se dançando para a pequena sala; ligou o rádio e começou afastar-se em direcção ao quarto, bamboleando as ancas e cantarolando, “(…) e na canastra a caravela, no coração a fragata, em vez de corvos no xaile, gaivotas vêem pousar, quando o vento a leva ao baile, baila no baile (…)”. Tinha acabado de decidir que não iria ao jantar; ia tomar um banho, comer qualquer coisa e talvez mais tarde então se encontrasse com eles. Procurou o telefone no fundo da sua mala; uma mensagem escrita era melhor que uma chamada; assim não haveria hipótese de a tentarem dissuadir; agilmente, digitou a mensagem e enviou-a. A resposta não tardou em chegar:” Já vi que estás numa de anti-social… mas quando estivermos a sair, passo por aí para te apanhar. Bjs”. Sorriu atirando o telefone para cima do sofá e encaminhando-se para a casa de banho, continuou a cantar:” (…) vende sonho e maresia, tempestades apregoa, seu nome próprio Maria, seu apelido Lisboa…”
Ás onze e meia, Maria estava já pronta… aguardava sentada no sofá, com o olhar perdido no céu estrelado que do alto da sua janela avistava. O som de aviso de uma nova mensagem despertou-a; dizia para descer…
Tinha conseguido, pensava observando o seu reflexo no espelho; o vestido cor-de-rosa assentava-lhe na perfeição… deu uma volta, sobre si mesma; queria ver a roda da saia… Do cabelo solto e ainda húmido, pendia uma rosa vermelha, presa com um gancho. Antes de sair, debruçou-se á janela e deixou o seu olhar percorrer uma vez mais as casas e as ruas, até encontrar o rio… Tinha-se habituado á sua companhia e agora não conseguia viver sem ele; julgava mesmo conhecer todos os tons de azul da água, inclusive aquele tom em que o azul empalidece e se une no horizonte á névoa das nuvens sobre o céu. Desceu o olhar pelos telhados e fixou-o na agitação da rua; na multidão de pessoas que passava; nas fitas coloridas, presas nas varandas, que formavam um toldo sobre a estreita ruela; as floreiras em flor que se assemelhavam a pequenos jardins flutuantes… Ao fundo, pairava já sobre a cidade uma espessa nuvem de fumo, proveniente dos assadores, que começavam agora a crepitar…” Lisboa velha cidade, cheia de encanto e beleza, sempre a sorrir tão formosa e no destino, sempre airosa (…). Sacudiu a cabeça e passou a mão sobre as pregas do vestido, endireitando-o… Saiu…
O cheiro a sardinha assada pairava no ar. Cá em baixo, á sua porta, um grupo de pessoas olhava na sua direcção; o amigo sorria-lhe de copo na mão: - Esta é para ti!!! – Maria desceu o degrau que os separava, e abraçou-o com uma mão, enquanto que a outra agarrava no copo. Virou depois a cabeça e sorriu para os amigos do amigo, dizendo boa noite.
- Bem, vamos? - ouviu-se uma voz vinda do meio do grupo; Maria entrelaçou o seu braço no de João e assim caminharam, de braços dados como de um casal se tratasse. – Sozinha, pá? Outra vez??? - disse João, enquanto tentavam seguir o resto do grupo, disperso pelo meio da multidão;
- O habitual, acho eu!... Já nem ligo… - retorquiu Maria, ao mesmo tempo que se tentava equilibrar, pois um dos seus pés estava enfiado no carril do eléctrico, e a multidão atrás de si continuava a empurrar, fazendo pressão para avançar; João puxou-a antes que tivesse tempo de cair e Maria agradeceu rindo (naquela noite o trânsito pedonal ficava congestionado e toda e qualquer circulação tinha de ser feita devagar).
Esta pergunta surgiu porque a situação era de conhecimento geral; ela queixava-se constantemente do mesmo; o facto de o noivo estar sempre ausente e a consequente solidão que por vezes sentia. Não fossem os amigos e alguns familiares mais chegados, provavelmente já teria enlouquecido… No início não era nada assim e por isso, quando o pedido de casamento surgiu, passado dois anos de namoro, foi aceite por Maria com convicção, ou seja com toda aquela que se pode transpor para uma resposta deste tipo. Decidiram seguir a tradição e marcar a data para o dia de santo António, mas esse capricho custou-lhes terem de esperar dois anos por uma vaga na igreja escolhida; conformados e felizes aceitaram… agora faltava precisamente um ano para o tão ansiado dia… E a alegria inicial dera lugar á duvida e á tristeza… Maria já não tinha tanta a certeza de aquele ser o passo certo a dar… Já tinha dado por si algumas vezes a pensar em cancelar o casamento…
Para si a definição de uma boa relação assentava nos princípios de companheirismo acima de tudo; logo a de casamento era: amantes companheiros a partilharem o mesmo espaço - pensava ela. E no último ano e meio tinham sido tudo menos companheiros; tempo para estarem um com o outro era difícil de conciliar, e já nem partilhavam as pequenas coisas que tornavam os seus dias diferentes; geralmente ele chegava, tinha a chave do seu apartamento, ela já estava deitada ou dormitava no sofá… apenas dormiam juntos… Nessa noite, mais uma vez, o seu mais que tudo tinha de trabalhar… A combinação entre um mau dia de trabalho e uma crise de consciência tinham ditado a sua disposição no início da noite.
João era um amigo bastante chegado e com quem ela desabafava constantemente; já a tinha questionado acerca do casamento, se ainda era importante para si; Maria respondera que sim, que ainda o amava e que provavelmente tudo não passava de uma fase passageira… mas no fundo sabia que estava a mentir... continuava agarrada a essa ideia pois na sua cabeça era inconcebível não haver casamento, mesmo já tendo pensado diversas vezes nessa opção. Imaginem cancelar o casamento!... O que diria á família? E as pessoas o que iriam pensar? Sem contar com o sonho da sua falecida mãe, de a ver entrar vestida de branco na igreja… não, andava novamente com a cabeça nas nuvens e com ideias enubladas, como dizia a tia Aurora, que a havia criado.
João seguia agora na frente, abrindo caminho, segurando no braço de Maria; a cada passo que davam, ouviam o barulho do plástico dos copos por baixo dos pés; quase como se tivessem coberto as ruas da cidade com um tapete de plástico transparente, que protege a calçada nessa noite.
- Para onde? - ouviram gritar os dois;
- Para a rua dos Corvos!!! - alguém respondeu.
- Mas afinal vamos para onde? - perguntou Maria, puxando João e gritando-lhe ao ouvido…
- Não disseste que querias dançar? - disse rindo - Vamos a um bailarico, ali no largo da igreja de S. Miguel.
Maria riu-se também com a resposta. Sim, uns dias antes, quando ainda não sabiam o que iriam fazer nessa noite, Maria apenas dissera que queria dançar; adorava dançar… o resto não lhe importava, podiam combinar o que quisessem… nessa altura ainda fazia planos para levar consigo o namorado.
Quando finalmente chegaram ás Escadinhas do Arco da Dona Rosa, pararam e tentaram reunir o grupo todo, para ver se ninguém tinha ficado para trás; mas Maria já nada ouvia, porque ao fundo, debaixo daquela nuvem escura que anuncia a noite, o rio… as luzes brilhantes reflectidas…com aquele tom de azul escuro que se confunde com a noite… Alguém lhe dá um encontrão, que faz com que ela avance mas nunca desviando o olhar, preso no horizonte, embalado pela corrente. Consegue descer dois degraus antes de parar novamente; não percebe a pressa das pessoas e muito menos naquela noite, quando toda a cidade decide sair á rua para celebrar. É uma jovem rapariga, amiga do seu amigo, que lhe diz:
- Vamos descendo? - e sorri; Maria abana a cabeça afirmativamente e deixa-se ficar para trás, á espera de João; deixa-o passar á sua frente e segue-o.
A fila avança lentamente pela escadaria, arrastando Maria consigo; ela continua com o olhar perdido, ainda a navegar pelo Tejo. Quando ouve um barulho de algo a partir, nem tem tempo de se aperceber antes de cair; rebola por dois degraus até ser agarrada por um braço forte que a levanta; ao tentar perceber o que aconteceu, volta-se e vê algo partido no chão… Uma rapariga, que estava sentada num pequeno banco de madeira no lado oposto ao altar, levanta-se bruscamente e agarra num dos dois pedaços que se encontram no chão, olhando para Maria com ódio… Reparou então que o que ela segurava na mão era uma das pernas da estátua do Santo António; Maria tinha tropeçado num altar e tinha deixado cair a estátua. Sem ainda ter noção do que tinha acontecido, apanhou a carteira e o casaco do chão…Ao flectir a perna, para se baixar, sentiu uma dor no joelho e olhou na direcção do mesmo: um fio de sangue escorria pela perna. Ao mesmo tempo que se baixava, procurava com o olhar o rosto que fazia parte do braço que a ajudara a erguer-se; não o via… procurou o amigo, mas também não o encontrou… Voltou-se novamente para a moçoila mal encarada que tentava compor o altar novamente, murmurando algo entre dentes.
- Peço imensa desculpa!!! – disse Maria envergonhada, mas o olhar de raiva da miúda fê-la desejar ter algo mais grave do que a simples mazela no joelho.
Tentou minimizar os estragos, oferecendo-se para pagar uma nova estátua, mas a dona continuava a ignorá-la, não lhe dirigindo sequer a palavra. Continuou a insistir, não obtendo resposta alguma e alegando continuamente que fora sem intenção. Ao fim de algum tempo desistiu e virou costas á rapariga, ao altar e ao santo partido. Por esta altura já João tinha voltado atrás á sua procura;
- Então? Onde é que te meteste? Anda…
- Vais só ver o que te vai acontecer!! Vais ver… - foi a única coisa que Maria ouviu antes de começar novamente a descer a escadaria.
- Vamos!... - respondeu Maria, apoiando-se no ombro de João… - Nem imaginas o que acabou de acontecer!... - e resumidamente contou-lhe o sucedido.
Estava irritada; doía-lhe a perna e o joelho; não conseguia perceber como tinha caído, e logo em cima do Santo António… muito menos entendia a reacção da rapariga, que se recusara a dirigir-lhe a palavra… á medida que descia os degraus, lentamente, observava as dezenas de pessoas no constante sobe e desce… emaranhado que não fora suficientemente coeso para não a deixar cair…
Com a perna dorida, chegou ao fim da escadaria; o restante grupo aguardava por eles mas João disse-lhes para irem andando que eles já iriam lá ter… Maria sentou-se na soleira de uma porta, para ver o joelho;
- Deixa-me ver isso!... - disse João, pondo-se de joelhos no passeio para observar a ferida - Passa-me um lenço de papel…não é nada de grave… - disse sorrindo, olhando ternamente para ela. Maria abriu a sua mala e retirou um lenço de papel do pequeno maço; - Mas não temos água para o molhar… - disse.
João olhou á sua volta e depois na direcção da sua mão; ainda tinha um resto de cerveja no copo que poisara ao seu lado; sem demoras, deitou-a por cima do lenço e limpou o sangue seco e a areia do joelho;
- Só tu!!! Cinco minutos, não foi mais que isso, o tempo que não estive a olhar para ti… - dizia ao mesmo tempo que dobrava o lenço e repetia a operação; - A sério, só contigo Maria!!!...
Ela nada dizia; observava a delicadeza dos seus gestos; estava a gostar daquela atenção; não se mexia sequer…
- Imagino a tua cara quando te levantaste do chão!... Ninguém te ajudou?
- Havia um braço de um homem… forte… que me ajudou a levantar… mas como deves calcular nem lhe vi a tromba… - respondeu ela.
- Bem, aguentas ou queres ir para casa?
- Desculpa??!! Foi apenas um arranhão, estou óptima… estás parvo? - respondeu Maria levantando-se; mas a expressão do seu rosto fez João soltar uma gargalhada:
- Dói-te, não dói? - ela riu-se:
- Mas não o suficiente para me fazer ir para casa e ficar por lá sozinha…
- Então, anda… Vamos dançar!
- E beber! Vamos!... - disse Maria, entrelaçando novamente o braço no dele… E assim se misturaram com a multidão…
“Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza não vais ser feliz; Lisboa, que ideia daninha, vaidosa alfacinha casar com Paris (…)”
No largo da igreja, vários pares dançavam… sorrisos rasgados nos rostos… e olhares perdidos deixavam antever que o bailarico estava animado; junto ao bar improvisado, rostos conhecidos… os dois atravessaram a “pista de dança” e foram ter com eles… a aventura foi contada por entre uma rodada de cerveja e todos riram, inclusive a própria Maria… Não fossem as picadas no joelho de quando em quando e tudo aquilo poderia ter sido apenas mais um dos seus devaneios… os copos vazios tombavam no chão, ajudando no fabrico, colectivo, do tal tapete protector da calçada…
“Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa, e se á porta humildemente bate alguém, senta-se á mesa com a gente (…)” - ouvia-se agora; Maria, agarrou no braço de João e disse:
- Vá, anda dançar comigo!... Prometeste que dançavas… - insistiu ela, sabendo que ele não gostava muito de dançar e, por esse motivo, obrigara-o a jurar que dançaria pelo menos três musicas antes de aceitar o convite.
João cedeu e deixou-se arrastar por ela; dançaram… Maria soltava gargalhadas de cada vez que ele a fazia rodopiar… ele aos poucos também se foi desinibindo… uma musica após outra… apenas paravam para se dirigirem ao bar, quando os copos já estavam vazios… mas rapidamente voltavam, retomando os seus lugares… já não sentia o joelho, não se lembrava da queda e muito menos pensava no namorado… rodopiava alegremente… na sua cabeça só ouvia a música… e mais ainda lhe apetecia dançar…
- Maria, preciso de descansar… - disse João ofegante - Para!!!... - e afastou-se, sempre com o copo na mão, sentando-se no degrau da igreja; Maria seguiu-o, sempre a balouçar as ancas, marchando…
- Anda lá!... Tens dez minutos para te recompores… - disse, mantendo-se de pé na sua frente…
- Tu não te cansas, mulher?...
- Não!... - e continuou a dançar sozinha… tal qual varina marchando pela avenida… sentiu uma mão a tocar na sua, ao mesmo tempo que ouvia:
- Queres dançar… comigo?...
Maria voltou a cabeça e viu um homem de braço esticado a sorrir para si; numa situação normal o mais provável seria responder que não, mas naquela noite, deixou-se levar pelo momento e virando a cabeça na direcção de João, disse:
- Já que tu não queres dançar, paciência!... Danço eu… - e seguiu o estranho.
“(…) aí Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor de rosa, dos pregões tradicionais; aí Mouraria (…)”; o ritmo da música ditou um abrandamento dos passos de dança e Maria aproveitou para observar o homem; começou pelo braço que segurava a sua mão, firmemente esticado… as veias, salientes como pequenas cordilheiras, sobressaíam da sua pele morena, mas baça e seca… queimada do sol… uma linda boca… pequena… Maria corou…
- Espero que não te tenhas magoado… - disse-lhe, não parando de dançar.
Maria não percebeu…
- Desculpa?!!!
- A escadaria? O Santo António partido?... Não te lembras? - disse, rindo.
Maria olhava agora novamente para o seu braço e rapidamente o reconheceu…Tinha sido ele que a ajudara a levantar; tinha sido um daqueles braços fortes, que agora a seguravam com firmeza enquanto dançavam, que ela vira no meio da multidão…
- Ah! Desculpa não te ter reconhecido… - disse, um pouco envergonhada - E aproveito também para te agradecer… - continuou, baixando os olhos…
- Bem, não tens de quê… mas aleijaste-te?
- Não!... Quer dizer, um arranhãozito no joelho… coisa pouca…
Ele parou de dançar e baixou-se para ver…
- Não parece nada de grave… - disse, ao mesmo tempo que se levantava e a agarrava novamente pela cintura, fazendo-a rodopiar com a outra mão…
O seu nome era Ernesto e era marinheiro; estava de licença e por isso aproveitara para festejar o Santo António com uns colegas; fora mero acaso a sua presença na escadaria nessa noite; tinha-se perdido dos companheiros e por isso decidira voltar atrás para ver se os encontrava; essa resolução implicou subir novamente a escadaria do Arco da Dona Rosa… foi aí que se cruzaram... continuavam a dançar mesmo enquanto ele falava… os seus olhares não se cruzavam…Maria escutava-o… Havia algo de familiar nele... Por momentos veio-lhe á memória a imagem do seu pai; era um homem robusto, com braços fortes e compridos… tinha em comum com Ernesto aquele tom moreno, baço e desgastado… que só os homens do mar têm… fechou os olhos e por breves instantes conseguiu ver o seu rosto…
“(…) das festas, das seculares procissões, dos populares pregões matinais que já não voltam mais!...” - a música tinha acabado e Maria abriu novamente os olhos… continuavam ainda de mão dada… ele olhando para ela sorrindo…
- Ah!!! O João!!!... Esqueci-me completamente dele… - e procurou-o com o olhar; encontrou-o encostado ao balcão do bar, em amena cavaqueira com três ou quatro raparigas; sorriu e voltou-se para o seu salvador:
- Preciso descansar um bocado… - disse, largando a mão dele, nervosamente…
- Ok… Podíamos procurar um sitio com menos barulho, onde nos pudéssemos sentar e conversar… Talvez assim conseguisse saber alguma coisa sobre ti, já que fui só eu que falei… Além disso preciso de companhia até ás cinco da manhã - disse olhando para o relógio - … já só falta hora e meia… e perdi os meus amigos…
Os seus olhos escuros brilhavam enquanto falava; Maria observava-o… aquele brilho… já o tinha visto antes… e mais uma vez a imagem do pai… sempre que saia para o mar… na altura perguntara-se se não seria o reflexo do rio, mas não… o brilho mantinha-se igual, mesmo quando não havia rio nem sol por perto…
- Então?...
Maria olhava para ele com um sorriso distante; ele tocou-lhe no braço como que a puxá-la de volta para a realidade;
- Hã?!... Desculpa… Sim… acho que sim… - balbuciou Maria, sem ter a certeza da resposta… - Mas tenho de falar com o João… Dás-me um minuto?... - e dirigiu-se para o bar… João ao vê-la esboçou um sorriso maroto;
- Ora, ora… pensei que já não te via mais esta noite - disse com voz arrastada…
- Foi ele que me ajudou quando eu cai, acreditas nisto?... - respondeu Maria excitadamente… - Vou acompanhá-lo ao cais de Santa Apolónia… Queres vir?
- Já ouviste aquela frase?... Um é masturbação, dois é bom e três é demais… -e soltou uma gargalhada…
Rindo-se, Maria puxou-o para si e disse-lhe ao ouvido:
- Vontade não me falta… mas tu conheces-me, meu amigo… não consigo…
- Eu sei… e por isso não estou minimamente preocupado contigo… passo a pasta ao grandalhão… ele que continue a tomar conta de ti por hoje - respondeu ele, beijando-a na mão…
Maria soprou um beijo na sua direcção e voltou para junto de Ernesto, que a aguardava na saída do largo…
- Está tudo? - disse em tom de piada, sorrindo, quando a viu chegar. Maria abanou a cabeça afirmativamente, pronta e decidida a mergulhar uma vez mais na confusão de gente que ainda deambulava pelas ruas… As barracas que vendiam bebidas, começavam agora a fechar, sinal de que já nada tinham para oferecer aos clientes… o tapete plástico tinha-se tornado mais espesso… Caminhavam lado a lado, e Maria tentava resumir a história da sua vida; falou-lhe do pai e da mãe já falecidos; do emprego que mantinha mas que detestava; do namorado ausente; do casamento marcado; das dúvidas… e só se deixou levar pela emoção quando abordou a sua paixão pelo rio…
- Acabei de ter uma ideia!... Como forma de agradecimento vou-te mostrar o meu sitio favorito da cidade… O mais bonito… - disse ela - Estás interessado?...
- Tenho tempo… e estou curioso… - respondeu Ernesto - Vamos lá…
Maria fez-lhe sinal para cortarem á direita e seguirem em frente… Passaram a Casa dos Bicos e continuaram… sempre a conversar… estava feliz por a noite não ter sido um completo desastre… de certa forma o incidente da queda até tinha ajudado a torná-la mais interessante… de outra forma não o teria conhecido… Afinal tinha de agradecer ao santo António a boa companhia daquela noite… Os vasos de manjericos perfumavam o ar… e a música ainda se fazia ouvir… Chegaram á praça do Terreiro do Paço…
- É para aqui que venho quando preciso de pensar… - e começou a andar em direcção ao rio; ele seguia-a… - Muitas das vezes sento-me lá em baixo - disse apontando para o ancoradouro.
- Tens de admitir que é um dos mais belos sítios que esta cidade tem!...
Ele caminhava atrás dela, observando-a e ouvindo-a… Preparavam-se para atravessar a estrada… não havia carros a passar e Maria avançou decididamente, mas no meio da passadeira deteve-se, voltou-se para trás e gritou:
- Despacha… - mas não acabou a frase porque sem se saber de onde apareceu um carro a grande velocidade que a abalroou… ainda tentou travar… ouviu-se o chiar dos pneus… mas no ar apenas um cheiro intenso a borracha queimada… Maria foi projectada para junto de uma das colunas do ancoradouro… Ernesto correu para junto de si… O condutor do carro também… Deitada no chão, gemia… não sentia as pernas… Ernesto ajoelhou-se ao seu lado e agarrou-lhe na mão… sentiu a mão dele a segurar a sua…
- Está bem? - perguntou o condutor com a voz a tremer… Maria virou a cabeça para responder e soltou instantaneamente um grito abafado;
- Não!... Não…
Á sua frente o noivo… era ele o condutor do carro…
- Ma… Maria!!! - exclamou ele aflito…
- Vocês conhecem-se? - perguntou Ernesto sem a largar…
- Este é o António… Aí!!!... o meu noivo…
António, permanecia lívido e sem qualquer reacção… a rapariga que viajava no carro com ele apressara-se a telefonar a chamar uma ambulância e só agora vinha ter com eles;
- Querido, está tudo bem? - e colocou o seu braço á volta da cintura de António… - A ambulância já vem a caminho…
António não respondia… dos olhos de Maria escorriam agora lágrimas… não só de dor mas também de raiva…apertou com mais força a mão de Ernesto e pediu-lhe baixinho:
- Não a largues, por favor!!!
Ernesto olhou-a nos olhos e sorriu… os seus olhos brilhavam… olhou rapidamente para as pernas dela e viu diversas fracturas expostas… voltou a olhá-la nos olhos… e apertou a sua mão com mais força…
Tinha acabado de sair do trabalho e não tinha a mínima vontade de ir festejar… Hoje tinha sido um dia complicado. Mais uma vez contivera-se o suficiente para não virar costas a tudo e sair porta fora. Odiava aquilo que fazia, e as pessoas que trabalhavam consigo não ajudavam a minimizar a situação. Ligou o rádio…”Toda a cidade flutua, no mar da minha canção, passeiam na rua pedaços de lua, que caem no meu balão (…)”
A música que estava a tocar alterou-lhe por completo o estado de espírito, pois começou gradualmente a sorrir, abanando os ombros como que a dançar; lembrou-se novamente da noite que se aproximava e arrancou…
Maria tinha combinado jantar com uns amigos, ou seja, aceitara o convite de um amigo para jantar com amigos dele; e andava bastante entusiasmada, tendo já inclusive escolhido roupa para a ocasião, mas o dia já tinha sido bastante comprido para si… e toda aquela enorme vontade diminuíra; conduzia depressa, mas os acessos condicionados das ruas, dificultaram a simples tarefa de chegar a casa. Morava numas águas-furtadas, num beco de Alfama, e demorava aproximadamente quinze minutos de sua casa ao local de trabalho; naquela noite demorou uma hora e vinte minutos…
Ao entrar em casa, poisou a mala no cabide que estava no corredor e dirigiu-se dançando para a pequena sala; ligou o rádio e começou afastar-se em direcção ao quarto, bamboleando as ancas e cantarolando, “(…) e na canastra a caravela, no coração a fragata, em vez de corvos no xaile, gaivotas vêem pousar, quando o vento a leva ao baile, baila no baile (…)”. Tinha acabado de decidir que não iria ao jantar; ia tomar um banho, comer qualquer coisa e talvez mais tarde então se encontrasse com eles. Procurou o telefone no fundo da sua mala; uma mensagem escrita era melhor que uma chamada; assim não haveria hipótese de a tentarem dissuadir; agilmente, digitou a mensagem e enviou-a. A resposta não tardou em chegar:” Já vi que estás numa de anti-social… mas quando estivermos a sair, passo por aí para te apanhar. Bjs”. Sorriu atirando o telefone para cima do sofá e encaminhando-se para a casa de banho, continuou a cantar:” (…) vende sonho e maresia, tempestades apregoa, seu nome próprio Maria, seu apelido Lisboa…”
Ás onze e meia, Maria estava já pronta… aguardava sentada no sofá, com o olhar perdido no céu estrelado que do alto da sua janela avistava. O som de aviso de uma nova mensagem despertou-a; dizia para descer…
Tinha conseguido, pensava observando o seu reflexo no espelho; o vestido cor-de-rosa assentava-lhe na perfeição… deu uma volta, sobre si mesma; queria ver a roda da saia… Do cabelo solto e ainda húmido, pendia uma rosa vermelha, presa com um gancho. Antes de sair, debruçou-se á janela e deixou o seu olhar percorrer uma vez mais as casas e as ruas, até encontrar o rio… Tinha-se habituado á sua companhia e agora não conseguia viver sem ele; julgava mesmo conhecer todos os tons de azul da água, inclusive aquele tom em que o azul empalidece e se une no horizonte á névoa das nuvens sobre o céu. Desceu o olhar pelos telhados e fixou-o na agitação da rua; na multidão de pessoas que passava; nas fitas coloridas, presas nas varandas, que formavam um toldo sobre a estreita ruela; as floreiras em flor que se assemelhavam a pequenos jardins flutuantes… Ao fundo, pairava já sobre a cidade uma espessa nuvem de fumo, proveniente dos assadores, que começavam agora a crepitar…” Lisboa velha cidade, cheia de encanto e beleza, sempre a sorrir tão formosa e no destino, sempre airosa (…). Sacudiu a cabeça e passou a mão sobre as pregas do vestido, endireitando-o… Saiu…
O cheiro a sardinha assada pairava no ar. Cá em baixo, á sua porta, um grupo de pessoas olhava na sua direcção; o amigo sorria-lhe de copo na mão: - Esta é para ti!!! – Maria desceu o degrau que os separava, e abraçou-o com uma mão, enquanto que a outra agarrava no copo. Virou depois a cabeça e sorriu para os amigos do amigo, dizendo boa noite.
- Bem, vamos? - ouviu-se uma voz vinda do meio do grupo; Maria entrelaçou o seu braço no de João e assim caminharam, de braços dados como de um casal se tratasse. – Sozinha, pá? Outra vez??? - disse João, enquanto tentavam seguir o resto do grupo, disperso pelo meio da multidão;
- O habitual, acho eu!... Já nem ligo… - retorquiu Maria, ao mesmo tempo que se tentava equilibrar, pois um dos seus pés estava enfiado no carril do eléctrico, e a multidão atrás de si continuava a empurrar, fazendo pressão para avançar; João puxou-a antes que tivesse tempo de cair e Maria agradeceu rindo (naquela noite o trânsito pedonal ficava congestionado e toda e qualquer circulação tinha de ser feita devagar).
Esta pergunta surgiu porque a situação era de conhecimento geral; ela queixava-se constantemente do mesmo; o facto de o noivo estar sempre ausente e a consequente solidão que por vezes sentia. Não fossem os amigos e alguns familiares mais chegados, provavelmente já teria enlouquecido… No início não era nada assim e por isso, quando o pedido de casamento surgiu, passado dois anos de namoro, foi aceite por Maria com convicção, ou seja com toda aquela que se pode transpor para uma resposta deste tipo. Decidiram seguir a tradição e marcar a data para o dia de santo António, mas esse capricho custou-lhes terem de esperar dois anos por uma vaga na igreja escolhida; conformados e felizes aceitaram… agora faltava precisamente um ano para o tão ansiado dia… E a alegria inicial dera lugar á duvida e á tristeza… Maria já não tinha tanta a certeza de aquele ser o passo certo a dar… Já tinha dado por si algumas vezes a pensar em cancelar o casamento…
Para si a definição de uma boa relação assentava nos princípios de companheirismo acima de tudo; logo a de casamento era: amantes companheiros a partilharem o mesmo espaço - pensava ela. E no último ano e meio tinham sido tudo menos companheiros; tempo para estarem um com o outro era difícil de conciliar, e já nem partilhavam as pequenas coisas que tornavam os seus dias diferentes; geralmente ele chegava, tinha a chave do seu apartamento, ela já estava deitada ou dormitava no sofá… apenas dormiam juntos… Nessa noite, mais uma vez, o seu mais que tudo tinha de trabalhar… A combinação entre um mau dia de trabalho e uma crise de consciência tinham ditado a sua disposição no início da noite.
João era um amigo bastante chegado e com quem ela desabafava constantemente; já a tinha questionado acerca do casamento, se ainda era importante para si; Maria respondera que sim, que ainda o amava e que provavelmente tudo não passava de uma fase passageira… mas no fundo sabia que estava a mentir... continuava agarrada a essa ideia pois na sua cabeça era inconcebível não haver casamento, mesmo já tendo pensado diversas vezes nessa opção. Imaginem cancelar o casamento!... O que diria á família? E as pessoas o que iriam pensar? Sem contar com o sonho da sua falecida mãe, de a ver entrar vestida de branco na igreja… não, andava novamente com a cabeça nas nuvens e com ideias enubladas, como dizia a tia Aurora, que a havia criado.
João seguia agora na frente, abrindo caminho, segurando no braço de Maria; a cada passo que davam, ouviam o barulho do plástico dos copos por baixo dos pés; quase como se tivessem coberto as ruas da cidade com um tapete de plástico transparente, que protege a calçada nessa noite.
- Para onde? - ouviram gritar os dois;
- Para a rua dos Corvos!!! - alguém respondeu.
- Mas afinal vamos para onde? - perguntou Maria, puxando João e gritando-lhe ao ouvido…
- Não disseste que querias dançar? - disse rindo - Vamos a um bailarico, ali no largo da igreja de S. Miguel.
Maria riu-se também com a resposta. Sim, uns dias antes, quando ainda não sabiam o que iriam fazer nessa noite, Maria apenas dissera que queria dançar; adorava dançar… o resto não lhe importava, podiam combinar o que quisessem… nessa altura ainda fazia planos para levar consigo o namorado.
Quando finalmente chegaram ás Escadinhas do Arco da Dona Rosa, pararam e tentaram reunir o grupo todo, para ver se ninguém tinha ficado para trás; mas Maria já nada ouvia, porque ao fundo, debaixo daquela nuvem escura que anuncia a noite, o rio… as luzes brilhantes reflectidas…com aquele tom de azul escuro que se confunde com a noite… Alguém lhe dá um encontrão, que faz com que ela avance mas nunca desviando o olhar, preso no horizonte, embalado pela corrente. Consegue descer dois degraus antes de parar novamente; não percebe a pressa das pessoas e muito menos naquela noite, quando toda a cidade decide sair á rua para celebrar. É uma jovem rapariga, amiga do seu amigo, que lhe diz:
- Vamos descendo? - e sorri; Maria abana a cabeça afirmativamente e deixa-se ficar para trás, á espera de João; deixa-o passar á sua frente e segue-o.
A fila avança lentamente pela escadaria, arrastando Maria consigo; ela continua com o olhar perdido, ainda a navegar pelo Tejo. Quando ouve um barulho de algo a partir, nem tem tempo de se aperceber antes de cair; rebola por dois degraus até ser agarrada por um braço forte que a levanta; ao tentar perceber o que aconteceu, volta-se e vê algo partido no chão… Uma rapariga, que estava sentada num pequeno banco de madeira no lado oposto ao altar, levanta-se bruscamente e agarra num dos dois pedaços que se encontram no chão, olhando para Maria com ódio… Reparou então que o que ela segurava na mão era uma das pernas da estátua do Santo António; Maria tinha tropeçado num altar e tinha deixado cair a estátua. Sem ainda ter noção do que tinha acontecido, apanhou a carteira e o casaco do chão…Ao flectir a perna, para se baixar, sentiu uma dor no joelho e olhou na direcção do mesmo: um fio de sangue escorria pela perna. Ao mesmo tempo que se baixava, procurava com o olhar o rosto que fazia parte do braço que a ajudara a erguer-se; não o via… procurou o amigo, mas também não o encontrou… Voltou-se novamente para a moçoila mal encarada que tentava compor o altar novamente, murmurando algo entre dentes.
- Peço imensa desculpa!!! – disse Maria envergonhada, mas o olhar de raiva da miúda fê-la desejar ter algo mais grave do que a simples mazela no joelho.
Tentou minimizar os estragos, oferecendo-se para pagar uma nova estátua, mas a dona continuava a ignorá-la, não lhe dirigindo sequer a palavra. Continuou a insistir, não obtendo resposta alguma e alegando continuamente que fora sem intenção. Ao fim de algum tempo desistiu e virou costas á rapariga, ao altar e ao santo partido. Por esta altura já João tinha voltado atrás á sua procura;
- Então? Onde é que te meteste? Anda…
- Vais só ver o que te vai acontecer!! Vais ver… - foi a única coisa que Maria ouviu antes de começar novamente a descer a escadaria.
- Vamos!... - respondeu Maria, apoiando-se no ombro de João… - Nem imaginas o que acabou de acontecer!... - e resumidamente contou-lhe o sucedido.
Estava irritada; doía-lhe a perna e o joelho; não conseguia perceber como tinha caído, e logo em cima do Santo António… muito menos entendia a reacção da rapariga, que se recusara a dirigir-lhe a palavra… á medida que descia os degraus, lentamente, observava as dezenas de pessoas no constante sobe e desce… emaranhado que não fora suficientemente coeso para não a deixar cair…
Com a perna dorida, chegou ao fim da escadaria; o restante grupo aguardava por eles mas João disse-lhes para irem andando que eles já iriam lá ter… Maria sentou-se na soleira de uma porta, para ver o joelho;
- Deixa-me ver isso!... - disse João, pondo-se de joelhos no passeio para observar a ferida - Passa-me um lenço de papel…não é nada de grave… - disse sorrindo, olhando ternamente para ela. Maria abriu a sua mala e retirou um lenço de papel do pequeno maço; - Mas não temos água para o molhar… - disse.
João olhou á sua volta e depois na direcção da sua mão; ainda tinha um resto de cerveja no copo que poisara ao seu lado; sem demoras, deitou-a por cima do lenço e limpou o sangue seco e a areia do joelho;
- Só tu!!! Cinco minutos, não foi mais que isso, o tempo que não estive a olhar para ti… - dizia ao mesmo tempo que dobrava o lenço e repetia a operação; - A sério, só contigo Maria!!!...
Ela nada dizia; observava a delicadeza dos seus gestos; estava a gostar daquela atenção; não se mexia sequer…
- Imagino a tua cara quando te levantaste do chão!... Ninguém te ajudou?
- Havia um braço de um homem… forte… que me ajudou a levantar… mas como deves calcular nem lhe vi a tromba… - respondeu ela.
- Bem, aguentas ou queres ir para casa?
- Desculpa??!! Foi apenas um arranhão, estou óptima… estás parvo? - respondeu Maria levantando-se; mas a expressão do seu rosto fez João soltar uma gargalhada:
- Dói-te, não dói? - ela riu-se:
- Mas não o suficiente para me fazer ir para casa e ficar por lá sozinha…
- Então, anda… Vamos dançar!
- E beber! Vamos!... - disse Maria, entrelaçando novamente o braço no dele… E assim se misturaram com a multidão…
“Lisboa, não sejas francesa, com toda a certeza não vais ser feliz; Lisboa, que ideia daninha, vaidosa alfacinha casar com Paris (…)”
No largo da igreja, vários pares dançavam… sorrisos rasgados nos rostos… e olhares perdidos deixavam antever que o bailarico estava animado; junto ao bar improvisado, rostos conhecidos… os dois atravessaram a “pista de dança” e foram ter com eles… a aventura foi contada por entre uma rodada de cerveja e todos riram, inclusive a própria Maria… Não fossem as picadas no joelho de quando em quando e tudo aquilo poderia ter sido apenas mais um dos seus devaneios… os copos vazios tombavam no chão, ajudando no fabrico, colectivo, do tal tapete protector da calçada…
“Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa, e se á porta humildemente bate alguém, senta-se á mesa com a gente (…)” - ouvia-se agora; Maria, agarrou no braço de João e disse:
- Vá, anda dançar comigo!... Prometeste que dançavas… - insistiu ela, sabendo que ele não gostava muito de dançar e, por esse motivo, obrigara-o a jurar que dançaria pelo menos três musicas antes de aceitar o convite.
João cedeu e deixou-se arrastar por ela; dançaram… Maria soltava gargalhadas de cada vez que ele a fazia rodopiar… ele aos poucos também se foi desinibindo… uma musica após outra… apenas paravam para se dirigirem ao bar, quando os copos já estavam vazios… mas rapidamente voltavam, retomando os seus lugares… já não sentia o joelho, não se lembrava da queda e muito menos pensava no namorado… rodopiava alegremente… na sua cabeça só ouvia a música… e mais ainda lhe apetecia dançar…
- Maria, preciso de descansar… - disse João ofegante - Para!!!... - e afastou-se, sempre com o copo na mão, sentando-se no degrau da igreja; Maria seguiu-o, sempre a balouçar as ancas, marchando…
- Anda lá!... Tens dez minutos para te recompores… - disse, mantendo-se de pé na sua frente…
- Tu não te cansas, mulher?...
- Não!... - e continuou a dançar sozinha… tal qual varina marchando pela avenida… sentiu uma mão a tocar na sua, ao mesmo tempo que ouvia:
- Queres dançar… comigo?...
Maria voltou a cabeça e viu um homem de braço esticado a sorrir para si; numa situação normal o mais provável seria responder que não, mas naquela noite, deixou-se levar pelo momento e virando a cabeça na direcção de João, disse:
- Já que tu não queres dançar, paciência!... Danço eu… - e seguiu o estranho.
“(…) aí Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor de rosa, dos pregões tradicionais; aí Mouraria (…)”; o ritmo da música ditou um abrandamento dos passos de dança e Maria aproveitou para observar o homem; começou pelo braço que segurava a sua mão, firmemente esticado… as veias, salientes como pequenas cordilheiras, sobressaíam da sua pele morena, mas baça e seca… queimada do sol… uma linda boca… pequena… Maria corou…
- Espero que não te tenhas magoado… - disse-lhe, não parando de dançar.
Maria não percebeu…
- Desculpa?!!!
- A escadaria? O Santo António partido?... Não te lembras? - disse, rindo.
Maria olhava agora novamente para o seu braço e rapidamente o reconheceu…Tinha sido ele que a ajudara a levantar; tinha sido um daqueles braços fortes, que agora a seguravam com firmeza enquanto dançavam, que ela vira no meio da multidão…
- Ah! Desculpa não te ter reconhecido… - disse, um pouco envergonhada - E aproveito também para te agradecer… - continuou, baixando os olhos…
- Bem, não tens de quê… mas aleijaste-te?
- Não!... Quer dizer, um arranhãozito no joelho… coisa pouca…
Ele parou de dançar e baixou-se para ver…
- Não parece nada de grave… - disse, ao mesmo tempo que se levantava e a agarrava novamente pela cintura, fazendo-a rodopiar com a outra mão…
O seu nome era Ernesto e era marinheiro; estava de licença e por isso aproveitara para festejar o Santo António com uns colegas; fora mero acaso a sua presença na escadaria nessa noite; tinha-se perdido dos companheiros e por isso decidira voltar atrás para ver se os encontrava; essa resolução implicou subir novamente a escadaria do Arco da Dona Rosa… foi aí que se cruzaram... continuavam a dançar mesmo enquanto ele falava… os seus olhares não se cruzavam…Maria escutava-o… Havia algo de familiar nele... Por momentos veio-lhe á memória a imagem do seu pai; era um homem robusto, com braços fortes e compridos… tinha em comum com Ernesto aquele tom moreno, baço e desgastado… que só os homens do mar têm… fechou os olhos e por breves instantes conseguiu ver o seu rosto…
“(…) das festas, das seculares procissões, dos populares pregões matinais que já não voltam mais!...” - a música tinha acabado e Maria abriu novamente os olhos… continuavam ainda de mão dada… ele olhando para ela sorrindo…
- Ah!!! O João!!!... Esqueci-me completamente dele… - e procurou-o com o olhar; encontrou-o encostado ao balcão do bar, em amena cavaqueira com três ou quatro raparigas; sorriu e voltou-se para o seu salvador:
- Preciso descansar um bocado… - disse, largando a mão dele, nervosamente…
- Ok… Podíamos procurar um sitio com menos barulho, onde nos pudéssemos sentar e conversar… Talvez assim conseguisse saber alguma coisa sobre ti, já que fui só eu que falei… Além disso preciso de companhia até ás cinco da manhã - disse olhando para o relógio - … já só falta hora e meia… e perdi os meus amigos…
Os seus olhos escuros brilhavam enquanto falava; Maria observava-o… aquele brilho… já o tinha visto antes… e mais uma vez a imagem do pai… sempre que saia para o mar… na altura perguntara-se se não seria o reflexo do rio, mas não… o brilho mantinha-se igual, mesmo quando não havia rio nem sol por perto…
- Então?...
Maria olhava para ele com um sorriso distante; ele tocou-lhe no braço como que a puxá-la de volta para a realidade;
- Hã?!... Desculpa… Sim… acho que sim… - balbuciou Maria, sem ter a certeza da resposta… - Mas tenho de falar com o João… Dás-me um minuto?... - e dirigiu-se para o bar… João ao vê-la esboçou um sorriso maroto;
- Ora, ora… pensei que já não te via mais esta noite - disse com voz arrastada…
- Foi ele que me ajudou quando eu cai, acreditas nisto?... - respondeu Maria excitadamente… - Vou acompanhá-lo ao cais de Santa Apolónia… Queres vir?
- Já ouviste aquela frase?... Um é masturbação, dois é bom e três é demais… -e soltou uma gargalhada…
Rindo-se, Maria puxou-o para si e disse-lhe ao ouvido:
- Vontade não me falta… mas tu conheces-me, meu amigo… não consigo…
- Eu sei… e por isso não estou minimamente preocupado contigo… passo a pasta ao grandalhão… ele que continue a tomar conta de ti por hoje - respondeu ele, beijando-a na mão…
Maria soprou um beijo na sua direcção e voltou para junto de Ernesto, que a aguardava na saída do largo…
- Está tudo? - disse em tom de piada, sorrindo, quando a viu chegar. Maria abanou a cabeça afirmativamente, pronta e decidida a mergulhar uma vez mais na confusão de gente que ainda deambulava pelas ruas… As barracas que vendiam bebidas, começavam agora a fechar, sinal de que já nada tinham para oferecer aos clientes… o tapete plástico tinha-se tornado mais espesso… Caminhavam lado a lado, e Maria tentava resumir a história da sua vida; falou-lhe do pai e da mãe já falecidos; do emprego que mantinha mas que detestava; do namorado ausente; do casamento marcado; das dúvidas… e só se deixou levar pela emoção quando abordou a sua paixão pelo rio…
- Acabei de ter uma ideia!... Como forma de agradecimento vou-te mostrar o meu sitio favorito da cidade… O mais bonito… - disse ela - Estás interessado?...
- Tenho tempo… e estou curioso… - respondeu Ernesto - Vamos lá…
Maria fez-lhe sinal para cortarem á direita e seguirem em frente… Passaram a Casa dos Bicos e continuaram… sempre a conversar… estava feliz por a noite não ter sido um completo desastre… de certa forma o incidente da queda até tinha ajudado a torná-la mais interessante… de outra forma não o teria conhecido… Afinal tinha de agradecer ao santo António a boa companhia daquela noite… Os vasos de manjericos perfumavam o ar… e a música ainda se fazia ouvir… Chegaram á praça do Terreiro do Paço…
- É para aqui que venho quando preciso de pensar… - e começou a andar em direcção ao rio; ele seguia-a… - Muitas das vezes sento-me lá em baixo - disse apontando para o ancoradouro.
- Tens de admitir que é um dos mais belos sítios que esta cidade tem!...
Ele caminhava atrás dela, observando-a e ouvindo-a… Preparavam-se para atravessar a estrada… não havia carros a passar e Maria avançou decididamente, mas no meio da passadeira deteve-se, voltou-se para trás e gritou:
- Despacha… - mas não acabou a frase porque sem se saber de onde apareceu um carro a grande velocidade que a abalroou… ainda tentou travar… ouviu-se o chiar dos pneus… mas no ar apenas um cheiro intenso a borracha queimada… Maria foi projectada para junto de uma das colunas do ancoradouro… Ernesto correu para junto de si… O condutor do carro também… Deitada no chão, gemia… não sentia as pernas… Ernesto ajoelhou-se ao seu lado e agarrou-lhe na mão… sentiu a mão dele a segurar a sua…
- Está bem? - perguntou o condutor com a voz a tremer… Maria virou a cabeça para responder e soltou instantaneamente um grito abafado;
- Não!... Não…
Á sua frente o noivo… era ele o condutor do carro…
- Ma… Maria!!! - exclamou ele aflito…
- Vocês conhecem-se? - perguntou Ernesto sem a largar…
- Este é o António… Aí!!!... o meu noivo…
António, permanecia lívido e sem qualquer reacção… a rapariga que viajava no carro com ele apressara-se a telefonar a chamar uma ambulância e só agora vinha ter com eles;
- Querido, está tudo bem? - e colocou o seu braço á volta da cintura de António… - A ambulância já vem a caminho…
António não respondia… dos olhos de Maria escorriam agora lágrimas… não só de dor mas também de raiva…apertou com mais força a mão de Ernesto e pediu-lhe baixinho:
- Não a largues, por favor!!!
Ernesto olhou-a nos olhos e sorriu… os seus olhos brilhavam… olhou rapidamente para as pernas dela e viu diversas fracturas expostas… voltou a olhá-la nos olhos… e apertou a sua mão com mais força…
André C: O nascimento de um não-lugar
Sinopse
Este conto tem como protagonista um lugar, a rua onde vivi. Pretende ser apenas uma história do seu progressivo esvaziamento social. Um lugar outrora vibrante e dinâmico foi-se tornando, progressivamente, apático, amorfo e silencioso.
Assumindo que um lugar depende da inscrição no espaço-tempo de uma identidade e que esta é um produto das relações que nele se cristalizam, este conto baseia-se na recordação por parte do lugar de um conjunto de memórias fragmentadas do seu passado.
No momento em que se aproxima do seu fim, recorda alguns episódios não atraiçoados pela memória. Esta é, assim, a história contada de uma rua, de um lugar, enquanto entidade orgânica e evolutiva, que se confronta com a inevitabilidade da sua própria finitude. Ao fazê-lo, recorda um passado mítico que pode, afinal, nunca ter existido.
O nascimento de um não-lugar
Estou doente. Sinto-me mal.
Sinto que estou a chegar ao fim dos meus dias e não consigo vislumbrar um caminho alternativo que me permita sobreviver.
Estou doente. Sinto-me mal.
Tenho memórias de um passado a cada dia mais longínquo e ténue, cuja perda me dilacera e consome.
Não quero, porém, partir sem inscrever na escultura do tempo, aquilo que me deu vida.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
Olhando para o rio, ao fundo, já mal lhe sinto o cheiro. À arena de épicas batalhas que não raras vezes terminaram com heróicas derrotas já não a vejo. Já não existe. O vazio que foi sendo um pouco de tudo, dando novo fôlego à intensificação da constrição que sinto, desapareceu. Hoje, existe um monstro que encanta e empobrece. O meu coração está frágil e minhas artérias rígidas, pouco sangue nelas circula. Lenta e vagarosamente.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
A novidade dera lugar à monotonia e a um andamento apático que não se deixava surpreender. Era como se o caminhar não deixasse rasto e pairasse ligeiramente sobre o solo. A erosão imprimia já o seu cunho nas paisagens, no asfalto, no betão, nos revestimentos mais ou menos viscosos e escorrentes. Os esqueletos de ferro assomavam lá do alto, olhando decadentemente para baixo. A ausência de ruído, porque também de silêncios é feita a música, fora substituída pela perpétua trilha sonora da urbanidade mais frívola e banal.
Sinto-me mal. Sinto que cheguei ao fim.
Os túneis e labirintos que me atravessavam, os faróis que desorientando destruíram, tudo isso são memórias dum passado que se oblitera sob o peso do presente. Ainda assim a sua resiliência faz com que retornem à superfície de tempos a tempos, esbracejando e lutando contra o que agora já parece inevitável, para evitar a submersão. Lutando, lutando. Sabendo, porém, que o movimento frenético e incessante só torna mais rápida a chegada do fim.
Sinto que cheguei ao fim. Esta é a minha última luta.
O dia
Acorriam bem cedo para brincar. Ainda o céu estava opaco e o sol não se vislumbrava no fio de horizonte visível. O silêncio matutino era apenas quebrado pelos pássaros de aço que percorriam o asfalto e saciavam a sua sede no oásis. Ocasionalmente, também uma ou outra pessoa se atravessava no caminho. Umas, em passo lento e curvado, outras, acelerada e asmaticamente. Rumo a destino incerto.
Sem hora marcada iam chegando. Uns primeiro, outros depois. Todos. Para brincar. Sem saber bem o que o futuro lhes reservava construíam o presente a cada momento, puxando o futuro para perto de si. Vigorosamente. Por vezes, sem sentido, outras vezes em sentido. Uma horda infantil que sorvia toda a liberdade e movimento do lufa-lufa quotidiano.
O desporto-rei de massa, plástico, plasticina e cera era o centro das atenções. O pelado, liso, encerado, e bamboleante estava sempre em parte incerta. Por vezes destroçado, vandalizado, coberto por um manto de invisibilidade, pois os inimigos lá do topo não davam tréguas, motivava a ira dos mentores e dos adeptos mais incendiáveis. Muitos maquiavélicos planos de vingança era engendrados ali naquele mesmo instante. Raramente tinham pernas para caminhar mas eram meticulosamente planeados no longo minuto que durava a ira.
Se, por sorte, embora fosse a maioria das vezes mas a sorte aqui não é uma questão de números e probabilidades mas sim de ânimos destroçados. Se por sorte, como dizia eu, o relvado estivesse homologado e cumprindo todos os regulamentos e todas as regras e costumes que eram hábito cumprir-se, tradições de há muitos anos que não deviam ser ignoradas mas cuja memória hoje já se perdeu, então era tempo de o fazer descer à terra. Uma viagem que nem sempre corre bem. Como é sabido.
Antigamente, quando a realidade era ainda e só a real, era preciso fazer sair os atletas que iriam dentro em breve encantar ou desapontar as bancadas, pois o futuro só está escrito amanhã, do anonimato. Era preciso dar-lhes um nome, uma face, um passado e uma trajectória. Mas era tudo mentira, obviamente, verdadeira identidade já eles tinham definida quase sempre no momento do achamento, da compra ou do roubo. As falsas identidades eram roubadas em língua francesa, num acto sublime de sofisticada erudição.
Textura, peso, ângulo, diâmetro, estilo, identidade, historial, tudo servia para definir a correcta avaliação da condição física do atleta e da selecção do onze que iria iniciar o desafio. Os do bigode, circunspectos e concentrados, davam os últimos retoques, nunca imunes à pressão dos meios de comunicação social, dos adeptos, de algum vizinho ou transeunte mais atento e curioso.
O ambiente era hostil, fervoroso, a luminosidade escassa e as lufadas de vento faziam, por vezes, oscilar os alicerces sempre trémulos e periclitantes das bancadas. Os desafios quase nunca amigáveis. Tácticas e estratégias variavam, embora a defesa fosse sempre compacta, e a incerteza no resultado, uma constante. Os jogos sucediam-se, uns atrás dos outros, longas horas, todos os dias, numa regularidade que fazia parecer estática a mudança incessante trazida pela passagem do tempo. O espaço, esse, era imutável.
Olhando para trás, a singularidade da actividade era tal que as viagens à capital para averiguar a possibilidade de novas contratações e possíveis malabarismos ilusionistas eram já reconhecidamente localizáveis. Era daqui e não de acolá que partiam os mestres da arte dos micro-futebóis cristalizando e antecipando uma mudança que já se avizinhava.
Os negócios não eram raros, mas raros eram aqueles cuja magnitude excedia os limites da razoabilidade e por isso mesmo se inscreviam indelevelmente na dupla que os realizava sem saber que a perenidade da sua acção era indiscutível.
Para a mudança de escala ia uma distância tão rapidamente percorrível que mal se dava pela escorrência do tempo. Mergulhavam nos espaços entrecruzando-se, baralhando-se, uma amálgama de movimento, som e teatralidade. Por momentos, todos os truques se condensavam num só palco, numa arena suburbana cuja origem remontava a um truculento projecto colectivo de colaboração prefigurativa.
Vários membros se moveram numa mesma direcção, empurrando, puxando, erguendo, sopesando, batendo e calcando, os materiais e ferramentas, moldando e morfologizando o lugar-acção. A demanda foi longa e demorada mas a confiança assente no vislumbramento do horizonte, da trajectória a percorrer tornava menos penosa a sua concretização.
Medições, objecções, debates e desvios foram marcando o caminho, sinuoso mas rectilíneo. Industriosa herança e tradição plasmando-se também aqui bem dentro das fronteiras que aninhavam no seu ventre as pueris criaturas. Metamorfoseando-se, o espaço, fez-se lugar, imbuiu-se de sentido e significado. Tornara-se mais próximo deles, sua propriedade comunitária, partilhada com aqueles que dela se mostravam dignos.
Num instante estava concluída. Satisfação nos rostos dos obreiros. Imensa. Genuína. Uma espécie de grito de revolta perante os antagonistas que perfidamente iam comprimindo as liberdades e amputando as efémeras e pulsáteis manifestações de regozijo. O cansaço de alguns, não todos, pois apenas o empenhamento de alguns cumpriu um exercício que era inicialmente uma manifestação do poder social da acção colectiva, tornou ainda mais notável a transfiguração da arquitectura rígida que então existia. A plasticidade dos espaços mostrara, mais uma vez, a sua mais beleza e singularidade.
Era preciso agora pô-lo a mexer. Sem interrupções nem equívocos. Sem artifícios nem ambiguidades. A mexer. Só. A mexer. Para que o efeito desejado tomasse forma era necessário um empenhamento que não deixasse dúvidas quanto à vontade de alcançar o efeito desejado, o movimento. E assim foi.
Deixando à aleatoriedade probabilística dos deuses a selecção natural dos pares, justiça fora feita sem tibiezas nem ambiguidades, injustamente.
Chegada a hora, feitos os últimos preparativos e cumpridas as cerimónias, abriram-se as hostilidades, entre amigos. No plural. No masculino. Se algum espectro havia que pairasse no ar, era o da testosterona que reprimia todos os seres que não atingissem o paroxismo da obtusidade mais grotesca.
Uma após as outras foram-se sucedendo as batalhas, numa guerra imensa cujos limites eram coincidentes com a superfície do lugar que vai perdendo o fôlego com o aproximar do crepúsculo. Momentaneamente.
Antes porém, as acções confundiam-se, sincretizavam-se, fora, dentro, dentro e fora, a mensagem circulava incessantemente num meio gelatinoso que se sublima a cada instante para logo solidificar no momento que se segue.
Jogos mentais depreciativos, verborreias maldicentes, estigas malaicas e dicas pesadas, todas estas manifestações de escárnio suburbanita confluíam, ali encontravam alento, incubavam e medravam, expandindo suas fronteiras. Fugaz e pegajosamente. Fazendo parte do jogo. A maior parte do jogo. Ela, ali, não chorava, desejava uma morte rápida. Mas tudo prosseguia. Como sempre prosseguia e prosseguiu, ontem.
Intensidade ondulante ia rapidamente do zénite ao nadir, por ali permanecendo longas horas, minutos, muitos mais. Escapar à condição era difícil, tarefa inverosímil que, ainda assim, por vezes, acontecia. Apenas por vezes. Por vezes.
No encerramento, desapontamento e esfuziante satisfação sarcástica coexistiam lado a lado numa arena incapaz de maltratar os vencidos ainda que estes não se inibissem de a atropelar violentamente, repetidamente. Sempre. Todos os dias.
Chegava sempre a luminosidade das trevas, que calculava as trajectórias de fuga não planeadas, quase sempre contragostadas, macambúzias, para que fossem partilhadas as efemeridades dum passado próximo que ainda parecia presente. Não a todos. Mas quase.
Tocavam as sirenes, sonoridades que omniscientemente ondulavam pelos céus, vindas do topo, causando reacções alérgicas de várias intensidades, perigosidades e saudades. A antecipação do momento causava a dor que se ignorava mesmo até ao limite do possível, sendo sempre sonhada a inexistência do chamamento. Mas ele vinha. Sempre. Todos os dias.
A noite
Amanheciam as noites. As esferas brilhantes soavam como uivos que lembravam aos militantes a eminência dos eventos. A impunidade da cegueira criava pequenos rabinos que pregavam comédias e filmes de acção com casualidades múltiplas.
Sanguinolentas perseguições, fugas subliminares, contrabandos esquecidos, todos acorriam sob o luar das estrelas que iluminavam os canais por onde se entretecia a acção. Que deslizava tropegamente sobre o tempo.
O tear dos momentos era incerto e progressivamente mais afastado da segurança de mapas mentais já cartografados a escalas que recobriam um real em constante devir sem certezas de que as coordenadas eram suficientemente falsas para nelas podermos confiar.
Às dezenas buscavam-se uns aos outros, vítimas eram sempre o mesmo, era como se o destino estivesse pré-determinado. Estava. Só para ele. Justo ou não era mesmo assim. Indelével e perene. Sozinho, a busca parecia interminável, ainda que as estratégias fossem treinadas, sofisticadas e elaboradamente reflectidas para logo se esboroarem sob as baixas pressões vindas de oriente, de olhos rasgados.
Espionagem de alto gabarito era ensaiada sob o manto opaco da ausência negra de luminosidade. Estratégias tão longamente preparadas que inevitavelmente deixavam para um amanhã longínquo o que ontem nunca se fez. Não fará.
Galerias subterrâneas eram também percorridas veloz e arriscadamente sem bússola nem canários mas com sofisticados mecanismos de transmissão, longos, imensamente longos e faiscantes. Arriscando a tragédia a cada curva, recta, paragem, arranque, subida ou descida, os duplos tornavam-se triplos e quádruplos. Mais vidas que as dum gatil.
Subitamente, fez-se luz. Não havia saída à vista e o tempo passava rapidamente. A sabedoria alquimista de traficantes exauridos pelo cansaço da falácia bombasticamente elaborada mostrara-se, mais uma vez, sempre, descuidadamente ineficaz.
Surrealmente perdidos nesse universo (re)criado as narrativas sobrepunham-se, os espaços entrecruzavam-se e as personagens tornavam-se ficções da vida real. Pulavam telhados ensacando tesouros oculares que voavam para a burguesia endinheirada indignada por tal acontecimento.
Artistas, pianistas, teclistas corredores, furtivos e obviamente culpados. Juntos, tropeliavam sucessivamente os inimigos privados deste espaço partilhado. Xerifes, pais de família, malucos da guerra, batateiros, todos eram alvos privilegiados duma fúria cega que infantilmente gerada não se apercebia dos erros tácticos nas artimanhas infundadas.
Sobrevoavam intrépidos os calhaus, seixos, xistos, ardósias, granitos e grauvaques. O alvo era odiosamente amado, tantas vezes massacrado mas resilientemente persistia numa existência com fim à vista. Mas não ainda. Depois.
Duplos silicatos solidamente escorridos protegendo calçados enriquecidos pereciam ante os projécteis disparados com a precisão cirúrgica de um guarda-redes teimosamente habituado a sentar-se muito longe do local de trabalho.
Extinguindo-se um único foco de contágio enegreciam as sombras já imóveis. A cegueira dum vulto em corrida desgastava o atleta em exercício. Impreciso, explodiam plásticos rígidos e banais, esburacadamente pincelados como ornamentos aspergidos em latão adquirido no beco original.
Obstáculos e barreiras impediam a inacção de todos aqueles que compassadamente acorriam. Campo de treinos de paralisias musculares e fisioterapias regulares, radicais livres sobre patins, e outras plataformas importadas, não olhavam para trás. Fugiam dele. Para diante.
Esgotados lançavam fogo pelos ares, escuteiros sem meias nem calções, fartas cabeleiras, gémeas articulações que sondavam novas possibilidades de aventureirismo noctígavo, sonambulismo acordado.
Implosões cronometradas de multinacionais arremessadas contra sistemas financeiros locais eram iniciações ao verter de venenos corrosivos que impunham respeito pela incerteza que deixavam libertar. Agora. Talvez, para depois.
Promiscuidades automóveis iam fazendo suas revisões, com mecânicos encartados e experientes velocistas desarmados. Tecnologias pós-modernas no passado alumiavam sofreguidões exaltadas de duração limitada, resvalando para a noitada ilegalmente jogada.
Perscrutando as urbanas escaladas surgiam velhos sapientes, aconselhamentos pausados, aborrecidos e demorados que impacientavam as multidões respeitadoras das imposições assertivamente redigidas no ocaso.
Entranhando-se o cansaço disfarçado. Esmagando-se a sonolência furtiva. Pesada. Virtuosamente combatida num jeito desleixado e infantil.
O tempo chegara ao fim. A inevitabilidade da partida era óbvia. Nada mais havia para fazer.
Sinto que cheguei ao fim.
Sinto-me mal. Lutei. Morri.
Este conto tem como protagonista um lugar, a rua onde vivi. Pretende ser apenas uma história do seu progressivo esvaziamento social. Um lugar outrora vibrante e dinâmico foi-se tornando, progressivamente, apático, amorfo e silencioso.
Assumindo que um lugar depende da inscrição no espaço-tempo de uma identidade e que esta é um produto das relações que nele se cristalizam, este conto baseia-se na recordação por parte do lugar de um conjunto de memórias fragmentadas do seu passado.
No momento em que se aproxima do seu fim, recorda alguns episódios não atraiçoados pela memória. Esta é, assim, a história contada de uma rua, de um lugar, enquanto entidade orgânica e evolutiva, que se confronta com a inevitabilidade da sua própria finitude. Ao fazê-lo, recorda um passado mítico que pode, afinal, nunca ter existido.
O nascimento de um não-lugar
Estou doente. Sinto-me mal.
Sinto que estou a chegar ao fim dos meus dias e não consigo vislumbrar um caminho alternativo que me permita sobreviver.
Estou doente. Sinto-me mal.
Tenho memórias de um passado a cada dia mais longínquo e ténue, cuja perda me dilacera e consome.
Não quero, porém, partir sem inscrever na escultura do tempo, aquilo que me deu vida.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
Olhando para o rio, ao fundo, já mal lhe sinto o cheiro. À arena de épicas batalhas que não raras vezes terminaram com heróicas derrotas já não a vejo. Já não existe. O vazio que foi sendo um pouco de tudo, dando novo fôlego à intensificação da constrição que sinto, desapareceu. Hoje, existe um monstro que encanta e empobrece. O meu coração está frágil e minhas artérias rígidas, pouco sangue nelas circula. Lenta e vagarosamente.
Sinto-me mal. Sinto-me muito mal.
A novidade dera lugar à monotonia e a um andamento apático que não se deixava surpreender. Era como se o caminhar não deixasse rasto e pairasse ligeiramente sobre o solo. A erosão imprimia já o seu cunho nas paisagens, no asfalto, no betão, nos revestimentos mais ou menos viscosos e escorrentes. Os esqueletos de ferro assomavam lá do alto, olhando decadentemente para baixo. A ausência de ruído, porque também de silêncios é feita a música, fora substituída pela perpétua trilha sonora da urbanidade mais frívola e banal.
Sinto-me mal. Sinto que cheguei ao fim.
Os túneis e labirintos que me atravessavam, os faróis que desorientando destruíram, tudo isso são memórias dum passado que se oblitera sob o peso do presente. Ainda assim a sua resiliência faz com que retornem à superfície de tempos a tempos, esbracejando e lutando contra o que agora já parece inevitável, para evitar a submersão. Lutando, lutando. Sabendo, porém, que o movimento frenético e incessante só torna mais rápida a chegada do fim.
Sinto que cheguei ao fim. Esta é a minha última luta.
O dia
Acorriam bem cedo para brincar. Ainda o céu estava opaco e o sol não se vislumbrava no fio de horizonte visível. O silêncio matutino era apenas quebrado pelos pássaros de aço que percorriam o asfalto e saciavam a sua sede no oásis. Ocasionalmente, também uma ou outra pessoa se atravessava no caminho. Umas, em passo lento e curvado, outras, acelerada e asmaticamente. Rumo a destino incerto.
Sem hora marcada iam chegando. Uns primeiro, outros depois. Todos. Para brincar. Sem saber bem o que o futuro lhes reservava construíam o presente a cada momento, puxando o futuro para perto de si. Vigorosamente. Por vezes, sem sentido, outras vezes em sentido. Uma horda infantil que sorvia toda a liberdade e movimento do lufa-lufa quotidiano.
O desporto-rei de massa, plástico, plasticina e cera era o centro das atenções. O pelado, liso, encerado, e bamboleante estava sempre em parte incerta. Por vezes destroçado, vandalizado, coberto por um manto de invisibilidade, pois os inimigos lá do topo não davam tréguas, motivava a ira dos mentores e dos adeptos mais incendiáveis. Muitos maquiavélicos planos de vingança era engendrados ali naquele mesmo instante. Raramente tinham pernas para caminhar mas eram meticulosamente planeados no longo minuto que durava a ira.
Se, por sorte, embora fosse a maioria das vezes mas a sorte aqui não é uma questão de números e probabilidades mas sim de ânimos destroçados. Se por sorte, como dizia eu, o relvado estivesse homologado e cumprindo todos os regulamentos e todas as regras e costumes que eram hábito cumprir-se, tradições de há muitos anos que não deviam ser ignoradas mas cuja memória hoje já se perdeu, então era tempo de o fazer descer à terra. Uma viagem que nem sempre corre bem. Como é sabido.
Antigamente, quando a realidade era ainda e só a real, era preciso fazer sair os atletas que iriam dentro em breve encantar ou desapontar as bancadas, pois o futuro só está escrito amanhã, do anonimato. Era preciso dar-lhes um nome, uma face, um passado e uma trajectória. Mas era tudo mentira, obviamente, verdadeira identidade já eles tinham definida quase sempre no momento do achamento, da compra ou do roubo. As falsas identidades eram roubadas em língua francesa, num acto sublime de sofisticada erudição.
Textura, peso, ângulo, diâmetro, estilo, identidade, historial, tudo servia para definir a correcta avaliação da condição física do atleta e da selecção do onze que iria iniciar o desafio. Os do bigode, circunspectos e concentrados, davam os últimos retoques, nunca imunes à pressão dos meios de comunicação social, dos adeptos, de algum vizinho ou transeunte mais atento e curioso.
O ambiente era hostil, fervoroso, a luminosidade escassa e as lufadas de vento faziam, por vezes, oscilar os alicerces sempre trémulos e periclitantes das bancadas. Os desafios quase nunca amigáveis. Tácticas e estratégias variavam, embora a defesa fosse sempre compacta, e a incerteza no resultado, uma constante. Os jogos sucediam-se, uns atrás dos outros, longas horas, todos os dias, numa regularidade que fazia parecer estática a mudança incessante trazida pela passagem do tempo. O espaço, esse, era imutável.
Olhando para trás, a singularidade da actividade era tal que as viagens à capital para averiguar a possibilidade de novas contratações e possíveis malabarismos ilusionistas eram já reconhecidamente localizáveis. Era daqui e não de acolá que partiam os mestres da arte dos micro-futebóis cristalizando e antecipando uma mudança que já se avizinhava.
Os negócios não eram raros, mas raros eram aqueles cuja magnitude excedia os limites da razoabilidade e por isso mesmo se inscreviam indelevelmente na dupla que os realizava sem saber que a perenidade da sua acção era indiscutível.
Para a mudança de escala ia uma distância tão rapidamente percorrível que mal se dava pela escorrência do tempo. Mergulhavam nos espaços entrecruzando-se, baralhando-se, uma amálgama de movimento, som e teatralidade. Por momentos, todos os truques se condensavam num só palco, numa arena suburbana cuja origem remontava a um truculento projecto colectivo de colaboração prefigurativa.
Vários membros se moveram numa mesma direcção, empurrando, puxando, erguendo, sopesando, batendo e calcando, os materiais e ferramentas, moldando e morfologizando o lugar-acção. A demanda foi longa e demorada mas a confiança assente no vislumbramento do horizonte, da trajectória a percorrer tornava menos penosa a sua concretização.
Medições, objecções, debates e desvios foram marcando o caminho, sinuoso mas rectilíneo. Industriosa herança e tradição plasmando-se também aqui bem dentro das fronteiras que aninhavam no seu ventre as pueris criaturas. Metamorfoseando-se, o espaço, fez-se lugar, imbuiu-se de sentido e significado. Tornara-se mais próximo deles, sua propriedade comunitária, partilhada com aqueles que dela se mostravam dignos.
Num instante estava concluída. Satisfação nos rostos dos obreiros. Imensa. Genuína. Uma espécie de grito de revolta perante os antagonistas que perfidamente iam comprimindo as liberdades e amputando as efémeras e pulsáteis manifestações de regozijo. O cansaço de alguns, não todos, pois apenas o empenhamento de alguns cumpriu um exercício que era inicialmente uma manifestação do poder social da acção colectiva, tornou ainda mais notável a transfiguração da arquitectura rígida que então existia. A plasticidade dos espaços mostrara, mais uma vez, a sua mais beleza e singularidade.
Era preciso agora pô-lo a mexer. Sem interrupções nem equívocos. Sem artifícios nem ambiguidades. A mexer. Só. A mexer. Para que o efeito desejado tomasse forma era necessário um empenhamento que não deixasse dúvidas quanto à vontade de alcançar o efeito desejado, o movimento. E assim foi.
Deixando à aleatoriedade probabilística dos deuses a selecção natural dos pares, justiça fora feita sem tibiezas nem ambiguidades, injustamente.
Chegada a hora, feitos os últimos preparativos e cumpridas as cerimónias, abriram-se as hostilidades, entre amigos. No plural. No masculino. Se algum espectro havia que pairasse no ar, era o da testosterona que reprimia todos os seres que não atingissem o paroxismo da obtusidade mais grotesca.
Uma após as outras foram-se sucedendo as batalhas, numa guerra imensa cujos limites eram coincidentes com a superfície do lugar que vai perdendo o fôlego com o aproximar do crepúsculo. Momentaneamente.
Antes porém, as acções confundiam-se, sincretizavam-se, fora, dentro, dentro e fora, a mensagem circulava incessantemente num meio gelatinoso que se sublima a cada instante para logo solidificar no momento que se segue.
Jogos mentais depreciativos, verborreias maldicentes, estigas malaicas e dicas pesadas, todas estas manifestações de escárnio suburbanita confluíam, ali encontravam alento, incubavam e medravam, expandindo suas fronteiras. Fugaz e pegajosamente. Fazendo parte do jogo. A maior parte do jogo. Ela, ali, não chorava, desejava uma morte rápida. Mas tudo prosseguia. Como sempre prosseguia e prosseguiu, ontem.
Intensidade ondulante ia rapidamente do zénite ao nadir, por ali permanecendo longas horas, minutos, muitos mais. Escapar à condição era difícil, tarefa inverosímil que, ainda assim, por vezes, acontecia. Apenas por vezes. Por vezes.
No encerramento, desapontamento e esfuziante satisfação sarcástica coexistiam lado a lado numa arena incapaz de maltratar os vencidos ainda que estes não se inibissem de a atropelar violentamente, repetidamente. Sempre. Todos os dias.
Chegava sempre a luminosidade das trevas, que calculava as trajectórias de fuga não planeadas, quase sempre contragostadas, macambúzias, para que fossem partilhadas as efemeridades dum passado próximo que ainda parecia presente. Não a todos. Mas quase.
Tocavam as sirenes, sonoridades que omniscientemente ondulavam pelos céus, vindas do topo, causando reacções alérgicas de várias intensidades, perigosidades e saudades. A antecipação do momento causava a dor que se ignorava mesmo até ao limite do possível, sendo sempre sonhada a inexistência do chamamento. Mas ele vinha. Sempre. Todos os dias.
A noite
Amanheciam as noites. As esferas brilhantes soavam como uivos que lembravam aos militantes a eminência dos eventos. A impunidade da cegueira criava pequenos rabinos que pregavam comédias e filmes de acção com casualidades múltiplas.
Sanguinolentas perseguições, fugas subliminares, contrabandos esquecidos, todos acorriam sob o luar das estrelas que iluminavam os canais por onde se entretecia a acção. Que deslizava tropegamente sobre o tempo.
O tear dos momentos era incerto e progressivamente mais afastado da segurança de mapas mentais já cartografados a escalas que recobriam um real em constante devir sem certezas de que as coordenadas eram suficientemente falsas para nelas podermos confiar.
Às dezenas buscavam-se uns aos outros, vítimas eram sempre o mesmo, era como se o destino estivesse pré-determinado. Estava. Só para ele. Justo ou não era mesmo assim. Indelével e perene. Sozinho, a busca parecia interminável, ainda que as estratégias fossem treinadas, sofisticadas e elaboradamente reflectidas para logo se esboroarem sob as baixas pressões vindas de oriente, de olhos rasgados.
Espionagem de alto gabarito era ensaiada sob o manto opaco da ausência negra de luminosidade. Estratégias tão longamente preparadas que inevitavelmente deixavam para um amanhã longínquo o que ontem nunca se fez. Não fará.
Galerias subterrâneas eram também percorridas veloz e arriscadamente sem bússola nem canários mas com sofisticados mecanismos de transmissão, longos, imensamente longos e faiscantes. Arriscando a tragédia a cada curva, recta, paragem, arranque, subida ou descida, os duplos tornavam-se triplos e quádruplos. Mais vidas que as dum gatil.
Subitamente, fez-se luz. Não havia saída à vista e o tempo passava rapidamente. A sabedoria alquimista de traficantes exauridos pelo cansaço da falácia bombasticamente elaborada mostrara-se, mais uma vez, sempre, descuidadamente ineficaz.
Surrealmente perdidos nesse universo (re)criado as narrativas sobrepunham-se, os espaços entrecruzavam-se e as personagens tornavam-se ficções da vida real. Pulavam telhados ensacando tesouros oculares que voavam para a burguesia endinheirada indignada por tal acontecimento.
Artistas, pianistas, teclistas corredores, furtivos e obviamente culpados. Juntos, tropeliavam sucessivamente os inimigos privados deste espaço partilhado. Xerifes, pais de família, malucos da guerra, batateiros, todos eram alvos privilegiados duma fúria cega que infantilmente gerada não se apercebia dos erros tácticos nas artimanhas infundadas.
Sobrevoavam intrépidos os calhaus, seixos, xistos, ardósias, granitos e grauvaques. O alvo era odiosamente amado, tantas vezes massacrado mas resilientemente persistia numa existência com fim à vista. Mas não ainda. Depois.
Duplos silicatos solidamente escorridos protegendo calçados enriquecidos pereciam ante os projécteis disparados com a precisão cirúrgica de um guarda-redes teimosamente habituado a sentar-se muito longe do local de trabalho.
Extinguindo-se um único foco de contágio enegreciam as sombras já imóveis. A cegueira dum vulto em corrida desgastava o atleta em exercício. Impreciso, explodiam plásticos rígidos e banais, esburacadamente pincelados como ornamentos aspergidos em latão adquirido no beco original.
Obstáculos e barreiras impediam a inacção de todos aqueles que compassadamente acorriam. Campo de treinos de paralisias musculares e fisioterapias regulares, radicais livres sobre patins, e outras plataformas importadas, não olhavam para trás. Fugiam dele. Para diante.
Esgotados lançavam fogo pelos ares, escuteiros sem meias nem calções, fartas cabeleiras, gémeas articulações que sondavam novas possibilidades de aventureirismo noctígavo, sonambulismo acordado.
Implosões cronometradas de multinacionais arremessadas contra sistemas financeiros locais eram iniciações ao verter de venenos corrosivos que impunham respeito pela incerteza que deixavam libertar. Agora. Talvez, para depois.
Promiscuidades automóveis iam fazendo suas revisões, com mecânicos encartados e experientes velocistas desarmados. Tecnologias pós-modernas no passado alumiavam sofreguidões exaltadas de duração limitada, resvalando para a noitada ilegalmente jogada.
Perscrutando as urbanas escaladas surgiam velhos sapientes, aconselhamentos pausados, aborrecidos e demorados que impacientavam as multidões respeitadoras das imposições assertivamente redigidas no ocaso.
Entranhando-se o cansaço disfarçado. Esmagando-se a sonolência furtiva. Pesada. Virtuosamente combatida num jeito desleixado e infantil.
O tempo chegara ao fim. A inevitabilidade da partida era óbvia. Nada mais havia para fazer.
Sinto que cheguei ao fim.
Sinto-me mal. Lutei. Morri.
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